
Pensei sobre qual assunto escrever. É o dilema do escritor desde que o mundo é mundo. Imagino os colegas de séculos atrás duelando com o papiro em branco. Hoje, a tortura vem da tela do notebook. E há colegas que anunciam um novo purismo: voltam ao papel e à caneta. Nas livrarias chiques abundam os cadernos com capa de couro a cento e vinte reais. Faz sua reestreia, então, a folha de papel, e retoma a sua tirania secular.
Veio o assunto. Pensei em Wagner Moura. É o grande artista brasileiro da hora. As mulheres o amam; os homens o admiram sem dar pistas. Semana passada, deu uma entrevista para Pedro Bial. Os dois em uma mesa posta em algum lugar paradisíaco. Parece que era a Grécia. E o grande ator reclamava. Não o deixam ser de esquerda em paz.
Como os conservadores não podem vê-lo sem chispar labaredas, Wagner Moura disse o seguinte: “Eu queria saber qual é o teto. Quanto você precisa ganhar pra deixar de acreditar em justiça social? E a queixa está correta. O direitista diz que a esquerda defende o pobre, mas come caviar. Se estou com a vida ganha, o que importa o João das Couves pedindo na sinaleira? Mas é estranho. Noto que se enfraqueceu a solidariedade cristã do conservador. Virou coisa de homilia. O direitista brasileiro perdeu sua Bíblia. Comungando na missa, reza o Pai Nosso e o Cordeiro de Deus. Está salvo por mais uma semana. Mas é descer as escadas da paróquia e voltar à programação normal. Quer a polícia matando, quer a volta de uma série de novas violências para resolver as antigas. É adepto do “cada um por si e Deus por todos”. Nosso conservador sempre tem soluções prontas e firmes para tudo. E como se satisfaz!
Eu sigo a crônica escapando do assunto, mas falando ainda do grande ator, que não precisa da minha reabilitação. E afirmo: Wagner Moura é um homem bonito. Tem aquela espontaneidade do elegante, do carismático. “Wagner Moura tem o molho”, dizem os fãs. Hoje, o heterossexual pode dizer com liberdade que o indivíduo A ou B é bonito, mas até ali. Ainda receberá olhares da insegurança masculina, que segue salpicada de tabus. Dou um exemplo disso: são poucos os marmanjos que circulam de camiseta rosa. O homem na grande loja de departamentos evita essa tonalidade. Tem medo de uma cor.
A beleza masculina é sua negação me lembraram de Titanic. Estávamos em 1997. Em questão de meses morriam Darcy Ribeiro e Castor de Andrade. No final do ano, início de 1998, estreou nos cinemas a superprodução. Era o grande acontecimento. E, no fim, como hoje já foi tão discutido, o personagem de Leonardo DiCaprio foi parar no fundo do Atlântico porque não se agarrou a uma tábua. Mas não é disso que quero falar. É do próprio DiCaprio.
No blockbuster, o nosso ator foi o grande e proverbial homem bonito de filme. Era uma época de gritos histéricos das admiradoras. E as fãs, pelos quatro cantos do globo, emendaram um no outro os seus berros histriônicos. Houve, durante meses a fio, uma adulação insistente da beleza dicapriana. E os homens? Odiavam-no. Naquela época, a homofobia corria ainda mais solta do que hoje. E os pais, os filhos, os colegas de trabalho, nos jantares, na ceia de Natal, quando a conversa dava em Titanic e DiCaprio, não hesitavam. “Tem cara de viado!” Indignado com a beleza alheia, o homem atacava e rosnava.
Mas, na intimidade do quarto, do travesseiro, o homem de 1997 achava DiCaprio bonito. Secretamente, discretamente, o pobre diabo tentava se equiparar ao padrão de beleza anunciado na telona. Poderia, quem sabe, mudar o corte de cabelo ou fazer dieta. E DiCaprio, com aquela cara de adolescente, estava em todas as propagandas, todos os programas de TV. Era a tortura do homem barrigudo, criado a cerveja e churrasco. De lá para cá, para qualquer pessoa, a necessidade de aprovação estética só aumentou.
Eu falei de modismos, velhos e novos, e critiquei os conservadores. Por um equilíbrio escrito em lugar algum que deva existir, agora vou falar mal dos progressistas, dos esquerdistas, dos socialistas da bermuda cotelê e da feira orgânica (ah, o prazer de falar mal). Na última Copa do Mundo, especialmente em Porto Alegre, foi ao limite a mania dos jovens da Cidade Baixa de torcer pela Argentina e pelo Uruguai. Quem esteve nos bares da Lima e Silva durante o torneio pouco ou nada perdeu da agitação das ramblas, da 9 de Julio. Havia pelo lugar todo um patriotismo importado e para inglês ver.
Em um bar, eu vi; ninguém me contou. O Uruguai jogava com a Arábia Saudita e jogava mal. Aliás, a grande Celeste, amada pelos especialistas, é uma miragem, um Cometa Halley. E havia na primeira fila um jovem de camiseta uruguaia. Como se destacava! Torcia e se retorcia pela seleção adversária; quer dizer, adversária para o brasileiro comum, porque para ele não, pelo contrário. E, como a sua seleção jogava mal e mal, num certo momento o rapaz foi além: bateu na mesa. Sim, socou a mesa como o mais empedernido colorado ou gremista nestes tempos de mau futebol e vacas magras de ambos. Eu, depois de um certo momento, cheguei perto quando levantei para ir ao banheiro. Pensei que poderia ser uruguaio. Mas que nada: falava um português inquestionável. Era brasileiro nato e vertia brabeza pela Celeste. Vai entender.
Comecei a crônica me queixando da falta de assunto, e no final já me lembro de Lincoln, que dizia que seu maior defeito quando iniciava um discurso era a preguiça de parar. Pois bem, não tenho esse problema. Quem sou, aliás, perto do velho Abe? Cogito o que Lincoln acharia do atual presidente americano. Mas chega de assuntos aleatórios. Aqui está o fim. Hoje, venci a tela do notebook. Amanhã é outro dia.
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Daniel Ricci Araújo é natural de Porto Alegre e reside em Canoas. Possui três obras publicadas: "Uma vontade inadiável de acabar com este mundo", "Cinema, 1982 e outros contos", ambos de narrativas curtas e "Livro sem nome", de poesias.