
1. A voz do Visconde de Valmont, John Malkovich, dizendo “It’s beyond my control“, no filme Ligações Perigosas, de Stephen Frears, me faz mal. Nunca mais consegui gostar dele. Falo do ator mesmo. E eu gostava. Como Port Moresby, personagem que me fascina, em O Céu que nos Protege, de Bernardo Bertolucci, ainda tentei. Aliás, dois exemplos de adaptações cinematográficas que honraram a literatura com estrelinhas.
2. Domingo passado, em um evento na Feira do Livro de Porto Alegre, a escritora portuguesa Filipa Fonseca Silva, falando sobre a velhice, comentou o costume que temos de dizer “no meu tempo”. De acordo com ela, todas as fases que vivemos nos pertencem. Opinião que compartilho do ponto de vista racional, mas na qual abro parênteses quando penso na época em que, cronologicamente, eu tinha mais futuro que passado.
3. Sendo assim, gostaria de dizer que “no meu tempo”, a gente costumava valorizar os diretores dos filmes e, de modo geral, íamos ao cinema mais porque se tratava de um trabalho de A ou B do que pelos atores. Se fosse um Tim Burton, um Quentin Tarantino, um Krzysztof Kieślowski, um Martin Scorsese, um David Lynch, um Pedro Almodóvar, cadê as mulheres?, lá estavam um bocado de gente e eu.
4. Como na literatura, na música, nas artes plásticas, em tudo na sociedade patriarcal, o número de diretoras sempre foi um fiasco perto do número de diretores. Eu poderia citar a Sofia Coppola, filha do Francis Ford, mas, aí, eu estaria escapando um pouco dos anos a que me refiro como “no meu tempo”.
5. De qualquer forma, aproveito para dizer que estimo, por diversos motivos, o filme Encontros e Desencontros, sendo o principal, a sabedoria do protagonista, um homem de mais de cinquenta anos, de não se deixar iludir pela crise existencial que vive e tampouco a de uma jovem, rompendo com estereótipo de que homens maduros sempre se aproveitam da vulnerabilidade das mulheres.
6. No Ligações Perigosas, com a ajuda de uma mulher experiente, acontece o oposto. Visconde de Valmont e a Marquesa de Merteuil, amantes no passado, outra vez atraídos um pelo outro, apostam uma noite de sexo se ele seduzir e conseguir provas escritas de que Madame de Tourvel, uma moça devota ao marido, se entregou a ele. Coisa mais cafona dizer “se entregou a ele”, mas era assim e ainda é, em alguma medida, que a sociedade enquadra a mulher em uma relação sexual: a mulher dá, o homem pega, come, por vezes, até mata.
7. Há um bocado de anos, quando eu estava começando a namorar o escritor Luiz Ruffato e que se tornou um de meus melhores amigos, aqui na cidade em que vivo, uma pessoa, sem saber que era eu a namorada, me disse: Helena, está sabendo que o Ruffato está pegando uma gaúcha? Uma criatura faladeira e machista, tradutora da baixeza humana, ainda mais quando legitima a ideia de segundo sexo que a Simone de Beauvoir denunciou.
8. Pensamentos amparados em estruturas machistas tiram-me o apetite. Não tenho o mínimo respeito por esse mecanismo que coloca os desejos e o prazer da mulher a serviço da vaidade, da posse e do gozo masculino. Uma coisa é uma mulher, em uma espécie de jogo, se fazer de submissa. Outra coisa é ser, de fato, dominada. O mais estranho, para não dizer estúpido, é que uma boa parte das pessoas ainda vê essa verticalização de poder como positiva, reproduzindo e legitimando a violência de atos sexuais encenados em filmes pornográficos.
9. Não gosto de filmes pornôs. Desgosto descolocado de puritanismo. Desgosto de caráter estético e político. Misoginia, etarismo e violência de gênero sustentam a indústria da pornografia e, como na prostituição, revelam a pobreza material da mulher diante do homem. Escrevi em outro texto, aqui nesta plataforma mesmo, sobre um trecho do livro A Insubmissa, da Cristina Peri Rossi, em que, olhando um quadro em que uma moça nua está cercada de homens vestidos, na casa da avó, uma menina entende a hierarquização estabelecida.
10. Olhando o que escrevi até aqui, pareço defender a ideia de que mulheres jovens são, então, inofensivas e mais honestas que as mais velhas e que os homens. Não que o mundo dos homens não afie as nossas unhas. “Cada vez que me aventuro no mundo dos homens, volto dele menos humana”, li em uma rede social. A frase estava sem autoria. E ela me parece bastante realista. Mas isso não significa que não encontremos jovens com desvio de caráter e transtornos de personalidade.
11. Como a vida imita a arte e vice-versa, conheço detalhes de uma história que bem poderia render um romance. Talvez, eu o escreva. Um de meus bons amigos, um homem vivido, sabe-se lá o porquê, se deixou levar por uma candidata à Marquesa de Merteuil, e não foi tranquilo nem barato escapar dela.