
Grande pretensão a minha, responder à sua missiva, que é tão fecunda em provocações. Porém, lhe asseguro que, muito além de oferecer soluções, assalta-me o peito a vontade de refletir, formulando novas indagações para sua posterior meditação.
Seu texto, repleto de curiosidades, criativamente tecido e atrevidamente indagativo, confirma minhas convicções acerca das juventudes e me deixa muito consolado porque vejo o quanto sua alma inquietante afetou a minha. Aprendo com a forma que você faz da filosofia a sua morada e recordo o quanto minha vida juvenil esteve balançada por apreensões e afazeres, que entendi serem, em alguma medida, seus também.
Moço, fui nutrido pelo intento, nada modesto, de construir soluções para um mundo cada vez mais caótico, como se possível fosse redesenhar o mundo, e ponto final. Sentia que um vendaval de desafios tendia a querer me confundir a todo momento. Reagia com a certeza de que, em minha idade, não era cabível deixar que verdades centenárias conduzissem minha ação. Demonstrava uma avidez inesgotável pela inovação, questionando dogmas consagrados pelo tempo. Porém, ancorado no antigo como plataforma de lançamento, nunca como ponto de chegada. Sabia da importância que os legados de nossos ancestrais ocupavam na tessitura de minha historicidade. Saboreava suas astúcias, sabedorias e elaborações de sentenças e proposições como forma de resposta a cada uma das questões problematizadas. Acredito, sinceramente, que essa vontade incessante de busca e abertura é minha maior herança. Tentei, assim, jamais me acomodar. Não quero e não me permito fazer “bodas de ferrugem”. Continuo olhando todos os fenômenos que minha vista consegue alcançar no afã de beber seus ensinamentos e identificar que averiguações me apresentam.
A coisa primeira a ser dita desde sua letra é que a tradição não é um mal a ser banido. Renovar o olhar não é ignorar o já visto. Tem coisas que estão constituídas. Há outras que estão por ser firmadas. Existem aquelas que necessitam ser permanentemente renovadas. A tradição é o andador no qual damos os primeiros passos. Em relação aos estudos filosóficos, sou do pensar de que é justamente o conhecimento consistente que permite a invenção e a criatividade. Ricoeur dizia que não é possível filosofar sem pressupostos. Isso pode ocorrer, seja pela pré-compreensão que o contexto — o espaço, o tempo e os significados neles já postos — proporciona, seja porque filosofar é uma reação e/ou uma tomada de posição diante da perplexidade ou da curiosidade que a atitude filosófica nos provoca. Ademais, nós somos construtores de tradições, acrescentamos adições a elas. Somos por elas atravessados e, de alguma forma, elas nos afetam.
Criticamos com facilidade as pessoas que se posicionam em desacordo conosco. São, para nós, alienadas; não conseguem elaborar um pensamento crítico. Ignoramos que, embora pareça que o outro não pensa (como nós), isso não significa que não exista um pensamento por trás do suposto não pensamento dele. Há um repertório hegemonizado que molda a visão de mundo predominante na sociedade. São referências consideradas universais e refletem as ideias das classes dominantes, atuando no inconsciente das pessoas. Trata-se de uma construção argumentativa e tradicional reinante. Trabalhar tais arcanos simulacros é uma atividade que exige respeito às pessoas e suas convicções.
Para ser uma docente competente, é mister ser uma estudiosa, alguém que persegue o conhecimento possível e fundamentado do processo de construção daquilo que chamamos de conhecimentos filosóficos. Pode até ser um exagero, mas confesso que essa é uma condição essencial. Parece possível ser uma pessoa que seriamente enfrenta os problemas concernentes ao fazer filosofia no chão da escola. Registre-se a importância de conhecer para ir além, de saber e saborear com autoridade (autoridade, simultaneamente: autoria e serviço) o ser e o fazer-se nas filosofias. Você sabe que repito sempre: discípulo nem ser, nem ter. Nada de segurar na alça do ataúde filosófico e fazê-la perder-se na escuridão do infinito.
Certamente, a essas alturas você deve estar revisitando com sua arguta mente as polêmicas discussões propiciadas toda vez que busquei expor meu pensamento sobre a filosofia. Sabe que gosto muito da expressão “amor à sabedoria”. Me apraz porque se distancia da ideia de que sábio é aquele que acumulou conhecimento e pode repeti-los sempre que acionado. Ao contrário, e eu diria até o oposto, ela expressa uma atitude de abertura e resiliência. Abertura incondicional e incessante ao fluir que é a existência humana. Trata-se de colocar-se humildemente — humildade, não como falsa modéstia, mas expressando a verdade interior. Essa verdade envolve a busca pelo reconhecimento de si mesmo, incluindo suas fraquezas e fortalezas, diante do espelho da natureza múltipla e inexoravelmente variada. Ver-se em sua singularidade e perceber o turbilhão do fazer-se e ser nos cotidianos e nas inúmeras e tensas relações da vida.
A professora de filosofia, minha amiga, somente o é genuinamente se de fato for amante da sabedoria; ora na sua ousadia, ora na sua modéstia, pode ajudar a tirar bom proveito disso. Parafraseando o poeta, arrisco-me a dizer que, “pra se fazer filosofia com beleza, precisa de um bocado de tristeza [angústia, medo, perplexidade]; se não, não se faz filosofia, não”. Sobretudo porque amor — e falamos de amor à sabedoria — não é posse. É bem querer que se configure em relações apoiadas na liberdade.
Tais especulações levaram-me a reviver, assim, atravessamentos juvenis de uma amizade a um não-saber, a um amor que somente é perene porque tecido na angústia, no espanto, na curiosidade, na incerteza do tempo que se faz, permanentemente, hoje. “Seja eterno enquanto dure”. Um amor que se define dessa forma porque não consegue expressar muito sobre si mesmo. Pois, afinal! O que é o amor? Haverá um conceito capaz de quebrar seu teimoso mover-se? Existirá realmente o amor enquanto coisa singular? Se não existe, não é… Se é, somente se desvela no viver. O poeta lusitano parece oferecer uma visão da polissemia do conceito ao perguntar: “Como pode o seu favor causar amizade nos corações humanos, se tão contrário a si é o mesmo Amor?”
Minha amiga, nós aprendemos e ensinamos que filosofia é amor, é amar, é bem querer. É amar o não saber que se transforma em saber — enquanto atitude existencial profunda — na experiência de se construir como ser humano, expressando-se nas linguagens forjadas na convivência. É amor contrário a si mesmo, pois não se cansa de especular, de questionar suas crenças, de duvidar de seus achados, de reinventar suas possibilidades. Parece construção no chão da vida, do mundo ao qual atribuímos a categoria de humano. Experiência e linguagem, antes que conceito e consciência. A experiência, ao violentar o puro existir, contribui para a construção da existência que se lê e se diz consciente. Linguagem parida na incessante e insistente labuta do vir-a-ser de homens e mulheres em sua permanente trajetória de inconclusão e mais querer. Filosofia que não é por amar o que será? Quem sabe pela teimosia em ser um amor devenir, muito mais um ser desejante de amor do que repleto de sua experiência?
Filosofia talvez esteja muito mais na direção de construir perguntas do que tecer respostas. Filosofias que não propõem um credo, nem se referem a um ofício sacerdotal. Filosofias que induzem à ação ética, à resistência lúcida, ao otimismo realista, à liberdade de forjar e conceber mundos. Filosofias ancoradas na dúvida, na curiosidade e na ousadia de questionar e investigar, sem se render cegamente aos anúncios fantásticos e fanáticos daqueles que temem a busca e a coragem da renovação. Filosofias na angústia, no medo, na perplexidade, na certeza de que nem tudo precisa, pode e deve ser explicado. Porém, pode ser examinado. Não para ser confirmado e/ou justificado. Mas, para ser compreendido.
Sem a pretensão de assentar respostas ou verticalizar nossa averiguação, podemos considerar questões que nos cercam ao longo da vida. Por outro lado, entendemos também que a ação do perguntar vislumbra possibilidades de sentimentos que a conduzem e, por seu turno, suscitam novas perguntas. Ora, concordamos também que esse perguntar é um processo educativo que remonta a uma construção e reconstrução de si.
Esclareço que concebo perguntação diferente de espontaneísmo. Não se trata de fazer de qualquer jeito e deixar rolar o papo sem ter um horizonte explícito de discussão. Precisamos atentar para o fenômeno a ser investigado, eleger critérios para sua análise, trabalhar sua conceituação dentro de um processo dialógico de construção de argumentos que estão inseridos dentro de um contexto específico. Numa palavra, educar para a inquirição. Envolver a dinâmica da perguntação dentro de um entre tantos métodos possíveis e construir devidamente sua fundamentação, pois esta exige uma atitude séria de diálogo, que é a base do processo educativo. Não é panaceia pedagógica, nem espaço de desabafo e/ou catarse coletiva. Antes, é uma estratégia que implica a escuta do outro, no respeito ao seu lugar de fala, sem escantear tensões e assimetrias. A opção por atuar com a perguntação denuncia a convicção incondicional de que o outro é sujeito de seu próprio processo educativo.
Junot Cornélio Matos, cearense de Juazeiro do Norte, é casado, pai de duas filhas e avô da pequena Ara e dos miúdos Cícero e Zui. Tem Licenciatura em Filosofia pela Universidade Católica de Pernambuco (1985), Mestrado em Filosofia pela UFPE (1994) e doutorado em Educação pela Universidade Estadual de Campinas – UNICAMP (1999). É professor do Departamento de Filosofia da UFPE.
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