
No livro “Os descobridores”, Daniel Boorstin, ex-diretor da biblioteca do Congresso dos EUA, tenta explicar por que o progresso material aconteceu no Ocidente. Boorstin nos informa que essa circunstância histórica, econômica e social foi devida à maneira de se contar o tempo por meio dos relógios.
Embora os chineses já usassem relógios desde o século II A.C., não os utilizavam para contar as horas, mas para os calendários, e era uma ciência secreta do Estado, e sua fabricação para uso particular era considerada um ato de lesa-majestade.
A religião estatal dos soberanos chineses estava ligada à sucessão das estações e das irrigações, e o sucesso delas exigia a predição dos ritmos das chuvas e do degelo das neves para encher os rios e canais. Assim como no Ocidente, as máquinas de cunhar moedas e a impressão de papel moeda eram rigorosamente controladas; na China, ocorria o mesmo com os instrumentos de medição do tempo.
Na Europa, por outro lado, os relógios rapidamente se tornaram máquinas de utilização pública. Nas igrejas, os relógios das torres marcavam o ritmo das cerimônias religiosas, como também chamavam os paroquianos a compartilhar reuniões de trocas comerciais e de festas nas feiras em torno das igrejas. Muitas cidades, antes mesmo de ter serviços de esgoto, de água potável e de recolhimento do lixo, ostentavam relógios nos pórticos das prefeituras, sendo assim um serviço de utilidade pública.
Quando a energia a vapor e a elétrica mantiveram as fábricas trabalhando full time, quando o dia foi ampliado com o trabalho à noite, a hora marcada pelos relógios tornou-se um hábito permanente e imprescindível para toda a população.
Então, a história da adoção do relógio no Ocidente é a história de novos modos de trabalho e de produção industriais: quanto mais trabalho o operário executava, maior era a produção de bens de consumo e de lucros do capital. Daí a verdade contida no aforismo “time is money”.
Esta devoção ao relógio e ao trabalho industrial como instrumento para aumentar a produtividade cronometrada e acelerada começou a ser criticada pelo francês Paul Lafargue no seu livro “Elogio da Preguiça”, genro de Karl Marx. Este, um trabalhador infatigável, nunca gostou do livro nem de seu genro.
Anos depois, um norte-americano, Thorstein Veblen, escreveu um livro intitulado “Teoria da classe ociosa”, informando que seu objetivo era estudar o valor desta classe social como fator econômico na vida moderna. E, por fim, um italiano, Domenico di Masi, chega a elogiar “o ócio criativo”, afirmando que com ele são obtidos ganhos tangíveis ao se produzir mais bens e serviços com menor esforço físico e menos estresse mental, e que os relógios, os burocratas e os workaholics são os grandes inimigos do ócio criativo.
Agora, com a criação e o desenvolvimento das novas tecnologias de produção industrial, agrícolas e de comunicações, os trabalhadores dos países desenvolvidos trabalham cada vez menos e produzem cada vez mais, restando-lhes mais tempo para gozar de seu ócio que, infelizmente, nem sempre é criativo, sendo, como vemos e sentimos, pessoal e socialmente, também destrutivo.
A propósito: para demonstrar a pouca percepção e importância que temos do tempo em nossa vida diária, não vemos relógios nos dois maiores templos de consumo e de lazer: os shoppings e os cassinos. Nos cobram o tempo em que lá permanecemos sem que nos demos conta do seu valor, porque quanto mais horas ficamos no interior dos seus espaços, mais consumimos e gastamos.
Assim, vemos que, nos “velhos e bons tempos”, era válido o refrão “time is money”, mas agora, utilizado sensatamente, podemos dizer que “time is honey”.
“Così è (se vi pare)”.
Franklin Cunha é médico e membro da Academia Rio-Grandense de Letras.
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