
Ao longo da vida, respondemos a muitas perguntas. Algumas nos são feitas diretamente. Outras respondemos sem perceber, tentando encontrar um lugar no mundo.
Uma pergunta permaneceu comigo muito depois de eu terminar um livro: “Quem você era antes de o mundo lhe dizer quem você deveria ser?”, escreve Glennon Doyle, em Indomável.
Ou respondemos nós mesmos à pergunta “quem sou eu?” Ou, pouco a pouco, aceitamos as respostas que os outros vão oferecendo. Boa menina, filho exemplar, profissional competente, forte, discreta, bem-sucedida…
Com o tempo, essas respostas vão nos vestindo, até que, um dia, já não sabemos onde termina a roupa e começa a pele. O que é máscara e o que é rosto.
A psicologia analítica tomou emprestada a palavra persona, que designava a máscara usada pelos atores do teatro antigo, é um conceito para falar da forma como nos apresentamos ao mundo. Para Carl Gustav Jung, a persona não é um problema, pois ela é necessária. É por meio dela que aprendemos a conviver, trabalhar, assumir responsabilidades e ocupar um lugar entre as outras pessoas.
Mas, em que momento a adaptação, tão necessária para viver em sociedade, deixa de ser uma ponte para o mundo e passa a nos afastar de nós mesmos?
O problema começa quando a máscara, que foi feita para o encontro com o mundo, passa a substituir o rosto. Quando a adaptação exige o sacrifício da individualidade e, aos poucos, deixamos de apenas usar a persona para acreditar que somos ela. O papel social deixa de ser uma forma de nos relacionarmos com o mundo e passa a ocupar o lugar da própria identidade.
Jung escreveu que a vida lhe havia dirigido uma pergunta. Sua tarefa era responder a ela. Do contrário, permaneceria dependente da resposta do mundo.
Uma imagem presente no prólogo de Indomável dá forma a essa ideia. Glennon Doyle narra uma cena que assistiu em um zoológico chamado “Corrida do Guepardo”. Tabitha, uma gueparda criada em cativeiro, corre todos os dias atrás de um coelho de pelúcia preso a um trilho. Nunca o alcança. Ao final, recebe um pedaço de carne e a aprovação do público. Tabitha foi condicionada a viver uma existência distante de sua natureza. Aprendeu a correr atrás de um objetivo que nunca poderia alcançar, recebendo recompensas suficientes para continuar correndo.
Também aprendemos cedo quais versões de nós mesmos recebem aplausos. Corremos atrás dos nossos próprios coelhos. Mudam apenas os nomes: produtividade, reconhecimento, desempenho, eficiência, imagem, sucesso. Recebemos recompensas suficientes para continuar correndo. E, às vezes, passamos uma vida inteira sem perguntar se aquilo que perseguimos realmente nos nutre e alimenta.
A pergunta de Glennon Doyle não pede resposta imediata. Mas ela pode ficar ali, silenciosa, lembrando de tempos em tempos que existe uma diferença entre correr e chegar. Esse coelho que persigo me aproxima de quem sou ou apenas me mantém correndo?
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Caroline Cezimbra é psicóloga, especialista em psicoterapia de orientação analítica para crianças, adolescentes e adultos. Sua escrita nasce do encontro entre a clínica, a literatura e a escuta simbólica das imagens que atravessam a experiência humana. E-mail: cezimbracaroline@gmail.com