
O povo brasileiro é foda, podemos dizer. E não penso apenas no povo enquanto essa categoria abstrata sociológica, mas também em Viva o Povo Brasileiro, o monumental épico histórico sobre a formação do Brasil escrito por João Ubaldo Ribeiro, e no qual me pego pensando de quatro em quatro anos nesta última década. É um livro sobre o qual já escrevi muito e provavelmente vou continuar escrevendo enquanto puder, porque é uma das memórias de leitura mais empolgantes de meu longo contato com os livros. Um romance de narrativa intrincada, prosa complexa, estrutura e propósitos ambiciosos, e que, ao mesmo tempo, é uma leitura transformadora. Não digo que será assim para todo mundo; às vezes o que me empolga não empolga outros leitores, e vice-versa (eu, por exemplo, juro que ainda não entendi todo o barulho que vocês aí criaram em volta da Carla Madeira). Parafraseando outra das minhas leituras de predileção, O Auto da Compadecida, de Ariano Suassuna: “Não sei. Só sei que foi pra mim“.
Publicado em 1984, Viva o Povo Brasileiro permanece como uma das realizações mais ambiciosas da ficção brasileira contemporânea – percorre o livro uma intenção épica que nunca foi muito comum na introspectiva e galhofeira literatura do Brasil pós-Machado de Assis: concentrar em prosa e símbolos parte da formação caótica do país. O que o torna um exemplar desse rarefeito clube em que brilha O Tempo e o Vento, de Erico Verissimo, e ao qual poderíamos acrescentar outros poucos exemplares, como A Muralha, de Dinah Silveira de Queiroz; Um Defeito de Cor, de Ana Maria Gonçalves e Os Varões Assinalados, de Tabajara Ruas. Atravessando mais de três séculos de história, de 1647 a 1977, Viva o Povo Brasileiro constitui uma espécie de “romance total”, categoria já moribunda à época de seu lançamento. Sua extensão e seu escopo impressionam, mas é sobretudo a capacidade de articular uma visão de país que faz dele um clássico.
Sinopse arriscada
Até arriscar uma sinopse de seu vasto panorama temático terá o efeito de ignorar parte significativa de sua riqueza. Ainda assim, pode-se dizer que a narrativa acompanha uma ampla galeria de personagens ligados por laços de sangue, interesse, violência e memória, e que testemunham, agem ou são afetados por momentos decisivos da história brasileira, servindo como contraponto entre a narrativa “oficial”, heroica e mitologizante, e uma realidade mais simples, mais brutal e mais permeada por formas persistentes de opressão e de resistência.
Essa dinâmica é estabelecida desde as páginas iniciais. João Ubaldo descreve, com uma linguagem de orgulho cívico irônico, uma pintura histórica que retrata um alferes discursando em favor da Independência para um punhado de gaivotas antes de ser atingido pela artilharia portuguesa. A pompa da cena e a solenidade do discurso contrastam imediatamente com a revelação de que ninguém ouviu suas supostas palavras heróicas, além das aves, mas ainda assim sua história foi adotada como uma espécie de mito localizado da independência brasileira. E logo na sequência, João Ubaldo também desmonta a imagem gloriosa do Alferes Brandão para mostrar o homem comum que existia por trás do mito: José Francisco, um pescador arrastado pelos acontecimentos, elevado à condição de herói por uma posteridade que precisava de símbolos e que nunca deteve de fato a patente com a qual os colegas jocosamente o apelidam e que se torna indissociável de sua figura na posteridade.
O mecanismo é revelador. Em vez de aceitar a história oficial como verdade incontestável, o romance investiga a distância entre os fatos e a memória, entre a experiência concreta dos indivíduos e as narrativas edificantes construídas pelos vencedores. Essa mesma lógica preside a construção de figura oposta que logo é apresentada no livro, Perilo Ambrósio Góes Farinha, filho de proprietários de terra portugueses e futuro Barão de Pirapuama – e seguramente um dos personagens mais detestáveis da literatura brasileira. Quando eclodem os conflitos e turbulências da independência, Perilo está em viagem, acompanhado de dois escravizados. Ele então assassina um deles e se mancha com seu sangue, para simular uma brava luta patriótica. E, na sequência, corta a língua do outro escravizado para impedir que ele revele seu embuste. Encontrado por entusiastas da Independência, é aclamado como um herói, desfrutando impune das vantagens de seu logro. Perilo pode ser lido, assim, como imagem cristalina da elite brasileira originada na violência colonial e que manteve intactos seus privilégios a partir de mortes e silenciamentos, comprando sua legitimidade com sangue alheio.
Vertentes
Esta não é a única vilania cometida por Perilo ao longo do livro, o que talvez explique por que a maior parte da narrativa se divide a partir dele entre dois grupos/linhagens. O primeiro é representado por Amleto Ferreira, um jovem mestiço que faz da esperteza, da adaptação e do domínio da palavra instrumentos de ascensão social. Da condição de bastardo (embora a narrativa não afirme de modo textual, está implícita a possibilidade de ser filho ilegítimo do próprio Barão), ele se eleva a guarda-livros da propriedade de Perilo – e, mais tarde, após a morte deste, torna-se proprietário dos bens e da fortuna da casa senhorial com fraudes graduais. Em paralelo à ascensão econômica, fortalece seu próprio processo de “embranquecimento”, criando para si uma genealogia imaginária (diz ser filho de um inglês) que culmina na reinvenção completa de sua origem com o sobrenome que inventou para si, Dutton – um século e meio mais tarde, descendentes de Amleto se refestelam complacentes nos privilégios de sua “linhagem europeia tradicional.
É difícil não enxergar nessa trajetória uma metáfora mordaz da burguesia brasileira, frequentemente mais interessada em reivindicar origens europeias idealizadas do que em reconhecer as múltiplas matrizes que efetivamente compõem sua formação histórica. A jornada de Amleto no romance é típica da estrutura da obra, na qual a genealogia, a memória e a própria identidade nacional são frequentemente envoltas em versões contraditórias, boatos, silêncios e meias verdades desde o início. Antes de enfocar o barão, o livro narra um breve episódio em que dois holandeses caem presa de índios canibais e seus “espíritos” passam a ser convocados pelo misticismo popular como “caboclos”.
O povo
Perilo e os Dutton “inventados” por Amleto são a primeira linhagem que sustenta o romance, retratos da capacidade da elite nacional de se reinventar como se tivesse direito à terra e às vidas nela por mérito próprio. A segunda linhagem que percorre boa parte da trama é a que dá nome ao romance: o próprio povo brasileiro. Não um povo abstrato, transformado em conceito sociológico ou em figura retórica, mas um conjunto vibrante de vozes, experiências, sofrimentos e resistências. A principal delas, Maria da Fé. Também chamada Dafé, é uma jovem mestiça nascida de Vevé, mulher preta estuprada pelo barão e criada por Nego Leléu, um homem cuja esperteza, mesclada com uma violência brutal, se necessária, garante não apenas sobrevivência, mas inusual riqueza – numa atualização do mito estereotipado bem brasileiro do “malandro.
Ao redor de Dafé se organiza uma tradição subterrânea de luta, justiça e rebeldia que atravessa gerações e desafia continuamente as estruturas de poder herdadas do período colonial. Munida com a improvável riqueza que Budião acumulou, a jovem forma uma guerrilha clandestina que invade fazendas e liberta escravizados, acompanhada de um séquito de personagens ricos e carismáticos, como Budião, um dos responsáveis pelo fim do barão e que, a certo momento da narrativa, põe o pé no Rio Grande do Sul para participar da Revolução Farroupilha. E, como no Brasil nada existe no vácuo e todas as classes em disputa vêm a estar conectadas pela violência negada de seu passado, Dafé vai se vincular a personagens que têm relação direta com Amleto, como a mãe rejeitada, dona Jesuína, e o filho Macário, militar que recebe a incumbência de caçá-la e acaba se apaixonando por ela.
Riqueza de caracterização
Quando falo das imagens e alegorias possíveis na leitura de Viva o Povo Brasileiro, sei também que estou um pouco direcionando demais a obra. Porque todas essas leituras são, sim, possíveis, mas a associação automática entre Amleto/elite e Dafé/povo deixa passar algumas coisas, como o fato de que os personagens na narrativa vivem em um mundo marcado por alianças improváveis, pela violência cotidiana e pelo choque constante entre projetos de emancipação e mecanismos de dominação. Logo, não são heróis perfeitos nem mártires exemplares, mas sim pessoas contraditórias e falíveis (com a provável exceção do Barão, cuja perversidade covarde é matéria de pesadelos).
Mas o livro também não se reduz a sua dimensão histórica ou política, já que uma das razões pelas quais o romance persiste entre os marcos da literatura nacional está em sua extraordinária realização estética. João Ubaldo foi muito celebrado como contador de histórias, humorista e cronista. Menos frequentemente se enfatiza o quanto também foi, desde seu primeiro livro, Vencecavalo e o outro povo (1974), um experimentador da linguagem.
Linguagem
No plano formal, Viva o Povo Brasileiro oferece algumas das passagens mais ousadas da carreira de João Ubaldo. Há momentos de oralidade exuberante, trechos marcados pela tradição épica, incursões pelo registro satírico, pelo fantástico e até pelas considerações metafísicas temperadas com humor, como no longo trecho em que a narrativa analisa o flerte cotidiano com a morte da confraria aventureira dos “comedores de baiacu”, peixe cuja carne, se mal preparada, pode envenenar quem a consome. Tudo articulado por uma prosa de grande musicalidade, capaz de alternar solenidade e comicidade em questão de linhas.
A própria evolução da língua portuguesa surge como elemento narrativo como poucos outros romances do último meio século. Os personagens portugueses ou da elite nativa falam um idioma mais rígido e mais antigo, com pouca ou nenhuma influência dos vocábulos indígenas e africanos que, por sua vez, são abundantes na boca dos outros personagens situados mais abaixo na escala social. O próprio idioma das personagens muda à medida que os séculos avançam, incorporando influências e reproduzindo literariamente o processo pelo qual o português europeu se transformou no nosso português brasileiro. Poucos escritores conseguiram retratar de forma tão vívida a língua como organismo vivo, misturado e em permanente transformação.
Escrito em um período em que ainda era grande a influência do realismo mágico do século XX, Viva o Povo Brasileiro traz aqui e ali ecos da história reinventada e da imaginação barroca que marcaram autores como Gabriel García Márquez, Alejo Carpentier e Carlos Fuentes. Mas João Ubaldo permanece inconfundivelmente brasileiro pela própria ambiguidade que é característica da obra, e que transita de modo mais leve pelo “mágico” que era a marca daquela primeira tendência. Mágico no livro é o próprio povo e seu senso de resistência diante das contradições sociais inerentes ao país.
Quatro décadas após sua publicação, o romance continua impressionantemente atual. Não porque antecipe acontecimentos específicos ou ofereça respostas fáceis para os dilemas contemporâneos, mas porque identifica estruturas profundas da formação brasileira: o peso da escravidão, a fabricação dos mitos patrióticos, a persistência das desigualdades, a capacidade de sobrevivência dos grupos subalternizados e a disputa permanente pela memória.
O Povo Brasileiro é foda. E não só no livro. Porque, como percebeu quem leu até aqui, podemos falar de muita coisa quando falamos de Viva o Povo Brasileiro, de elites covardes, assassinas e mentirosas e de um povo que resiste no subterrâneo e que, a intervalos inesperados, revela muito de sua força.
Viva o povo brasileiro.