
Coisa boa demais esse fantástico mundo para quem vive sua fantástica vida de não ter absolutamente nada a ver com o mesmo mundo, porém não tão fantástico.
Alminhas com asinhas coloridas de pequeno pônei.
Geralmente ganham muito dinheiro sem muito trabalho, não choram por bebês assassinados, mas pela unha de fibra de vidro recém-colocada, que resolveu quebrar antes da festa de debutantes das próprias filhas.
Ora, ora.
Aliás, era um sonho antigo para essas mulheres parir outras mulheres para que elas pudessem desfilar nas passarelas do Leopoldina Juvenil e Country Clube, provocando “óóóóós” nas outras mamães com testas tão imóveis e brilhantes quanto uma estrela no céu.
Esses filhos chamados João, Maria, Antonia, que só conhecem a humildade nos próprios nomes.
Filhos desses papais Brooksfield que bancam escolas caras demais, para que seus rebentos continuem não se envolvendo com as mazelas de ser classe média.
Eu tive uma amiga de verdade que cresceu com dificuldades financeiras, batalhou e acabou casando com um cofre bem recheado.
No início, ela era “camiseta”, sabia que tinha entrado em um mundo paralelo e tentava se encaixar em caixas douradas.
De minha parte, posso dizer que sei o que é “vida boa”, luxo e exuberância financeira, pois cresci onde dinheiro nunca foi problema (todo o resto sim).
Mas nunca passei pelo arco-íris, pois sabia que eu era privilegiada, mas não uma deusa pairando acima dos boletos e das economias de supermercado.
Simplesmente eu sabia.
E nunca deixei de saber.
Então íamos, os dois casais, passar alguns verões juntos em praias distantes e outras um pouco mais perto.
Para mim ainda era uma amizade boa, sincera, que fluía com muitas risadas e confidências.
Depois de muito tempo, o casal entrou em crise.
Fui ouvidos e lenços para as lágrimas dela.
Comprei briga com ele, me joguei com tudo na raiva.
Divórcio.
Ela continuou morando na cobertura da família, ficou bem assistida financeiramente e tocou a vida.
Então, tudo começou a mudar.
Aos poucos nossas conversas de antes se transformaram em um palco iluminado para ela, seus novos namorados, viagens, procedimentos estéticos (todos muito baratos, mesmo sendo muito caros).
Virou amiga de todos os outros pôneis alados que, antes, ela criticava.
Comecei a cansar, mas insistia na amizade, pois gostava da pessoa que ela foi e não da que estava.
O ápice do meu cansaço aconteceu quando falávamos sobre um novo namorado dela.
“Ah, ele é legal e tal, mas meio simplório”, ela disse.
Eu questionei o que seria exatamente simplório na análise dela.
“Simplório como tu” foi a resposta.
Nesse momento, montei no meu burrico, vestida com shorts e camiseta, chinelo de praia nos pés, bolsinha do Zaffari no ombro, e me despedi para sempre.
Nunca mais falamos, mas ela continua brilhando nas redes sociais, vivendo a sua fantástica vida de viagens caras e pele lisa, enquanto o restante de nós acompanha o início de uma terceira guerra mundial, feminicídios brotando mais que mato, bebês estuprados, cães torturados, economia em crise.
Mas os reles mortais também têm asas que se abrem quando o chão está muito próximo do rosto.
E elas não são coloridas, mas maiores e com muito mais expectativa de vida.
Mônica Becker Dahlem é publicitária, jornalista, escritora. Barbara, Frida, Caderno Literário Ajuris, Casos de Sucesso SEBRAE.
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