
O muro existe. Ele é alto. E não é nada provável que alguém que esteja em um de seus lados pule para o outro. Ninguém quer arriscar. Esborrachar-se do outro lado, ser picado por quaisquer dos venenos que possam existir ou mesmo ferir-se não está nos planos de quem já escolheu um lugar.
Mas o muro, apesar de alto e cheio de lâminas afiadas, daquelas que servem para ninguém ultrapassá-lo, abriga um tanto de gente que não quer sair dali. Não quer porque já esteve em algum dos lados e, por experiência própria, não acredita mais no que viu, ouviu ou viveu nele. Não quer porque, mesmo sem ter vivenciado algum lado (ou os 2) em termos partidários ou com efetiva participação, ou talvez com um mínimo de credulidade, simplesmente cansou de acreditar em coisas que, na realidade, não têm coerência com a prática instituída.
Essas pessoas estão feridas.
Feridas pela falta de esperança de que algo possa, de fato, mudar (eu me incluo nisso).
Não acreditam porque a conjuntura mundial está diferente e tem sido inevitável atestar a falência de modelos de Estado e de instituições interligadas por vários motivos, inclusive porque os cidadãos estão insatisfeitos, independentemente da classe em que estejam inseridos na pirâmide social. Não acreditam também porque sabem que a vontade ou possibilidade dos dirigentes de desejarem um bem-estar para muitos cede, rápida e impreterivelmente, às razões do mercado, da economia, do utilitarismo e do Poder.
E falo de Poder não sob a forma de um Estado. Falo dele como uma entidade que faz a sociedade ajoelhar e professar, sem nem perceber, a sua crença: a de que não estamos sendo engolidos por tudo o que ele constrói para se autoproteger, embora pouco ar nos reste.
Mas, mesmo arfando, precisando de uma bombinha que nos abra os brônquios do futuro, ainda resta uma única e longínqua oportunidade.
Talvez não saibamos disso. Nem nos demos conta de que ela persiste. Se vamos usá-la ou se a forma como a utilizaremos implicará em mais efeitos maléficos ou nem tanto, só saberemos à frente.
Fato é, no entanto, que a temos. Só precisamos nos perguntar a quem vamos ofertá-la. E não adianta querer comprá-la ou perguntar qual o valor de quem não quer nada do que está sendo oferecido e, mesmo assim, precisa escolher.
O valor da nossa oportunidade não é precificável: custa o quanto de nós todos — sociedade — ainda teremos de ver ser consumido sem retorno e o quanto somos capazes de suportar para continuarmos seguindo em pé.
Se temos consciência disso… aí é outra história.
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Mildred Lima Pitman - sou Mulher, Mãe, Advogada. E agora, na maturidade, venho buscando, por meio da escrita, uma melhor versão de mim mesma.