
Oba! 2026 está sendo um ano muito divertido. O Carnaval foi supimpa e o São João promete ser melhor ainda. Para quem gosta de se esbaldar, as folias do Rei Momo e de São João são motivos de fortes emoções. Além de tudo, tem um montão de feriado e dias imprensados até umas horas. Nosso povo merece essa dupla dinâmica: descanso e alegria.
Aqui da Veneza brasileira vislumbro um festejo junino esplendoroso. O interior tomado por bandeirinhas, forró, iguarias de milho e muita quadrilha junina. Caruaru, nossa Princesa do Agreste, é famosa por seus mega espetáculos e rivaliza o título de “Melhor São João do Mundo” com Campina Grande, a paraibana Rainha do Borborema.
As maiores festas ainda estão por chegar. Logo mais começa o circo da Copa do Mundo, que neste ano terá como cenário os países da América do Norte. Pode acreditar, até Tio Sam vai abrir a casa para receber atletas e torcedores — esse tio sedutor de besta não tem é nada. Das bandas de nosso país, estamos mais uma vez fazendo nossa fezinha, que agora vem o tão sonhado hexacampeonato, após uma abstinência de 24 anos.
Os brasileiros, particularmente os nordestinos, que são assíduos acompanhantes do Campeonato da FIFA, terão que dividir sua atenção entre os jogos e os festejos juninos, já que a Copa vai de 11 de junho até 19 de julho. Dessa vez são 48 seleções correndo atrás da bola para cravar o título de campeão e assegurar prêmios milionários. A mobilização de investimentos é imensurável. Grandes empresas brigam para ter seu nome vinculado ao espetáculo e à seleção canarinho. Pessoas dos quatro cantos do mundo correm para aquisição de um ou vários ingressos. Rede hoteleira e companhias aéreas majoram o custo de seus produtos, que estão disfarçados em tentadores pacotes promocionais. Trata-se de um acontecimento internacional atravessado por um dos maiores folguedos da nação.
E que coisa agradável que as festanças joaninas propiciem uma rendinha extra para o nosso povo empobrecido. Igualmente, promova alegria aos montes nos mais distantes rincões deste Brasil continental. Também a Copa do Mundo há de gerar algum nível de entretenimento jubiloso e um bocadinho de recursos com a venda de bugigangas de toda natureza. É confortável saber que nosso povo pode contar com festejos populares que os agregam, oferecendo uma sorte de relaxamento da vida árdua e trabalho exaustivo. Não se pode censurá-los por isso. O lazer, além de merecido, é uma dimensão fundamental na constituição de toda pessoa.
Não será um abuso recordar que, um tantinho após a Copa do Mundo, as elites serão brindadas com a 11.ª edição do maior festival de música e entretenimento do mundo, o “Rock in Rio 2026”. O evento está programado para os dias de 4 a 13 de setembro. Os ingressos devem custar uma bagatela entre R$ 870 e R$ 435. Astros do mundo inteiro são esperados para os espetáculos. Não sei se seria petulância demasiada identificar aqui o “panem et circenses” das elites. Seria?
Fico, contudo, a pensar na famosa frase do poeta romano Juvenal: “duas tantum res anxius optat, panem et circenses.” Denunciando que o povo romano estava abdicando de sua liberdade e participação política em troca de pão e circo, referindo-se à distribuição de annona (pão), suprindo a fome imediata, e ao patrocínio de muitos esportes e espetáculos visando à distração dos cidadãos. Assim, pensava o poeta, os poderosos mantinham o controle social, evitando revoltas, enquanto o povo perdia o interesse pela política. E quanta coisa lamentável ocorre enquanto a festa rola solta! “Pode vir, pode chegar. Misturando o mundo inteiro, Vamo vê no que é que dá” (Sangalo). Durante o tricampeonato, o pau comia solto nos opositores da ditadura militar.
Os mestres da poesia cantada, Caetano Veloso e Gilberto Gil, nos anos sessenta, compuseram um verdadeiro hino, gravado pelos Mutantes, com o título “Panis et Circenses“. A canção se utiliza da alegoria do “pão e circo”, denunciando uma sociedade desinformada, acomodada, concentrada em futilidades. Insensível e indiferente aos absurdos da ditadura militar. A música pronuncia que “as pessoas na sala de jantar, ocupadas em nascer e morrer”. Refiro-me à promoção do jeito capitalista de pensar e de impor seus imprescindíveis cânones.
A sociedade industrial capitalista nutre-se, sobretudo, da manipulação do lazer e do tempo livre, transmutando-o em mercadoria de compra e venda, limitando o ócio criativo e impondo demandas de produtividade até mesmo nos momentos de diversão e descanso. Na sua obra “Sobre o Modo Capitalista de Pensar”, Martins (1978) argumenta que o modo de produção capitalista é indissociável de um modo de pensar específico, que naturaliza a mercadoria, a competição e o fetiche do capital.
Todo o exposto acima justifica meu interesse em, considerando a grande quantidade de eventos simultâneos, refletir sobre uma festa importantíssima: a grandiosa celebração da democracia, que é a máxima expressão da soberania popular, consubstanciada no processo eleitoral. Deverá acontecer nos dias 4 de outubro (1º turno) e 25 do mesmo mês (2º turno). Vamos escolher os ocupantes dos cargos de presidente da República, governadores, senadores e deputados federais, estaduais e distritais, no caso do Distrito Federal. A campanha inicia dia 16 de agosto, em rádio e TV somente no dia 28, e vai até 1.º de outubro.
É importantíssimo atentar que o evento é fundamental para a democracia e a preservação e ampliação das conquistas da cidadania. Portanto, devemos estar abertos à escuta e ao debate. Sobretudo, como diz o ditado popular, “não comprar gato por lebre”. Esta festa é de suma importância. Não é o cenário para embates entre fundamentalistas e esquerdistas, nem um duelo de sulistas/sudestinos contra nordestinos. Somos todos brasileiros e todos queremos viver num país democrático, próspero, soberano e livre, mesmo e apesar de nossas diferenças políticas. Enfrentando, no dia a dia, sem escamotear, as tensões que surgem na defesa dos ideais que nos mobilizam. Todavia, zelando pela democracia e pelo bem comum de todos nós.
O momento não pede a exaltação da intolerância ou do desrespeito, muito menos a submissão a dogmas partidários. A polarização a nada conduz, posto que nos coloca irracionalmente em lados opostos, deixando à margem os interesses maiores da nação. Neofascistas travestidos de conservadores revelam intolerância com o contraditório, sequestram símbolos muito preciosos para a nação e produzem ilusionismos em retóricas recheadas de mentiras. Precisamos, com coragem e objetividade, contestar toda tentativa antidemocrática de tomada do poder por meio de estratégias esdrúxulas, como foi aquela de 8 de janeiro de 2022, quando radicais tentaram promover à força a ruptura com a democracia.
Com a radicalização e a cegueira, só a democracia perde: os mais pobres podem ver minorados seus direitos assegurados em políticas públicas; as infâncias, adolescências e juventudes têm a possibilidade de ter seu acesso à educação dificultado; o cidadão poderá ver sumir conquistas sociais históricas. Enfim, carecemos discernir narrativas oportunistas e de ocasião daquelas que pressupõem um compromisso verdadeiro com a cidadania e a democracia.
É preciso ter cautela com a cizânia espalhada pelas redes sociais e canais de comunicação. Muitas mentiras travestem-se de verdade para enganar o eleitor, utilizando apelos emocionais que comprometem o senso crítico. Tenhamos cuidado para não desistirmos da verdade. Joseph-Marie de Maistre defendia que “cada povo tem o governo que merece”. O filósofo defendia que o voto reflete a moralidade da sociedade, mas isso não me parece real. Existe uma complexa engenharia eleitoral movida por estratégias de manipulação que, embora não determine o resultado das urnas de forma absoluta, exerce uma influência avassaladora.
Pode ser redundante, mas não vou me furtar a assinalar que as eleições são o coroamento da democracia. Mediante elas, o poder deixa de ser uma abstração e passa a ser exercido por representantes eleitos diretamente pelo povo. Somente por meio de sufrágios legítimos, limpos e transparentes, temos um governo com base moral e legal. O processo eleitoral assegura que os eleitos tenham sustentação ética e jurídica, fundamental para o exercício do múnus que lhes foi delegado por seu povo, porque sua autoridade provém de um sufrágio coletivo e transparente. Além de tudo, é preciso não esquecer que a eleição pode favorecer a alternância no poder e/ou o referendo a um projeto político exitoso em curso.
No mais? No mais é: “ou ficar a pátria livre ou morrer pelo Brasil!”
Junot Cornélio Matos, cearense de Juazeiro do Norte, é casado, pai de duas filhas e avô da pequena Ara e dos miúdos Cícero e Zui. Tem Licenciatura em Filosofia pela Universidade Católica de Pernambuco (1985), Mestrado em Filosofia pela UFPE (1994) e doutorado em Educação pela Universidade Estadual de Campinas – UNICAMP (1999). É professor do Departamento de Filosofia da UFPE.
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