
Um evento cheio de conteúdo, que promoveu trocas, emoções e uma programação com gente da academia, de movimentos sociais e de comunidades periféricas. É algo raro uma oportunidade com tantas atrações e vivências como a que rolou no 1º Seminário Internacional Comunicação de Risco e Cultura do Cuidado, organizado pelo Grupo de Pesquisa Cuidar_Com, vinculado ao Programa de Pós-Graduação em Comunicação (PPGCOM) da PUCRS, e da Escola Municipal Liberato Salzano Vieira da Cunha.
O seminário — realizado de 26 a 28 de maio — semeou ideias, conhecimentos e evidenciou o quanto a comunicação é crucial para encararmos os riscos e os eventos extremos cada vez mais frequentes em tempos de mudanças climáticas. Foi o resultado de um processo, um projeto de extensão da universidade com comunidades atingidas pela inundação de 2024 em Porto Alegre.
A professora Cora Quinteros (UTFPR), integrante de redes internacionais ligadas à ONU para redução de riscos, afirmou que a iniciativa representa um marco na construção de políticas de comunicação de risco. Um dos entraves para esse tema estar atrasado no Brasil é que não temos a cultura de falar sobre o assunto, acreditamos que nunca vai acontecer algo conosco (o que foi percebido bem nos últimos anos no RS).
Quinteros salientou que hoje a comunicação dos governos é mais de divulgação governamental e aborda o que está sendo feito pelas administrações. Não emprega os preceitos da comunicação pública, voltada ao interesse coletivo e ao exercício da cidadania, que promovam o acesso à informação, fomentem o debate público e a participação social.
Norma Valencio (UFSCar), referência em Sociologia dos Desastres, abriu o seminário com uma palestra que deixou a plateia encantada, com sua trajetória de mais de 30 anos estudando e presenciando desastres em vários cantos do Brasil. Ela defende a comunicação de risco como política pública. Isso significa que os poderes constituídos precisam acordar para a realidade, criar, implementar e defender estratégias para prevenção, preparação, resposta e reconstrução de desastres, contribuindo diretamente para a gestão de pessoas, instituindo processos participativos e sistemas que interliguem técnicos, tomadores de decisão e sociedade. O assunto é complexo e, confesso, estou constatando o quanto somos ignorantes e precisamos estar abertos a aprender e desaprender sobre esse tema.
A professora Maria Isabel Bellini (PUCRS) ressaltou que, na pesquisa da qual esteve à frente, que revelou as calamidades e a organização comunitária diante de eventos extremos nos estados do Rio Grande do Sul e do Amazonas, todos os participantes que responderam revelaram que a comunicação é um problema comum, que atinge todas as esferas, desde o relacionamento interno entre órgãos de governo até os afetados.
O seminário mostrou o quanto a ausência de iniciativas efetivas de comunicação gera violências variadas, especialmente nesse momento civilizatório hiperconectado, em que a desinformação atrapalha o entendimento de tantas coisas. Compreender e combater a anatomia da desinformação foi outro aspecto ressaltado pelas pesquisadoras. Escrevo “pesquisadoras” porque, conforme já citei no texto anterior, o evento foi produzido, protagonizado e assistido principalmente por mulheres. Há também uma necessidade urgente de construirmos laços para estabelecermos mais redes de confiança, em tempos de incerteza e velocidade de troca de mensagens.
A radicalização ideológica atrapalha muito nesse processo, pois, para estruturar caminhos para construção de vários níveis da comunicação de risco, é fundamental a participação da sociedade e de instituições governamentais, incluindo a Defesa Civil, para a co-criação de soluções que respeitem cada realidade.
Até porque é necessário saber empregar uma linguagem que não seja apenas técnica, que não foque apenas em decisões guiadas pela visão eleitoreira de aproveitar momentos de desgraça para faturar apoios políticos. E sair das armadilhas da comunicação paternalista, que considera o receptor um ignorante, é um desafio e tanto. Isso requer uma capacidade de escuta sensível de vozes historicamente silenciadas.
O debate ainda revelou o quanto os alertas da Defesa Civil (em geral) não servem para o que se propõem, pois jogam informações sem um tratamento adequado para as comunidades e depois culpam a população por falta de entendimento. As instituições públicas devem estabelecer vínculos com as comunidades para a construção conjunta de soluções, em vez de se manter uma relação vertical de definir o que precisa ser feito e querer que a população obedeça.
Se você, que me lê, não tem noção sobre o quanto esse tema é decisivo para o enfrentamento de riscos, tragédias e afins, sugiro que comece a se ligar. Todo mundo precisa saber o que fazer em caso de uma nova inundação ou de um ciclone (até mesmo outros perigos, que não enxergamos). Ainda mais porque esses fenômenos estão cada vez mais comuns na região Sul. Além disso, a sociedade necessita se preparar para exercer sua cidadania e exigir que os órgãos competentes cumpram suas atribuições e responsabilidades previstas em lei. Todos nós temos direito a saber sobre os riscos que corremos.
Esse tema rende. Vou continuar abordando por aqui, pois há muita coisa a ser desvelada. Vale conferir AQUI o texto publicado no Observatório Brasileiro de Comunicação e Crise sobre esse seminário.
Muitas atividades significativas e tocantes aconteceram no último dia 28 de maio, no Sarandi, uma das regiões mais afetadas da Capital. Na semana que vem, tratarei do que vivi naquele território, onde está situado o Quilombo dos Machado. Precisamos conhecer quem está fazendo a diferença e aprendendo a conviver com esse mundo em metamorfose, cercado de incertezas e riscos de vários tipos.
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