
Em uma rede social, a deputada Fernanda Melchionna lançou a campanha pela tarifa zero no transporte. Abre aspas, disse a própria: “Uma pesquisa realizada pelo Sindmetro com usuários do transporte público revelou um dado que diz muito sobre a realidade do nosso povo: se não precisassem pagar a passagem, a maioria usaria o dinheiro para comprar alimentos”.
Há décadas, os Titãs diziam: “a gente não quer só comida… a gente quer comida, diversão e arte”. E é justo. Muitos dos nossos leitores são da classe média. Ao nosso alcance, além do bife no prato, estão o vinho tinto, o museu, a orquestra filarmônica. O Brasil da classe média tem o que comer, vai ao cinema, compra chocolate, contrafilé, etc. Mas e o povo? E o batalhador brasileiro?
Aí a coisa muda. O bom brasileiro está imerso no batuque, na roda de samba, na conversa de bar. Enquanto isso, batalha pelo feijão da despensa, que muitas vezes não enche o prato. O bom brasileiro da esquina vive em busca do pãozinho para a média. E por essas e outras, surge a constatação: este parco assalariado não raras vezes sapateia, de perrengue em perrengue, em busca do almoço e da janta.
Mas nem sempre o brasileiro conhece esse país distinto, com um pé no maltrapilho. Imaginemos, por exemplo, uma cafeteria. Onde? No Moinhos de Vento. Ou no Três Figueiras. Pois muito bem. Confraternizam ali quatro ou cinco efemérides da classe alta. São viajantes, conhecedores do mundo. É ali que imagino o surgimento, ou melhor, o ressurgimento da grã-fina das narinas de cadáver. E o que ela diz de modo fictício, mas com um quê de real? “Não existe a fome”. Os colegas de milhões fazem uma cara torcida. “Mas fulana… Tens certeza?”. E ela responde: “Tenho. Não existe a fome. Estão aumentando”.
Alguém dirá: exagero, exagero. É que o brasileiro hoje, imagina-se, tem uma ideia mínima de como vai a vida dos conterrâneos. E há a consciência até artística da miséria pátria. Por exemplo: veio um Graciliano Ramos e nos deu Vidas Secas. Era o Brasil pintado na página seca e dura. A classe letrada, nos seus pileques de boteco, ainda afirma: “lembrem-se de Baleia!”. De modo que quando surge a grã-fina, há quem queira estudá-la. Será uma exceção? Eu afirmo: não é.
Voltemos a 2022. Vigia o governo Bolsonaro. Certo dia, o então presidente foi falar da fome. Saiu-se com essa: “Gente passa mal? Sim, passa mal no Brasil. Alguém já viu alguém pedindo um pão na porta, ali, no caixa da padaria? Você não vê, pô””. O homem categoricamente afastava a ideia da fome. Até abriu uma exceção: “olha… no interior… talvez.. vai que um e outro passa mal”. Veio o pleito. Bolsonaro perdeu, mas fez 50 milhões de votos, entre eles o da grã-fina. É a aprovação diabólica; todo um pacote de opiniões, essa entra elas, que o povo não afasta, não rejeita, não demoniza prontamente, como se fosse a própria imagem do Cão.
E então voltou Lula, o Lula do Fome Zero e agora do chapéu de palha. Não são poucos os brasileiros que criam úlceras ao ouvir seu nome. “É um demagogo”, “é um ladrão”, dizem isso e outros quetais. Milhões preferem ainda hoje o contemporizador da miséria, e votariam nele, não em Lula. A verdade: há brasileiros que têm uma relação parnasiana com a miséria alheia. O engravatado trafega pela rua, na nossa querida Terceira Perimetral, que tem aquele charme de avenida paulistana. Para no sinal. Há os pedintes em fila indiana. Ele pensa: “a situação está braba!”. Suspira e segue em frente. Não é problema seu.
Então, volto à nossa nobre deputada. O que nos disse o estudo que ela citou? Há brasileiro que troca o bilhete da condução pelo litro de leite. E a grã-fina das narinas de cadáver está agora em outro café, dessa vez em um shopping. E para outra roda de amigos diz o mesmo: “Não há a fome! Eu afirmo! É exagero!”. A grã-fina dá discurso, e então surge o assunto das eleições. “A prioridade é tirar o Lula”, alguém lembra. Ela concorda com a cabeça. Mas, dessa vez, claro, não votará em Bolsonaro. E emenda a pergunta: “E esse menino, o Renan Santos, o que é que vocês acham?”.
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Daniel Ricci Araújo é natural de Porto Alegre e reside em Canoas. Possui três obras publicadas: "Uma vontade inadiável de acabar com este mundo", "Cinema, 1982 e outros contos", ambos de narrativas curtas e "Livro sem nome", de poesias.