
A perspectiva de uma epistemologia menor está inspirada na produção literária deleuze-guattariana quando sugere que “maioria supõe um estado de poder e de dominação, e não o contrário. Supõe o metro padrão e não o contrário” (1995). O propósito é alinharmo-nos aos devires minoritários do mundo de modo a construirmos rotas de fuga das prescrições discursivas em narrativas eurocentristas. Nesta alçada, alinhamo-nos à busca de potência em vozes silenciadas, dizeres balbuciados desde as periferias do mundo, dominados por falares que se impõem como cânones instituintes de verdades pretensamente únicas e universais. Adentramos o terreno arenoso do que salta do barro do chão, brotando vidas marginalizadas.
A tradição filosófica cuidou de diminuir o valor dos pensares não concatenados aos seus modos predominantes de produzir concepções. O legado ocidental consolidou-se ao disseminar a compreensão da razão como a única via para tecer conhecimentos entrelaçados e linearizados em processos argumentativos, estabelecendo caminhos imperantes que produzem verdades e marginalizam formas alternativas que demonstram desapetite pela proposição de sentenças últimas, totalitárias e pretensamente verdadeiras. Este processo de validação, focado no logos, tende a diminuir o valor de expressões como o pensamento mítico, intuitivo, metafórico ou as sabedorias ancestrais, muitas vezes presentes em tradições orientais ou indígenas, rotulando-as como menos “rigorosas” ou inferiores.
Não à toa Kafka compartilhou seu pensamento de que […] precisamos é de livros que nos atinjam como um desastre, que nos atormentem bastante […] Um livro deve ser o machado para o mar congelado dentro de nós” (1977). Ele, que havia proclamado: “sou apenas literatura e não posso nem quero ser outra coisa”… Talvez, por isso, Costa (2022) propõe que “a literatura de Franz Kafka resiste ao absurdo, à burocracia opressiva e à alienação moderna por meio da criação de ‘literaturas menores’, desterritorializando a língua dominante. Sua escrita transforma a angústia existencial e o desamparo em um “excedente de resistência”, utilizando o fantástico e o inquietante para subverter as verdades impostas”.
Albert Camus, que ganhou o Nobel da Literatura em 1957, afirmou não ser um filósofo por não crer suficientemente na razão para acreditar num sistema. “O que me interessa é saber como é preciso conduzir-se. E mais precisamente como podemos nos conduzir quando não cremos nem em Deus nem na razão” (1965). O argelino lança seu olhar para o absurdo e a dor. Afasta-se do brilhantismo daqueles que apregoam finais delirantemente eufóricos. Sua lente mira o homem diminuto, sofredor, marginal. Entretanto, embora não renuncie ao absurdo, faz nascer dele a revolta, indutora da ação.
Nietzsche nos diz que “o efeito da obra de arte é excitação do estado de criação artística, a excitação, portanto, da embriaguez…” Sua filosofia do martelo é uma representação metafórica da crítica filosófica e desconstrução de valores tradicionais. Sentenciado por Ricoeur como mestre da suspeita pela sua radical forma de indagar e negar a proposição de uma consciência racional pura. Traz à tona as motivações ocultas, forças inconscientes e falsas consciências por trás da moral, da sociedade e da mente humana. Ousa reconhecer que o conjunto de verdades impostas pelos tempos modernos é agenciador da morte de Deus. “Deus está morto e nós o matamos”. Propõe a cultura da modernidade como organizada por critérios e princípios divergentes dos apregoados.
Poder-se-ia afirmar que, desde a Europa, já nos defrontamos com epistemologias menores. A despeito disso, continuam sendo europeias e falando ao homem branco, dominador e heteronormativo. Estão vinculadas ao conjunto de forças que nos colonizam, levando a pensar que não é possível pensar o pensamento senão com os ditames da própria Europa. Mas foi o próprio profeta de Zaratustra que nos conclamou a escrever com sangue para aprendermos que o sangue é espírito (2011). Com qual sangue haveremos de escrever as páginas que nos traduzem? Aquele que deixa seu sabor na cana-de-açúcar colhida sob a opressão das senzalas? Aquele que chicoteia as veias da América Latina? Sim, como olhar e contar a história de nossos ancestrais? Uma filosofia que saia do suor, do sangue e das lágrimas. Que retrate a potência silenciada e fale de nós para nós mesmos? Não se trata de negar o legado recebido, aprendido, que ocupa uma certa importância no conjunto de nossas crenças e valores. Até porque questioná-los sem o devido conhecimento seria uma empresa inócua ou fadada ao fracasso. Recordar que foram de tais cartilhas que herdamos a identidade permitida, pois foi a adesão a seus pressupostos que legitimou nossa existência. Fomos colonizados mais do que pela força bruta. Fomos massacrados de forma visceral. Contudo, foi e é a cultura a maior e mais eficaz estratégia de colonização.
Precisamos pensar o impensado? Mas é possível isso? Pensar de forma inovadora, fora da caixinha dos saberes hegemônicos impostos pela cultura eurocêntrica. Assumir o lugar de não-ser, desconstruindo o edifício de saberes da lógica dominante que reside silenciosamente em nós, colonizando-nos; hospedeiros que somos do opressor, conforme Freire. Tal perspectiva nos convoca a valorizar os saberes encobertos de negros, indígenas, mulheres, crianças, pessoas homoafetivas. Ela visa à construção de uma cultura do enfrentamento, que vença o racismo científico e o racismo que organiza nosso jeito de ser e de relacionarmo-nos uns com os outros.
Toda concepção de mundo se apoia em certas crenças básicas. Até mesmo o conhecimento científico, quando examinado a fundo, revela seus próprios dogmas e pressupostos culturais. Por isso, é fundamental adotar uma postura crítica diante das diferentes matrizes epistêmicas. É importante reconhecer que compreender os contextos sociais e históricos de produção do conhecimento nos ajuda a entender quem somos e o que podemos ser. Assim, podemos forjar um lugar de fala do lugar que ocupamos, daquilo que deveras estamos sendo.
O projeto de uma epistemologia menor busca valorizar vozes silenciadas e experiências históricas encobertas pela história oficial — negros, indígenas, mulheres, crianças, pessoas LGBTQIA+. A intenção é construir rotas de fuga em relação às prescrições discursivas dominantes, abrindo espaço para experiências plurais de saber e existência. Ao fazermos isso, adentramos territórios emergentes das periferias, dos contextos de exclusão e das múltiplas linguagens que fogem ao cânone ocidental.
A epistemologia menor nos convida a assumir a consciência dos limites impostos pela colonialidade, como nos lembra Agamben: “somente a ardente consciência do que não podemos ser garante a verdade do que somos” (2018). Trata-se de reinventar os modos de saber, escrever com o sangue de nossas histórias e afirmar a dignidade de todas as formas de existência e conhecimento.
Junot Cornélio Matos, cearense de Juazeiro do Norte, é casado, pai de duas filhas e avô da pequena Ara e dos miúdos Cícero e Zui. Tem Licenciatura em Filosofia pela Universidade Católica de Pernambuco (1985), Mestrado em Filosofia pela UFPE (1994) e doutorado em Educação pela Universidade Estadual de Campinas – UNICAMP (1999). É professor do Departamento de Filosofia da UFPE.
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