
Enredo 1:
O trio sentou-se diante de mim a partir da estação de metrô Barro, no metrô de Recife, na linha Centro-Camaragibe. Tratava-se de uma mocinha, de no máximo uns 16 ou 17 anos, com uma criança de colo no braço, um rapazote de uns 17 ou 18 anos a seu lado, com certo jeitão de ser o pai da criança, e mais outro rapaz, provavelmente um amigão, um “brother”, com quem o primeiro conversou durante todo o percurso até o Terminal Rodoviário, onde todos descemos. No trajeto, a mocinha olhava para os dois rapazes, completamente alijada das conversas e da atenção, olhava para a criança, olhava vagamente para os demais passageiros, olhava para os rapazes de volta, e em nenhum momento nenhum deles lhe deu a mais mínima atenção ou consideração. Outrora, provavelmente havia sido alvo de atenção, mas esse tempo claramente havia passado: com a gravidez e a criança, tornara-se um estorvo, uma não-pessoa, esgotada em suas possibilidades e encantos. Presença silenciosa, perfil baixo, criança no braço, uma vida sequer começada e já esgarçada pela grosseria do mundo, pelo egoísmo infantil de um companheiro só circunstancialmente digno desse nome. Na rampa do Terminal Rodoviário, saindo do cais do metrô em direção à estação de passageiros dos ônibus, os rapazes seguiram na frente, loquazes e ruidosos, e a mocinha atrás, criança num braço, sacola no outro, arrastando uma perspectiva de vida medíocre, sabe lá pra onde, sabe lá por quê, sabe lá pra quê.
Enredo 2:
Uma jovem é lançada de ponte, em região do sudeste do Brasil, em atividade esportiva cujo atrativo é o salto atenuado por corda de segurança. No caso específico, as cordas não foram conectadas à referida jovem, que despencou de uma altura de 40 metros rumo à morte. Segundo relatos, houve quem elogiasse a beleza da jovem, já morta, com requintes de perversidade necrófila.
Enredo 3:
Aqui e ali, ao longo das 24 horas de cada dia, mulheres persistem sendo esmurradas, arrastadas, fuziladas, ridicularizadas, na maior parte das vezes por homens do círculo de relações de cada uma.
John Lennon e Yoko Ono têm razão: as mulheres seguem em subcidadania. E os homens, em sub-humanidade.
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