
No início dos anos 2000, em Barcelona, alguns amigos conversavam animadamente sobre o cantor Miguel Bosé. Ingenuamente, perguntei quem era.
Eles me olharam com espanto. Depois sorriram, me abraçaram e disseram que eu era do planeta Brasil. Eu não conhecia o mundo em espanhol.
A frase ficou comigo.
Desde aquele dia, comecei a prestar mais atenção ao quanto somos fechados à cultura hispânica — especialmente à cultura latino-americana.
Comigo, isso mudou bastante.
No Brasil, pouco. Pouquíssimo.
Ainda sabemos menos do que deveríamos sobre música, arte, cultura, arquitetura, política e, principalmente, sobre as experiências dos países que estão aqui ao nosso lado.
É curioso. Temos fronteira com quase toda a América do Sul: Uruguai, Argentina, Paraguai, Bolívia, Peru, Colômbia, Guiana, Suriname e Guiana Francesa. Só não encostamos no Equador e no Chile.
Mesmo assim, quando pensamos em viajar, estudar ou buscar referências, nossos olhos frequentemente se voltam para a Europa ou para os Estados Unidos.
Como se o que acontece aqui, ao nosso lado, fosse menos interessante.
Mas não deveria ser assim.
Temos muito a aprender.
E, algumas vezes, também já ensinamos.
Talvez por isso a Colômbia seja, para mim, um dos países que mais despertam curiosidade.
Medellín, especialmente, chama atenção.
A cidade que em 1991 chegou a ser considerada a mais violenta do mundo passou, nas décadas seguintes, por uma transformação que despertou interesse internacional. Não existe uma explicação única para isso. A própria literatura sobre a cidade mostra que diferentes políticas, instituições, organizações comunitárias e estratégias de segurança participaram desse processo.
E é justamente aí que acho que deveríamos olhar com mais atenção.
Porque parte importante dessa história não foi construída com armas, polícia ou segurança.
Foi construída com educação, música, arte, cultura, arquitetura, espaço público e políticas públicas.
No início de 2025, recebemos na universidade Javier Uribe, antropólogo colombiano e um dos profissionais envolvidos em experiências de transformação territorial em Medellín.
Ele se apresentou como urbanauta.
Gostei da palavra imediatamente.
Urbanauta é aquele que pensa o território estando dentro dele. Não olha a cidade apenas de cima, em um mapa ou em uma planilha. Caminha, observa, conversa, escuta e acompanha.
Para pensar uma transformação, é preciso estar conectado ao lugar.
Ter os pés no chão.
A provocação que trouxe me marcou:
“Um dos grandes equívocos é reduzir a ideia de desenvolvimento ao desenvolvimento econômico. O verdadeiro desenvolvimento é aquele que revela talentos, potencializa recursos locais e inspira novas realizações.”
Talvez essa seja uma das melhores maneiras de compreender parte da experiência de Medellín.
A partir dos anos 2000, diferentes administrações e equipes técnicas passaram a trabalhar com estratégias de Projeto Urbano Integral, concentrando intervenções em territórios vulneráveis e articulando dimensões físicas, sociais e institucionais.
Não era apenas fazer um prédio bonito.
Era combinar equipamentos, mobilidade, espaço público, meio ambiente, habitação, educação e participação comunitária.
A cidade passou a experimentar uma ideia que parece simples, mas não é: quando os problemas estão conectados, as soluções também precisam estar.
E houve outra mudança importante.
A população deixou de ser vista apenas como destinatária da política pública e passou, em diferentes experiências, a participar da construção das prioridades.
Segundo Uribe, algumas dessas experiências também olharam para Porto Alegre e para o nosso orçamento participativo.
É curioso pensar que uma cidade brasileira que ensinou participação social pode, décadas depois, aprender com uma cidade colombiana sobre outras formas de transformar território.
Talvez seja exatamente assim que uma cidade aprende: olhando para os lados.
Medellín também investiu na transformação de espaços considerados marginais por meio de equipamentos educativos e culturais associados à qualificação urbana.
Você provavelmente já ouviu falar nos Parques Biblioteca.
Mas o nome pode enganar.
Não estamos falando simplesmente de bibliotecas.
São equipamentos que reúnem leitura, educação, tecnologia, cultura, formação, encontro e atividades comunitárias. A rede municipal mantém nove Parques Biblioteca, inseridos em diferentes territórios da cidade.
E existe algo que me interessa particularmente nessa experiência: a arquitetura também comunica.
Um equipamento público de qualidade, implantado em um território historicamente estigmatizado, pode dizer uma coisa muito poderosa para quem mora ali: você importa.
A arquitetura pode ajudar a mudar a maneira como uma comunidade enxerga o próprio lugar.
O endereço, antes associado à pobreza, pode começar a ser associado a uma biblioteca, a um parque, a uma escola de música, a um espaço de encontro.
“Eu moro ali.”
E isso pode ganhar outro significado.
Mas a rede precisava ser maior.
Medellín também desenvolveu uma Rede de Práticas Artísticas e Culturais, com escolas de música e outras iniciativas voltadas à formação e à participação cultural.
Atualmente, na lista dos 50 artistas mais escutados da última década no Spotify, dez são colombianos.
Não sei se é possível afirmar que esses programas, sozinhos, expliquem o sucesso internacional da música colombiana.
Mas gosto de pensar no que acontece quando uma criança encontra uma escola de música perto de casa, quando um jovem encontra um espaço para criar, quando a cultura deixa de ser algo distante e passa a fazer parte do cotidiano.
Talvez aí esteja uma das maiores riquezas de uma política pública: criar possibilidades antes mesmo de sabermos exatamente o que elas vão produzir.
A mesma lógica apareceu nas políticas de desenvolvimento econômico.
Os antigos Centros de Desenvolvimento Empresarial Zonal — CEDEZO levaram serviços de orientação empresarial, financeira, administrativa e de mercado para diferentes comunidades. A ideia era aproximar o empreendedor dos instrumentos de que precisava para desenvolver seu negócio.
Hoje, os Centros de Empreendedorismo e Emprego ampliam essa lógica, aproximando formação, empreendedorismo, inovação e empregabilidade do território. A própria Prefeitura os define como uma presença da administração municipal no território e como porta de entrada para o ecossistema de desenvolvimento econômico.
Novamente, a palavra que aparece é rede.
Não é um equipamento isolado.
É uma estratégia.
E talvez essa seja uma das maiores lições que podemos trazer dessa experiência: uma biblioteca sozinha pode ser uma biblioteca. Uma escola de música sozinha pode ser uma escola de música. Um centro de emprego sozinho pode ser apenas um centro de emprego. Mas, quando eles fazem parte de uma estratégia territorial, começam a produzir outra coisa.
Começam a produzir cidade, cidadania e cidadãos com oportunidades.
No Brasil, Recife também buscou adaptar referências dessa experiência ao criar, a partir de 2016, os Centros Comunitários da Paz — COMPAZ, voltados à prevenção da violência e ao fortalecimento comunitário, com atividades de educação, cultura, esporte, lazer e cidadania.
A experiência brasileira, evidentemente, tem seu próprio contexto e precisa ser analisada com seus próprios indicadores. Não existem receitas prontas para transformar cidades.
E talvez essa seja justamente a questão.
Não precisamos copiar Medellín. Precisamos aprender com Medellín.
Aprender a olhar o território.
Aprender a construir redes.
Aprender a acompanhar os resultados.
Aprender que uma biblioteca pode ser uma política de segurança. Que uma escola de música pode ser uma política de desenvolvimento. Que um espaço público qualificado pode ser uma política de dignidade.
E que um centro de empreendedorismo pode ser muito mais do que uma sala onde alguém vai fazer um curso.
Tudo depende de como conectamos as coisas.
Fico com uma mensagem do urbanauta que me parece especialmente importante: sonhar grande é essencial, mas é preciso começar com iniciativas possíveis, capazes de crescer, aprender e se transformar ao longo do caminho.
Mudanças reais não acontecem de um dia para o outro.
Precisam de tempo.
Precisam de continuidade.
Precisam de acompanhamento.
Precisam de gente.
E, principalmente, precisam de conexão com o território.
Talvez ser urbanauta seja justamente isso: não pensar a cidade apenas de fora para dentro, mas de dentro para fora.
Com os pés no chão.
Os olhos atentos.
E a disposição para aprender com quem já está lá.
Porque, às vezes, para encontrar boas ideias para a nossa cidade, não precisamos olhar tão longe.
Precisamos apenas olhar para o lado.