
Gostei da foto que a Carol me mandou no meio da tarde. Foi tirada no calhambeque que Raul, o vizinho, emprestou no meio de uma outra tarde. Era, de fato, uma história bonita. Um vizinho querendo ver outro vizinho feliz com um calhambeque em plena Protásio Alves. Uns carros ao lado buzinando felizes, outros atrás sem paciência com a velocidade reduzida do velho carro. Boris, o cachorro, foi junto. Assustado com o vento na fuça, botou as duas patas nas minhas costas. Mais seguro com o contato dos corpos, agora parecia feliz também.
Vou postar – pensei. Costumo postar textos sérios, divulgações de eventos, algumas reflexões cabeça, tudo em geral, sem muito like, um amigo, uma amiga, os parentes, os de sempre. Vai ver não é tão sério ou cabeça assim o que eu divulgo. Mas, sempre que posto o Boris, dá um retorno enorme. O pessoal gosta mais dele do que dos meus textos e eventos. Eu, também. O Boris, sim, é pop.
Prestes a postar, observei que meu cabelo e barba estavam grisalhos e havia muita ruga no meu rosto. Aquela era mesmo uma foto realista. Então, comuniquei à Carol os motivos para mudar de ideia e não postar. Não seja por isso, ela disse. E foi filtrando. Não mexeu na barba e no cabelo, mas no rosto, sim, e muito. Não sei o que ela fez, mas deve ter sido algo assim como um botox eletrônico, uma harmonização tecnológica, um ácido hialurônico cibernético. Rejuvenesci muitos anos, ficando com aquela pele lisinha, de bebê.
Aí, postei. Os likes, conforme previsto, não paravam de chegar, ao contrário de uma publicação minha recente sobre a contemporaneidade e a de um evento sobre a função de contenção da mente-pele. Agora, sim, eram muitas curtidas e comentários, seguidos de um mal-estar. Eu não me reconhecia mais naquela foto e sentia uma desagradável estranheza. Era como se eu estivesse fora de foco, considerando que a minha história estava. Como se eu tivesse caído ali de paraquedas, sem nada de verdade para dizer ao mundo. Eu vivia sozinho aquela sensação. Afinal, quem olhava para o meu rosto? Boris era a estrela olhada. Ele é que não parava de ser curtido.
Foi quando pensei em escrever um texto sobre o acontecido, com a ideia de que tínhamos ali outra metáfora polpuda sobre os novos tempos. Um texto pensado, sentido, pesquisado, com história. Um desses que quase ninguém curte muito.