
Em abril de 2026, finalizei o estágio em Saúde Coletiva para a graduação em nutrição, o segundo estágio de três, na Unidade Básica de Saúde da minha cidade. Localizada no Vale do Paranhana, com pouco mais de 24 mil habitantes (conforme o último Censo), Três Coroas é cortada pelo rio que dá nome ao Vale. A forte influência dos colonizadores pode ser vista na preservação das edificações do patrimônio preservado, além da cultura de característica predominantemente alemã. A cidade apresenta boa infraestrutura, calçamento, praças muito arborizadas, muitas com brinquedos para crianças, com intuito de proporcionar o lazer coletivo, oportunidade para atividades físicas, convívio social e bem-estar geral. Tem iluminação pública e videomonitoramento, o que gera um impacto positivo na população. Há ciclovias, quadras de esporte públicas e ginásio municipal, itens que contribuem para o estilo de vida ativo, diminuição de estresse e ansiedade da comunidade. Porém, o transporte público é deficiente, fazendo com que as pessoas se desloquem com veículos próprios, bicicletas ou a pé (nesses dois últimos, favorecendo a vida ativa). Relevante também o fato de que em cada bairro do município há feiras semanais de agricultores locais, o que disponibiliza alimentos in natura cultivados na comunidade, assim como pães de produção artesanal.
Em termos de perfil social e epidemiológico da população atendida na Unidade de Saúde Central (que se refere à comunidade local), é importante considerar fatores de renda, escolaridade e saúde. Apesar de ser uma cidade que vem se reestruturando depois da enchente devastadora de 2024, como muitas do Rio Grande do Sul, o setor calçadista predominante na região, assim como o comércio, oferece condições de trabalho dignas. Também vale destacar que a escolarização municipal é muito boa, assim como a merenda escolar oferecida (constatado no primeiro estágio realizado junto às escolas do município), já que o município conta com uma nutricionista exclusiva para a merenda escolar, lotada na Secretaria de Educação.
Mas de que interessa um relatório de estágio para um leitor sem vínculo acadêmico? O interesse está no fato de alertar sobre a saúde coletiva e individual. Na constatação impactante, já nas primeiras avaliações de antropometria e acompanhamento de consultas, da hipertensão, da obesidade, da diabetes mellitus II, que, em anamnese, são descritas com a suposta motivação do estilo de vida e alimentação. Ou seja, como uma cidade pequena, que, como já descrito, possui meios para que a população tenha boa saúde, não a possui? O que falta? Por que ambientes ditos ‘obesogênicos’, caracterizados pela urbanização desordenada, comum nas grandes cidades, acontecem de modo igualitário nas pequenas cidades interioranas?
Dados atualizados em março de 2026 pelo Ministério da Saúde apontam que a diabetes cresceu 135% em 18 anos no Brasil, acompanhada do avanço da hipertensão e obesidade. E, no perfil levantado em estágio, a comunidade local se dirige para o caminho nacional, isto é, diagnosticado para o sobrepeso e obesidade (incluindo predominância de hipertensão e diabetes), quadro representado por 73% dos pacientes da análise no período de dois meses. Então, para aprofundar a busca do problema no recorte do público avaliado, na tentativa de regionalizar o problema nacional para local, busquei um comparativo dos dados POF (Pesquisa de Orçamentos Familiares) 2024/2025, que estabelece perfil setorial da população no Rio Grande do Sul, onde está presente a avaliação do Vale do Paranhana. Estes dados do POF, em processamento de análises para os dados das projeções de 2024 (incluindo Ministério da Saúde/SISVAN), proporcionaram a possibilidade de equiparar informações já coletadas com o que foi levantado no presente estágio. Este confronto resultou na confirmação da tendência de aumento de peso da população de Três Coroas e da região.
No contexto, o Atlas Mundial da Obesidade, lançado em março de 2026, já aponta o Brasil em 6º lugar entre os países que concentram mais crianças e adolescentes com excesso de peso. E os números ABESO (2025) destacam que, no Rio Grande do Sul, em Porto Alegre, os números da obesidade (IMC ≥ 30 kg/m²) representam 23,2% dos homens e 20,3% das mulheres da capital. O Atlas da Obesidade do Rio Grande do Sul aponta a Região do Vale do Paranhana com a seguinte classificação para sobrepeso: mulheres 32% e homens 38% da população. Entre os adultos, a obesidade (todos os graus) foi de 41,5%. Entre gêneros, a obesidade foi observada em 43,7% das mulheres e em 34,0% dos homens. Os maiores percentuais foram registrados em Riozinho (57,4%) e Igrejinha (45,6%) para as mulheres; e, em Riozinho (66,7%) e Taquara (50,0%) para os homens.
Todos esses elementos levantados no Estado também confirmam a tendência para sobrepeso junto aos três-coroenses estudados. A grande questão é o porquê desse desempenho negativo para a saúde também em cidades pequenas com boa infraestrutura, praças, ginásios, boa escolarização e merenda escolar, assim como a disponibilidade de alimentos de feira de produtores locais? Educação e políticas públicas voltadas à nutrição podem atuar na promoção de práticas de alimentação saudável, no desconhecimento da leitura de rótulos, no exagero em quantidades de açúcares e farinhas e, assim, fazer a diferença na diminuição de doenças metabólicas, seus agravos e nas filas de atendimentos nos postos de saúde. Comer bem é qualidade de vida.
Denise Preussler dos Santos é jornalista (Unisinos), com mais de 180 artigos publicados em jornais do interior. Tem publicações na Revista Teias, Labrys, Revistas Eletrônicas Puc, Revista de Educação, Linguagem e Literatura-UEG Inhumas. É mestra em Educação (Ulbra) e terapeuta integrativa. Atualmente, cursa Nutrição (Uniasselvi).
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