O ar parece denso. Nuvens cor de chumbo despejam sua carga líquida sobre a cidade, e o asfalto cede em ondulações escuras sob o calor acumulado. O silêncio do meio-dia é quebrado apenas pelo zumbido incessante dos aparelhos de ar-condicionado. São cenas que se repetem em diferentes partes do mundo — e não é preciso ir longe para reconhecê-las.
Nos últimos dias, a água subiu sem aviso em Minas Gerais e no Rio de Janeiro, invadindo casas, ruas e memórias, ceifando vidas e arrastando consigo o trabalho de uma vida inteira. Situações como essas, antes associadas a eventos excepcionais que ocorriam uma vez a cada década, tornaram-se a crônica dos nossos verões e o prenúncio de algo mais profundo e persistente.
Por muito tempo, a ligação entre a intensidade de eventos climáticos específicos e o aquecimento gradual do planeta foi uma verdade intuitiva, mas difícil de demonstrar com precisão. A ausência de provas claras permitia que a responsabilidade se diluísse. Essa era, no entanto, está terminando. A ciência — em um avanço digno de um romance de detetive — aprendeu a seguir os rastros, comparar cenários e identificar as impressões digitais dos culpados.
Estamos entrando na era da responsabilização climática. Um novo e robusto campo da ciência, conhecido como ciência de atribuição, finalmente nos fornece as ferramentas para definir com exatidão como o aquecimento global altera os padrões climáticos. Ele não apenas confirma que o clima está mudando, mas também permite quantificar quanto da intensidade de uma onda de calor ou do volume de chuva em uma inundação é atribuível à atividade humana. Mais importante, possibilita rastrear a origem dessa influência até suas fontes: as emissões de gases de efeito estufa liberadas, ao longo de décadas, por um número surpreendentemente pequeno de grandes corporações.
Durante muito tempo, a discussão sobre responsabilidade funcionou como um jogo de empurra. Nações culpavam indústrias; indústrias transferiam a culpa aos consumidores; consumidores apontavam para os governos. A responsabilidade se dissolvia em um mar de complexidade, enquanto as comunidades mais afetadas arcavam sozinhas com os custos mais devastadores. A ciência de atribuição surge para interromper esse ciclo. Fundamentada em dados rigorosos, ela oferece a base necessária para que a justiça climática deixe de ser um ideal abstrato e se torne uma possibilidade legal e viável politicamente. É o momento em que o investigador consegue, enfim, ligar a arma do crime ao suspeito.
O arsenal técnico por trás dessa virada é impressionante. Cientistas utilizam modelos climáticos de altíssima resolução, capazes de simular a atmosfera da Terra em escalas de 10 a 25 quilômetros. São verdadeiros laboratórios virtuais, nos quais é possível recriar um furacão ou uma seca e ajustar variáveis para compreender os mecanismos por trás de sua formação. Para reduzir a margem de erro, recorrem às chamadas comparações multimodelo: dezenas de simulações independentes, desenvolvidas por equipes ao redor do mundo, são executadas em conjunto. Quando os resultados convergem, a confiança deixa de ser intuitiva e passa a ser estatística.
A técnica mais inovadora pode ser a construção de cenários contrafactuais, frequentemente com o auxílio da inteligência artificial. A pergunta central é simples e radical: e se nunca tivéssemos queimado carvão, petróleo e gás em escala industrial? A partir dela, os cientistas criam um planeta virtual — um gêmeo que jamais atravessou a Revolução Industrial. Ao comparar o comportamento dos eventos extremos nesse mundo “limpo” com o que ocorreu no nosso, torna-se possível isolar e medir a contribuição exata das emissões humanas. A diferença entre esses dois mundos é a marca indelével da atividade industrial impressa no clima.
Os resultados dessa investigação são perturbadores. Um estudo recente publicado na revista Nature analisou 226 ondas de calor ocorridas em todo o mundo entre 2000 e 2023 e as cruzou com as emissões históricas totais dos 180 maiores produtores de combustíveis fósseis e cimento do planeta, os chamados Carbon Majors. Entre os dez maiores emissores estão as empresas da antiga União Soviética (9,28% das emissões), os grandes produtores de carvão da China e da Índia (9,73%) e empresas petrolíferas como Saudi Aramco, Chevron, ExxonMobil, Gazprom, National Iranian Oil Company, BP e Shell, que juntas respondem por 26% do total. A lista inclui ainda empresas brasileiras como Petrobras e Vale, cuja contribuição somada é de cerca de 1%.
Esses números não são simples correlações abstratas. Revelam um rastro consistente de decisões que privilegiaram o lucro em detrimento da estabilidade planetária. O debate deixa de ser moral e torna-se material. Não se trata mais de acusações difusas, mas de imputações com nome, endereço e balanço financeiro. Essa evidência preenche uma lacuna histórica e abre caminho para litígios climáticos, nos quais comunidades e nações podem exigir reparação pelos danos sofridos.
A ciência de atribuição, porém, não é apenas um instrumento de justiça retrospectiva. Ela fornece também a base para políticas transformadoras voltadas para o futuro. Organizações como a Eurodad e a Aliança Global pela Justiça Tributária propõem mecanismos como um imposto progressivo adicional sobre os lucros das empresas de combustíveis fósseis. Diferentemente das políticas de precificação de carbono, que transferem frequentemente o ônus para os consumidores mais pobres, essa abordagem atua pelo lado da oferta, alinhando diretamente responsabilidade econômica e dano ambiental.
Se um imposto de 20% tivesse sido aplicado sobre os lucros globais dos cem maiores produtores de petróleo e gás desde a adoção do Acordo de Paris, em 2015, teria gerado US$ 1,08 trilhão em receitas adicionais. Esses recursos poderiam financiar a transição justa para energias renováveis, compensar comunidades afetadas por eventos extremos e complementar os insuficientes compromissos internacionais de financiamento climático. A proposta prevê ainda o aumento gradual da alíquota até 100% em 2050, criando um incentivo econômico claro para o abandono dos combustíveis fósseis. Aqui, a ciência encontra a política fiscal e transforma responsabilidade mensurável em ação concreta.
O desafio agora é integrar esse conhecimento aos mais altos níveis da governança global. Acordos climáticos, como os discutidos nas COPs, precisam incorporar mecanismos formais de atribuição que conectem emissões a impactos, enquanto estruturas tributárias internacionais devem criar incentivos econômicos que desestimulem a exploração de combustíveis fósseis. A ciência já fez sua parte: identificou causas, rastreou responsáveis e quantificou danos. Cabe agora aos formuladores de políticas, aos sistemas de justiça, aos legisladores e à sociedade civil transformar esse conhecimento em reparação.
A era da ignorância conveniente terminou. A da prestação de contas está apenas começando.
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Foto da Capa: Tânia Rêgo / Agência Brasil

