
São muitas as similitudes que aproximam o Brasil do golpe da Alemanha da República de Weimar. Em ambos, o medo é combustível, diuturnamente alimentado por propaganda racista, xenófoba, em busca de um militarismo salvador e um suposto combate à corrupção”.
Advogada Tania Maria de Oliveira, da ABJD.
Recentemente fui convidado a participar de um curso sobre a história da Medicina. Perguntei logo se nele se abordaria a visão dos médicos ou a visão dos pacientes sobre a nobre arte médica. Se fosse a primeira das interpretações, eu as conhecia de sobejo, mas o que agora me interessava era a história da medicina vista pelos pacientes, com seu relacionamento com os praticantes da medicina tradicional e oficial. Lembrei-me então do moleiro italiano Menochio do século XV (O queijo e os vermes – Carlo Ginzburg) e do médico húngaro Ignaz Semmelweis, do século XIX. Ambos contestaram as versões oficiais, o primeiro a da Bíblia e o segundo a da medicina de sua época. O moleiro italiano que aprendeu a ler para interpretar literalmente a Bíblia acabou na fogueira e Semmelweis, por provar que as infecções puerperais eram de origem bacteriana e provocadas por médicos, foi proibido de trabalhar e expulso da Áustria.
Jacques Le Goff, nos relatos das “pequenas histórias”, atinge o núcleo do relacionamento entre médicos, pacientes e sociedade. Todos estão no mesmo barco das contingências sociais. São produtos delas, partilham suas ideias, seus fantasmas, sua resistência às mudanças, seus modelos ideológicos e os mecanismos empregados e tudo e todos submetidos a uma ortopedia social. Sociedade e médicos estão em constantes relações de reciprocidade, num permanente escambo de poderes, deveres e privilégios desproporcionalmente distribuídos. Ao dispor de parte do poder e de considerável saber, os médicos foram e serão por muito tempo admirados e invejados. Ontem como xamãs e sacerdotes, hoje como profissionais ditos liberais inseridos numa sociedade de mercado. E, nesse contexto, os médicos adotaram e subjetivaram certos padrões de comportamento social e de pensamento ideológico dominante e dominador.
O objetivo deste texto é tentar elaborar uma hipótese e uma explicação de como a classe média (e a categoria médica) foi, em grande parte, tomada por um ideário liberal-fascistizante, elitista e antinacional. A categoria médica, em particular, está dividida em várias classes sociais. A do médico pobre, a do remediado e a do rico. A do médico operário e a do médico patrão. Portanto, nela estão inseridas várias classes, com interesses e objetivos diversos, porém nem sempre diferentes. Historicamente, como opção política, principalmente em momentos de crise, a categoria opta pela direita e mesmo pelo fascismo.
A consciência de classe é inseparável dos interesses de classe baseados na posição social dos seus componentes. Na defesa desses interesses e com medo de perdê-los, seus integrantes tornam-se intransigentes, intolerantes e mesmo irracionais. É por isso que, parafraseando Marx, a classe média dita neoliberal tolera (ou simula) ser contestada em 1/39 de suas convicções, mas não permite um ataque a 1/40 de sua renda. Mesmo um liberal ilustrado como Keynes disse que “em relação à luta de classes, meu interesse pessoal liga-se ao meu próprio ambiente. Posso ser influenciado pelo que me parece ser justiça e bom senso, mas a guerra de classes me encontrará ao lado da burguesia educada”.
E, quando uma categoria profissional não é ilustrada porque ignora a história, principalmente a da luta de classes, quando é jejuna em cultura e arte em geral e afirma ser apolítica, acaba por assumir políticas claramente de direita, elitistas, excludentes e nazifascistas.
Franklin Cunha é médico e membro da Academia Rio-Grandense de Letras.
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