Corria o carnaval de 1984. Sábado de Zé Pereira. Folia e embriaguez atulhavam a Avenida Guararapes. Sol e mormaço aqueciam o que restava do juízo vascolejado pelo frevo e hidratado por cervejas já bem alteradas àquela altura. Chuva intermitente varria a urina e refrescava foliões perseverantes na degustação etílica e no eletrizante frevo. De súbito, um transeunte me noticia a morte de um companheiro de militância. Retiro-me da liturgia momesca e saio a caminhar sem reação e sem direção. Não consigo digerir a informação, nem focar na ocorrência alardeada. O salgado das lágrimas e os passos diminutos são espasmos do coração pelo ainda não do noticioso. Mas o coração replica no cerebelo um samba de uma nota só!
No dia seguinte, compareço às exéquias. Santo Amaro está deserto. Gente discreta do movimento social. Choro pouco e contido. Do outro lado do muro: a fanfarra desairada convoca os maganos para o esplendor carnavalesco. Cá dentro, mudez e compunção. Fora, a vida esbraveja júbilo. Cogitabundo, mastigo minha dor, perguntando-me pelo paradoxo que mescla sofrimento e alegria, morte e vida, luto e euforia. Não relutei em reviver os eventos entorpecidos que afloraram quando Mãe conclamou a mirar essa máquina que vicejou um dobrar-se de mim sobre mim. Eu, com pelotões de carnavais vividos e cicatrizes regaladas pela existência, sou também personagem de Valter Hugo Mãe numa inextricável pirueta do escrito.
A arte imita a vida, e não há repouso para o silêncio no corpo que transporta meu ser. Portugueses eram, até o nascer da lusitana miúda, minha neta primogênita, pessoas das quais sempre conservei reserva. Acionavam a ojeriza pela dominação branca e mortal daquilo que chamam civilização. Meu estômago, tupiniquim e sexagenário, não digere essa coisa de potestade e seus agentes. O fado e a poesia são companhias que habitam meu farnel. De além-mar, só isso! O lirismo do Chico, ao decantar que esta terra “ainda vai tornar-se um imenso Portugal”, projetou meu delírio aspirando ao devir libertador em terras das bandas de cá.
Mãe, em sua obra A Máquina de Fazer Espanhóis, nos brinda com uma narrativa rica em metáforas que se dividem entre a vida e a morte, ou no entendimento do que vem a ser uma coisa e outra. Silva pensa que sua história é história nenhuma – e eu não pestanejo ao prosear meu nada. Entretém-nos, porém, ao contar sua trajetória prenha de paradoxos, cheia de acontecências. Reside no labirinto da falta. Falta de si, da ausência da presença do outro, do amor, da amada. Revela a dificuldade de viver sem a amada, a angústia da velhice que parece prelibar a morte. Não é o nosso Severino a pular para a ponte da vida com a chegada do rebento; é um infeliz a almejar o leito de morte em razão do passamento de sua Laura. Parece que Silva não atentou para o fato de que o amor pela amada é, de fato, dele. É concebível que nem a coleta da assustadora “Caetana” seja posse dela.
Eis um tema de relevante pertinência: o cuidado com as nossas dores. A percepção do adoecimento social de Freud certamente se renderia à catastrófica sociedade do sofrimento deste agora dito hoje. Pessoas parametrizadas por sua capacidade de produzir e consumir. Outras, hostilizadas pela improdutividade. Etarismo, estereotipando pessoas com madura juventude. Aparatos arquitetônicos que funcionam como depósitos de inúteis. O que esconde a tradição afetada de modernidade? O que vela aqueles que nos negam, que negam seu povo desprovido de capacidade produtiva? O que é mesmo essa tal “produtividade”?
Como não cuidar das nossas dores? Qual é o mistério que atravessa Silvas e Severinos, do berço à tumba, e os deixa lançados a uma vida e a um mundo desprovidos de sentido? Gautama entendeu ser o “dukkha” condição essencial à vida. Em As Dores do Mundo, Schopenhauer argumenta que a vida é fundamentalmente sofrimento e que a felicidade é apenas a ausência temporária da dor. Dostoiévski, que escutou as entranhas da alma humana nos subterrâneos do ser, intuía que o sofrimento é o que ainda nos resta de verdade — “a única causa da consciência”. O homem do subsolo, como Silva, também se arrasta entre a lucidez e o niilismo, entre o desejo de viver e a descrença na própria vida. Em ambos, pulsa a angústia de se saber inútil aos olhos da máquina que tudo mede, produz e descarta.
Como narrar-se a si mesmo sem desejar desaparecer no processo? Que sentido resta àquele que perde o outro que sustentava sua presença no mundo? O amor de Laura, como o de Sônia em Crime e Castigo, é talvez o último abrigo — um sopro de compaixão que impede o mergulho final no absurdo. Mas e quando o amor se vai? Resta o vazio, o espanto, e o túmulo à espreita, como aquele de Paraibuna que sussurra: “Nós que aqui estamos, por vós esperamos.” A morte, em Dostoiévski, não é fim, é denúncia — da fratura original do humano, da sede por sentido, da ausência que grita por transcendência. Talvez sejamos todos personagens dostoievskianos a caminho do fim, resistindo com a única arte que nos resta: a da incessante perguntação.
Ferreira Goulart indaga sobre o mistério humano. Debruça-se acerca do dualismo que lhe é imanente e parece sentir, pelo olhar atento ao fenômeno humano concretizado na existência mundana, que a grande missão será sempre a busca da realização de uma síntese existencial. Porque uma parte de mim faz isto e outra faz aquilo; porque uma parte de mim quer assim e a outra não; porque uma é capaz do encantamento e a outra do espanto. Gorki, aprazível escritor de meus verdes anos, postulou a sua mãe resgatada pela militância filial. Kafka não recupera seu protagonista na estúpida efervescência da metamorfose. A perplexidade que me alberga teima em indagar: Afinal, o homem é isto ou aquilo? É o poeta quem responde: “traduzir uma parte na outra parte, que é uma questão de vida e morte. Será arte?”
Será arte a construção do ser humano? Arte que indica que ele é isto e aquilo, sem exclusão. Arte que o faz saborear a vida em seus bordados a desdobrar dor e alegria, nela procurando construir-se, incorporando e superando dialeticamente todos os seus condicionamentos, valores e limites, porque todos eles são possibilidades que marcam a sua natureza. Arte que sinaliza que o humano não é um a priori, mas elo de um construto que se realiza na história, no contexto social e político, nas práticas do dia a dia; e por isso é vida e é morte. É da morte que brota a vida, é da vida que se supera a si mesma numa perspectiva de abertura para uma realidade cada vez mais plena. Viver é processualidade. Lara nos diz que “vida e morte são polos de um mesmo processo, definidores da existência, enquanto transcendência, abertura para o outro de nós, que nos afeta e nos conduz a um outro nós, sempre a constituir-se, ou constituindo-se em uma outra ordem de relações (sociedade)”.
A velhice, a dor e o sofrimento são temas inscritos na alvorada da raça humana. Buda parece entender a falta de elixir que sane tais cicatrizes e, na ausência dele, propõe a reta intenção como trajetória. De Sócrates a Plotino, dos escolásticos aos dominicanos, do Pai da Modernidade — o homem do cogito — aos arautos da pós-modernidade e do capital pós-industrializado… pairam os arcanos segredos da falta: da pedra filosofal, da quebra libidinal, do autoconhecimento, da angústia, do grande falo, numa palavra, da ruptura e da ausência.
Hugo Mãe, na sequela literária de tantos, problematiza o tema. Silva não é o fim da linha. É a consolidação da angústia existencial pela experiência banalizada. Laura o faz mergulhar na angústia real. Pereira o introduz em angústias-sinais, cravadas em metafísica de botequim. Outras virão. Ali está a necrópole, a postos, viva. Outros partos para novas partidas!
Junot Cornélio Matos, cearense de Juazeiro do Norte, casado, pai de duas filhas e vô da pequena Ara. Tem Licenciatura em Filosofia pela Universidade Católica de Pernambuco (1985), Mestrado em Filosofia pela UFPE (1994) e doutorado em Educação pela Universidade Estadual de Campinas - UNICAMP (1999). Tem alguns livros publicados, participou da organização de vários outros. Publicou diversos capítulos de livros e artigos sobre Filosofia da Educação e Ensino de Filosofia.
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Foto da Capa: Carnaval em Recife / Anos 80 / Reprodução do Facebook.

