
Imagino que, como qualquer pessoa, sempre pensei muito na morte, afinal, ela é o fim de qualquer história se você der tempo o bastante para a narrativa. Não pensava exatamente na morte como tragédia, mas como possibilidade estatística, escondida nos pequenos acidentes do cotidiano. Durante anos imaginei desastres improváveis em bancos de carro, elevadores ou filas de aeroporto. Curiosamente, uma das pessoas que me ajudaram a mudar minha perspectiva sobre isso foi Zuenir Ventura, que perdemos na terça-feira desta semana.
Por exemplo: no jornal em que trabalhei por anos, quando não havia fotógrafos na equipe, você se sentava ao lado do motorista no banco do carona, na parte da frente. E ali surgia aquele pensamento automático, embora breve: se um carro viesse em nossa direção, eu seria o lado exposto da colisão (o instinto natural do motorista é tirar o carro para a esquerda, afastando a si mesmo do perigo). Ou, em dias chuvosos, meu guarda-chuva longo e pontudo não deveria ficar jogado no meu colo, porque, numa batida, podia sair voando e furar alguém, inclusive eu. Subir em elevadores, dependendo do tranco, dá aquela sensação esquisita de “essa merda vai cair”. Vocês entenderam, havia uma certa concentração em eventuais desdobramentos de causa e efeito – penso muito nisso. Eu e uma amiga jornalista, igualmente neurótica, temos uma piada, a da “loteria macabra”, para aquele momento em que duas pessoas na mesma fila do aeroporto vão cada qual para uma sala de embarque diferente. Quem tirou o bilhete do desastre?
Foi por isso que uma entrevista com Zuenir Ventura ficou comigo por tantos anos. Zuenir era um homem sorridente e que sempre se mostrava, ao menos em interações públicas, como um gigante de bonomia e gentileza. Nem digo “cavalheiresco” porque Zuenir não tinha maneirismos de nobreza, e sim aquela leveza muito associada à cordialidade do carioca (cordialidade aqui no seu sentido comum mais disseminado, e não no do Sérgio Buarque, que também valeria para o carioca em geral). O que é engraçado, porque Zuenir era mineiro, essa outra condição de viver mais associada com uma certa desconfiança modesta. Na modéstia e na simplicidade, Zuenir era mineiríssimo, mas com aquele toque de simpatia aberta muito comum ao Rio.
Perspectiva
Quando Zuenir fez 80 anos, em 2011, ele veio a Porto Alegre para participar de uma série brilhante de entrevistas culturais realizadas pelo professor Ruy Carlos Ostermann, chamada Encontros com o Professor, que era realizada periodicamente no StudioClio, na Cidade Baixa. Era quase como uma “festa de aniversário longe de casa”, então liguei para Zuenir e o entrevistei por telefone antes de sua chegada a Porto Alegre para falar da sua vinda e dos seus 80 anos. E ele me disse o seguinte:
Eu acho que há gente que merece mais do que eu fazer 80 anos, foi o que eu pensei no momento em que me dei conta disso. Foi algo parecido ao que eu senti quando fiz 60 anos. Porque essas datas estão cada vez mais longas, eu me lembro que quando o Otto Lara Resende fez 40, há muito tempo, ele escreveu um artigo sobre a crise dos 40. Hoje, com 40 anos, você está começando. As mulheres: na minha época, balzaquiana tinha 30 anos, fazer 40 era o fim. Hoje, quando você faz 40, ainda tem a sensação de que pode fazer o dobro disso. Aos 50 é mais raro, mas se você for o Oscar Niemeyer, você pode chegar aos 100. Mas aos 60 não tem mais jeito, ninguém vai chegar aos 120. Confesso que não me angustiam esses 80 anos. Também não estou pensando na morte. Aí eu cito o próprio Niemeyer. Quando perguntam se ele pensa na morte, ele responde, aos 103 anos: “Vou esperar ficar mais velho”.
Essa sacada de Zuenir me tornou menos mórbido? Acho que não, mas me deu uma perspectiva de um longo prazo em potencial. Tipo: até os 40, era plausível pensar que eu poderia chegar aos 80, mas agora, passando dos 50? Sei que um cara com meu estilo e hábitos de vida não chegaria tão longe, mesmo se não fosse, como é, uma raridade.
Essa foi apenas uma das situações em que Zuenir me deu ferramentas para pensar algo que eu não sabia ou em que não havia reparado. Minha primeira leitura de seus livros foi a de um exemplar de 1968: o Ano Que Não Terminou, no meu primeiro semestre de faculdade, em 1992, em um exemplar emprestado por minha colega de sala, Ana Esteves, e que comecei despretensiosamente e terminei naquela mesma madrugada (ajudava o fato de que meu colega de quarto, que era estudante de Medicina, estava nas últimas fases do curso e passava algumas noites em plantões hospitalares.
Período glorioso
Zuenir me apresentou ali a um tipo de livro que pensei ser muito comum, no que talvez fosse apenas uma percepção equivocada devido à gloriosa produção do período: um livro histórico escrito com pegada de reportagem por um jornalista fera no texto. Fernando Morais havia lançado Olga em 1985. Naquele mesmo 1992, em que eu li o livro de Zuenir, lançado em 1988, apareceu O Anjo Pornográfico, a monumental biografia de Nelson Rodrigues por Ruy Castro. Logo vieram também outro ótimo livro de Zuenir, uma grande reportagem sobre a questão da violência e da corrupção no Rio, Cidade Partida, e a biografia Chatô: o Rei do Brasil, por Fernando Morais. Foram obras que abriram um espaço valioso para obras escritas com apuração rigorosa, mas aliadas a um texto muito bem escrito, em termos mesmo de forma, de construção, de montagem, nada devendo a algumas ficções literárias (costumava haver muita rusga na Academia por conta disso, não sei se ainda há).
Mas, claro, nem sempre esse tipo de obra é produzido com o mesmo padrão ouro de qualidade. Apesar da precisão documental e da apuração elogiável, e da importância enquanto biografia mesmo, o livro de Mario Magalhães sobre Marighella não me parece ter uma prosa que brilhe no mesmo comprimento de onda. Mesma coisa estou achando da biografia de Guimarães Rosa, recentemente publicada por Leonêncio Nossa. Muita informação, detalhes precisos (enumeração por vezes cansativa) e uma prosa com seus problemas (fora alguns erros factuais mesmo, mas isso fica pra outra coluna).
Assim, quando parte Zuenir, podemos ter a certeza de que também partiu um dos caras que estiveram não apenas no início da popularização de obras históricas escritas por jornalistas, como um nome do primeiro time dessa tendência. Como escritor, Zuenir Ventura cumpriu mais de uma vez a missão de explicar em livro coisas complexas, com direito até mesmo a certas revisões possíveis apenas com o tempo. Quando seu livro sobre 1968 completou 20 anos, em 2008, foi republicado numa caixa com um segundo livro escrito por Zuenir, 1968: o que fizemos de nós. Embora não seja uma obra com a mesma qualidade textual ou com a mesma coesão narrativa da anterior, oferecia uma nova perspectiva que poucas obras sobre o período apresentaram.
Revisão
Zuenir, no primeiro livro, havia criado um quadro vívido e intenso das mudanças sociais, políticas e comportamentais do Brasil de 1968, concentrando-se em um determinado perfil de protagonistas mais ou menos ligados à resistência ou ao combate ao regime, seja na frente da luta armada, seja no engessado panorama político, seja no front cultural. O segundo livro relê o primeiro e apresenta algumas complementações, mostrando que a época era mais fraturada do que parecia, e seu legado mais controverso e menos otimista do que previa a primeira obra, escrita num país ainda nos primeiros anos da redemocratização.
Talvez o aspecto mais interessante da revisão que Zuenir fez de seu próprio livro tenha sido justamente mostrar como o legado daquela geração seria percebido pelos filhos. Durante aquele período, aquelas crianças não estavam ligadas no quadro maior da luta política, apenas temiam por seus pais, presos ou vivendo sob constante perigo. É uma posição um pouco semelhante à que Denys Arcand adota em As invasões bárbaras, uma continuação lançada em 2003 (caraca, como estou velho!) de sua obra dos anos 1980 O Declínio do Império Americano. Os filhos dos primeiros personagens vivem à sombra das ousadias políticas de seus pais e se tornam ou perdidos ou conservadores, ansiando por uma pureza “ideológica” que se revela impossível na trama do próprio filme.
Insurreição e otimismo
Eu consigo entender um pouco esse sentimento. Meu pai era político de esquerda numa cidade conservadora quando eu era guri, nos anos 1970. Eu entrevia no balançar das cortinas tensões, ameaças e perseguições políticas que foram abertas e reais, não apenas minha imaginação. Também eu, a certo momento (ali pelos 13 anos, talvez), cansado daquela atmosfera, me insurgi internamente com aquela paixão do meu pai por mudar um mundo alheio, enquanto sua ação provocava todo tipo de problema para a família. Eu era jovem e idiota. Seguir achando isso hoje seria ridículo – mas me parece que não apenas o país, mas o mundo, se inclina para essa mesma ideia, com uma geração de jovens ultraconservadores cansados dos direitos e postulados garantidos por seus pais.
Zuenir me disse em outra entrevista, essa publicada em 2017, já no auge dos escândalos de corrupção e da ascensão da problemática, mas ainda disfarçada de solução, Operação Lava-Jato:
“Há uma coisa que me preocupa muito nas pessoas mais novas atualmente, que é o jovem desencantado, o que está abatido, apático, achando que não adianta fazer nada porque nada muda, o desencanto de que nada vale a pena. E o pior é que você olha a política do Brasil e conclui que ele tem razão. Mas eu acho que o Brasil vai sair melhor dessa crise.”
Quando entrevistei Zuenir aos 80 anos, a resposta que ficou na minha memória foi a de quem dizia que ainda era cedo para pensar na morte. Anos depois, o que mais me impressiona não é a leveza da frase, mas a disposição de continuar acreditando no futuro. Num tempo em que o desencanto voltou a parecer uma posição razoável, perder alguém assim talvez seja ainda mais doloroso em um tempo em que estamos outra vez descambando para a barbárie aberta e assumida.