
1 – As primeiras fases dos jogos são sempre as mais divertidas.
2 – Logo há o banquete das consequências, como dizia Stevenson.
3 – Era assim no Banco Imobiliário. No começo ia pegando companhias, o caríssimo terreno do Morumbi, enquanto meu irmão juntava as cores baratas e fazia infinitas construções (jogávamos sem limites), na expectativa, quase sempre correta, de que cedo ou tarde eu cairia nos cinco hotéis que ele coloca na Nossa Senhora de Copacabana, na Presidente Vargas.
4.- No War ele empilhava exército no México e em todas as passagens continentais.
5 – No começo ainda não há o teste da constância, da paciência, que até creio ter um pouco na vida, mas que me falta nas competições.
6 – Daí gostar tanto da primeira fase das Copas. As seleções humildes, exóticas, que de fato jogam com uma alegria que as candidatas ao título não podem ter. Ou porque sua longa história as envelhece (muitos fantasmas, muitos craques vintage), ou porque acreditam no planejamento tático (a morte de qualquer arte), ou porque o poder econômico é a única razão para seguir em frente, movendo tudo aquilo que não condiz com o coração infantil que pulsa em toda forma de jogo quando um jogo começa.
7 – Nos começos há muitos mais erros que acertos. As regras parecem menos rígidas.
8 – Depois seguirão as favoritas, uma ou outra zebra que, derribada pelo desgaste da seriedade, cai nas quartas.
9 – Sem paixão nem alegria. Raros são os profissionais que mantêm o coração amador.
10 – Esta rara junção cria os melhores jogadores, aqueles que nos devolvem a fé de que nem tudo foi feito, que os esquemas, as estatísticas, as frases feitas dos comentaristas, que tudo pode colapsar com aquela forma de desespero que a burocracia dos jogos chama sorte de principiante.
11 – Talvez isso possa explicar em parte a febre das bets. Os jogos envelheceram abraçados às muletas da técnica. Já não há nada selvagem e fresco para o coração. Apostar, com todos os danos à saúde e ao bolso acarretados, promove um novo jogo em cima do jogo, um lugar mais animado, mais perigoso, mais sedutor, do que o eterno 4-4-2 pode oferecer, ainda mais com os habituais cabeças de bagre dos times brasileiros.
12 – O único jogo em que eu levava vantagem sobre meu irmão era o Master, por ser eu dois anos mais velho e também desde muito cedo um leitor. Até que um dia, do nada, meu irmão passou a pedir questões de geografia. Era uma trampa. Ele passava o tempo decorando as respostas certas.
13 – Mas foi uma trampa das boas até perder a graça. Geografia.
14 – Que nossos jogadores tivessem, ao menos, tal malícia.
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