
Para Bernardo Hazin Pires Falcão e Daniel Hazin Pires.
Em meados de junho de 1970, eu havia finalmente completado, há dois meses, meus 14 anos, e estava num pé e noutro para desfrutar de minha maioridade alcoólica, prometida por meu pai, Seu Erasmo. Não me recordo bem se em abril ou maio, ele, Seu Erasmo, sempre muito controlado quanto a despesas extraorçamentárias (orçamentárias também…), tomou a decisão inesperada de adquirir uma maravilhosa e enorme TV Telefunken… A CORES! Fim daquelas telas plásticas tabajara com as quais cobríamos as telas das TVs preto-e-branco da época, na ânsia por uma corzinha! Fim do suplício das vivências de televizinho que, com certeza, viriam, pois o nosso vizinho já havia comprado a sua TV colorida e se aproximava a Copa do Mundo de Futebol de 1970 no México, com transmissão pioneira via satélite e a cores! Atenção à contagem de 5 segundos…
O Brasil vivia um dos piores períodos da ditadura militar, que então submetia o país a um tempo de treva. Nesse contexto, o clima político-ideológico do Colégio de Aplicação da UFPE recomendava a nós, juventude engajada e compromissada com a resistência antiditadura, uma atitude, no mínimo, “blasée” em relação ao período alienado/alienante que viria. Torcer contra aquela “seleção de Médici” não seria uma má ideia. Isso durou até o jogo de abertura, Brasil x Tchecoslováquia. Até o primeiro gol dos tchecos, de Ladislav Petrás, aos 11 minutos do primeiro tempo (com direito a sinal da cruz do desgraçado, vexame para eles…). Até o gol de empate de Rivelino, a “Patada Atômica” cobrando falta, e depois os golaços de Pelé, Jairzinho (banho de cuia no goleiro, bola no peito e rede!), com direito a um quarto gol para mostrar com quantos gols iria se construir um tri. Fim de qualquer intento de má-vontade “esclarecida” ao futebol-ópio-do-povo (pelo menos da parte da cachorradinha miúda do Colégio de Aplicação). Até porque os níveis crescentes de alcoolização, os gols maravilhosos que se seguiriam, o futebol jogado por 11 e por “90 milhões em ação/pra frente Brasil/do meu coração”, tudo contribuiria para um período mágico e de encanto que iria desaguar no Estádio Azteca, Cidade do México, no 21 de junho há 50 anos, de próxima comemoração.
Qual a melhor seleção brasileira (ou alhures) de todos os tempos? Qual o gol mais bonito? Quem foi o Rei do Futebol? Qual o sentido da vida? Questões pungentes que têm engendrado acalorados debates desde sempre, mormente quando turbinados pelas cervejinhas, caipirinhas, caipiroskas e uisquinhos vagabundos das domingueiras vespertinas dos tempos em que enchíamos estádios e bares. Não tenho a competência e erudição futebolísticas de um Tostão (já em sua fase de comentarista), de um Juca Kfouri, de um Daniel Hazin Pires, do talento nascente de um Bernardo Hazin Pires Falcão. Apenas registro que o tri, em 1970 na Copa do México, veio num contexto mágico que, justamente o quarto gol dos 4 x 1 contra a Itália, na final, o gol de Carlos Alberto Torres, confirmou e ilustrou à perfeição: a jogada começou com Tostão roubando a bola de Domenghini, no meio-campo brasileiro; Tostão passa para Brito, que passa a Clodoaldo, que faz a ligação com Pelé e Gerson, este recebe a bola de volta, e aí tira quatro italianos para dançar, para em seguida abrir para Rivelino, que aciona Jairzinho, que parte pra cima do marcador e o dribla, mas ao invés de prosseguir em sua blitzkrieg pela ponta esquerda, centraliza para Pelé. Nesse momento, é preciso narrar em slow-motion:
Pelé olha para a bola, se concentra e visualiza (sem olhar, naturalmente) Carlos Alberto Torres, que vem a 120km/h pela intermediária italiana. Pelé calcula o ponto futuro de Carlos Alberto e desliza a bola em diagonal para a sua direita, naquele ponto em que Carlos Alberto calhará de posicionar o pé direito, que agregará à velocidade de seu deslocamento o chute que dará na pelota — somem aí os vetores. Se o goleiro pusesse os peitos naquela bola, seria um homem morto. Sobreviveu porque a bola passou a seu lado, indefensável. Gol.
Não qualquer gol: um gol com preliminares, carinhos, malandragens, coletivo, força, talento. A jogada de Pelé ao deslizar a bola para o chute de Carlos Alberto é um dos gestos mais lindos do futebol, não fosse também pelo fato de tudo o que veio antes – como um orgasmo que culmina uma breve, mas intensa narrativa amorosa.
Houve 1958, em que nasceu uma estrela em terras suecas; houve 1962, em que um demônio canhoto empenou corações e mentes com suas pernas tortas, houve 1994, com sabor de McDonald’s basicão, mas vá lá, e 2002, que não deveria ter acontecido para os que acreditam no terraplanismo, mas aconteceu. E houve as quase-copas de 1982 (Espanha), 1986 (no México de novo), 1998 (França), que deveríamos ter ganho – faltou la mano de Diós, diria Maradona. Houve as hecatombes do Maracanã (1950) e do Mineirão (2014). Muita água rolou e vai rolar pelo Rubicão, que nasce nos cafundós das várzeas e deságua na nossa alma de apaixonados pelo futebol. Para mim, nada se compara ao tri de 1970, na Cidade do México. Patrimônio sobre o qual se construiu um tetra, um penta, e a esperança no hexa, na jornada que apenas começa. Mas meninos, em 1970, eu vi, em nossa Telefunken!
Honra e gratidão ao Esquadrão do Tri.
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