
Não é piada, parece, não é? Porém, o assunto é sério! Porto Alegre, sistematicamente nos meses de junho e julho, sofre uma redução na produção de resíduos sólidos urbanos e, com isso, o impacto também de quem dele depende. Anualmente percebe-se a redução e escassez de resíduos nas Unidades de Triagem contratadas pelo DMLU (Departamento Municipal de Limpeza Urbana), mas este ano está se estendendo até agosto.
Sabemos que junho, julho e agosto normalmente são meses que afetam o comércio, tanto pelas escolhas do consumidor e seus hábitos de consumo, como férias escolares, viagens e muitas outras variáveis no período. Mas também temos o advento das vendas online, em que se iniciou uma redução de lojas físicas que encerraram ou diminuíram seus empreendimentos. Outra vertente pontual diz respeito ao momento econômico que passa o nosso país e o mundo, com guerras e conflitos que reduzem a chegada de itens importados, como as “blusinhas da China”, além da taxação de importação e exportação de muitos produtos, etc. É latente que estamos numa crise e observa-se no supermercado as pessoas literalmente “comprando o almoço para comer a janta”. E assim comprova-se a redução na aquisição de alimentos.
O DMLU (Departamento Municipal de Limpeza Urbana) em seu site traz informações de que os resíduos nesta época do ano sofrem redução do volume de materiais recicláveis destinados às Unidades de Triagem (UTs) de Porto Alegre no inverno. Esse comportamento é um padrão sazonal clássico monitorado pelo DMLU, causado tanto pelos hábitos de consumo, observados no comércio, quanto por condições climáticas. Há redução drástica, no frio, do consumo de bebidas tais como cervejas, refrigerantes, sucos e água mineral e, como consequência, há uma forte queda no descarte de garrafas PET, latas de alumínio e embalagens de vidro, os quais são justamente os materiais mais pesados e rentáveis para as unidades de triagem trabalharem.
Também há informações sobre a migração de resíduos para a coleta convencional, em função do aumento do desperdício e do descarte de materiais orgânicos quentes ou embalagens combinadas com gordura (como caixas de teleentrega de alimentos pesados). Todos estes descartes indevidos contaminam o lixo seco e fazem com que ele seja descartado diretamente na coleta domiciliar comum.
Este diagnóstico traduz em parte a redução de resíduos, mas, somado a isso, há a questão da falta de educação ambiental; a separação incorreta de produtos e embalagens por parte da população e ainda existe um grande número de resíduos que chegam aos galpões impróprios para viabilidade comercial. Na zona sul, muitos clandestinos (pessoas com caminhões não credenciados junto ao DMLU) também interferem na atividade do setor, pois atuam com a retirada de circulação dos resíduos antes da coleta seletiva efetuar o recolhimento oficial e autorizado.
O quadro atual nas Unidades de Triagem é sério. Existem associações e cooperativas reduzindo a jornada de trabalho para poder manter os postos de trabalho; outras reduzindo o seu quadro de associados e todos se debatendo por esporádicas cargas extras em grupo de WhatsApp corporativo do DMLU com as Unidades de Triagem (UTs) quando, eventualmente, por algum motivo de força maior, alguém cancela suas cargas. E diariamente a exposição de fotos dos cestos vazios e debates inflamados sobre a diminuição dos resíduos.
Os dados acima informados explicam este fenômeno. Existe a necessidade de uma política pública que preveja uma ajuda de custo para estes trabalhadores quando este “fenômeno” vier a ocorrer.
Parece que a solução encontrada pelo poder público para resolver estas e outras demandas que envolvem a gestão dos Resíduos Sólidos Urbanos em Porto Alegre é a PPP (Parceria Pública Privada), que se consolidará sem debates, numa forma verticalizada que aponta atender aos interesses do setor privado. Enquanto isso, em torno de 800 pessoas que trabalham e tiram o sustento de suas famílias clamam por resíduos para minimamente terem renda.
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Simone Pinheiro é articuladora do POA Inquieta e mestre em Ciências Sociais.