
Eis que sou surpreendido, dias atrás, pelo passamento de João Maurício Adeodato, professor emérito da icônica Faculdade de Direito, em Recife, querido e respeitado por colegas e discípulos, reconhecido pelo establishment acadêmico-intelectual local, nacional e internacional. Textos de reconhecimento, nessa direção, se acumularam. Esse texto que você lê vai em direção semelhante, só que minha hagiografia é, digamos, de enraizamento mais antigo…
Corria a década de 70 do século passado. Nos corredores do Colégio de Aplicação da UFPE, o silêncio costumava ser rompido pela voz adolescente que tentava emular Mick Jagger, vocalista dos Rolling Stones, e berrava, em plenos pulmões, “You gotta move”, um dos hits icônicos desta banda. Qual um flautista de Hamelin do ensino médio recifense, João arrebanhava alguns acólitos, que se engraçavam pela performance dele, daí buscavam o LP dos Rolling Stones, ouviam e confirmavam a participação no grupo de recém-convertidos… Aumentava a coorte de doidinhos a gritar pelos corredores da escola: “You gotta move…”
Disso para a participação dele, João Maurício, no grupo de rock da escola, o Aratanha Azul, foi um passo. Eu oscilava entre o rock pesado do Aratanha e a MPB mais cabeça do Flor de Cactus, onde brilhavam Zeh Rocha, André Lobo e Plinio Santos (um certo Lenine teria passado por lá…). Viver tal dilema juvenil foi um luxo, diga-se… Meu jeito meio dialético-anárquico me fez engolir e incorporar ambos.
Sempre que João Maurício surgia aos berros pelos corredores da escola, com o hino de estrofe única “Você tem que se MOVER” — You Gotta Move, alguns narizes se torciam: “coisa de adolescente roqueiro alienado”, entoando essas coisas ao invés de “Construção”, de Chico, bem mais ao espírito de esquerda da escola e da nave-mãe acadêmica em que se inseria. Nunca conversei sobre isso com João Maurício, nunca me dei a semelhante ousadia — eu, um “pirralho” de uma série mais nova que ele. Mas via que ele estava pouco se lixando. Para mim, já na época, You Gotta Move e Construção tinham diálogo possível:
You may be high, you may be low
You may be rich, child, you may be poor
But when the Lord gets ready
You’ve got to move
Pela mulher carpinteira pra nos louvar e cuspir
E pelas moscas bicheiras a nos beijar e cobrir
E pela paz derradeira que enfim vai nos redimir
Deus lhe pague
No ano de 2017, em documentário realizado pela videasta Sofia Egito e equipe da TV Universitária da UFPE, João Maurício se refere a esses comentários dirigidos aos “roqueiros maconheiros alienados” e, muito sabiamente, sublinha o quão revolucionários e contracorrente eram eles, roqueiros, chamando, em sustentação ao seu depoimento, a roqueira-mor brasileira Rita Lee. João Maurício recorda que o controle da censura de Estado então vigente se abatia com mão pesada sobre eles, sobre todos e todas.
O mundo efetivamente se move… Aquele adolescente despranaviado, roqueiro, mais um aluno brilhante em meio a uma geração que floresceu em terra fértil, com docentes-jardineiros fiéis, virou um prócer da vetusta Faculdade de Direito de Recife… Leio os textos do obituário dos últimos dias, que não medem as referências elogiosas a João Maurício, e meu pensamento ousa dialogar com ele:
João, cara, o mundo gira, gira, girou… você se MOVEU e ajudou a mover o mundo à sua volta. Talvez você esteja, nesse momento, no aguardo de deliberação superior quanto à sua admissão (ou não…) no paraíso, ou em estágio probatório no purgatório; desenferruja aí sua guitarra, pede ajuda a Bob Dylan e toca um “Knockin’ on Heaven’s Door”, quem sabe dá um clima mais ameno, um clima mais favorável a você, um clima mais rock and roll. Gostaria que você ainda estivesse aqui (Wish You Were Here – Pink Floyd), para tentar recuperar um tempo perdido — agora, para sempre. Esse tempo, doravante, alimenta-se de reminiscências. Felicito você, no espírito das homenagens de reconhecimento que têm sido escritas em sua lápide, por ter conseguido, a seu jeito e feição, agregar seu tijolo na construção – Another Brick in the Wall – Pink Floyd. Você mal percebeu esse pirralho magrelo que espreitava pelos corredores do Colégio de Aplicação, enquanto seu séquito passava, mas ajudou esse pirralho a se mover. Seu chamado, naqueles tempos, continua a fazer sentido, e vamos continuar, nós outros, tentando nos MOVER.
Todos os textos de Jorge Falcão estão AQUI.

