Em “O Mundo Assombrado pelos Demônios: A Ciência como uma Vela na Escuridão”, de 1995, o astrônomo e divulgador científico Carl Sagan escreve, a certa altura:
“Tenho um pressentimento sobre o futuro da América, na época dos meus filhos ou netos: quando o país for uma economia de serviços e informação; quando quase todas as principais indústrias manufatureiras tiverem se mudado para outros países; quando um poder tecnológico assombroso estiver nas mãos de poucos, e ninguém que represente o interesse público for capaz de compreender os problemas; quando as pessoas tiverem perdido a capacidade de definir suas próprias prioridades ou de questionar com conhecimento de causa as autoridades; quando, agarrados aos nossos cristais e consultando nervosamente nossos horóscopos, com nossas faculdades críticas em declínio, incapazes de distinguir entre o que nos faz sentir bem e o que é verdade, deslizaremos, quase sem perceber, de volta à superstição e à ignorância. Essa banalização é mais evidente no lento declínio do conteúdo substancial nos meios de comunicação de grande influência: mensagens de 30 segundos, agora reduzidas a 10 ou menos; programação voltada para o público menos exigente; apresentações crédulas de pseudociência e superstição; mas, acima de tudo, uma espécie de celebração da ignorância.”
Trinta anos depois, é possível afirmar que não apenas deslizamos, mas que o próprio “chão” está se desfazendo sob nossos pés. É o que se chama de “erosão epistêmica”. O termo deriva de epistemologia (o estudo do conhecimento) e erosão (o desgaste lento e contínuo).
O cientista previu o sintoma: a incapacidade de distinguir o que nos faz sentir bem do que é verdadeiro. A erosão epistêmica explica o mecanismo: a destruição deliberada de métodos que usamos para chegar à verdade. Enquanto o autor temia que fôssemos enganados por “pseudociência e horóscopos”, o que vemos hoje é algo mais profundo. Esse processo não oferece apenas uma mentira; ele corrói a confiança na própria ideia de que uma “verdade objetiva” possa existir.
A premonição sobre a celebração da ignorância materializa-se como uma ferramenta de identidade política. Nesse cenário, a rejeição à ciência — como no caso das vacinas ou do clima — não ocorre mais por falta de acesso à informação, mas por uma recusa ativa. Ser ignorante sobre certos fatos tornou-se um marcador de lealdade a um grupo. A “vela na escuridão” de Sagan não está apenas apagada; ela é golpeada por quem vê na luz um ataque às suas crenças pessoais.
O astrônomo lamentou a perda de conteúdo nos meios de comunicação, prevendo mensagens de menos de 10 segundos. Atualmente, os algoritmos de vídeos curtos são os principais agentes desse desgaste. Eles fragmentam a atenção e eliminam as nuances. Como a ciência é complexa e exige tempo, a desinformação vence: ela é rápida, emocional e desenhada sob medida para o “público menos exigente” que ele tanto temia.
A profecia era um alerta; a erosão epistêmica é o diagnóstico presente. Se permitirmos que a verdade continue sendo tratada como um acessório de conveniência, chegaremos ao estado de paralisia total: uma sociedade que, cercada de tecnologia assombrosa, é incapaz de solucionar problemas básicos de sobrevivência apenas por não concordar que eles existem.
Reconstruir a confiança na ciência e no método não é apenas um esforço educacional; é o caminho para a preservação da nossa capacidade de habitar uma realidade comum. Um mundo possível, livre de demônios que erguem brindes à ignorância.
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Foto da Capa: Imagem estilizada, sobre foto de domínio público. Gárgulas da Catedral de Notre Dame (Paris).

