
Durante trinta e nove dias, o planeta parou para acompanhar um dos eventos esportivos mais importantes da humanidade: o futebol. Historicamente moldado, financiado e controlado pelas elites econômicas, o esporte-rei sempre encontrou no proletariado a sua verdadeira força motriz, sendo carregado nas costas, literalmente, por aqueles que sustentam a base material da sociedade. No entanto, o que testemunhamos nesta Copa do Mundo foi o reflexo alarmante de uma sociedade abjeta, arrogante e mergulhada em plena decadência imperial. Trata-se de um sistema que tenta desesperadamente, a qualquer custo e por meio de subterfúgios cada vez mais violentos, manter o seu domínio hegemônico global.
Nesse cenário de espetacularização barata, seleções, povos tradicionais e o próprio multiculturalismo foram postos à prova sob o jugo de uma realidade distópica que superou em muito qualquer roteiro de ficção científica escrito há trinta anos. Enquanto o “pão e circo” moderno entorpecia as massas, a engrenagem geopolítica continuou operando sem trégua. Os Estados Unidos persistiram em sua sanha imperial, buscando consolidar o seu papel de king, o soberano absoluto em sua própria língua, um trono que hoje é amplamente contestado por boa parte da população mundial através de manifestações e gritos de resistência que ecoam a máxima de que não há reis inquestionáveis (not a king).
O império seguiu implacável, atacando e desmantelando as próprias estruturas multilaterais que ele mesmo ajudou a formular no período pós-1945, provando cabalmente que a humanidade e as aspirações democráticas já não cabem mais nos planos de uma falsa democracia de fachada. Paralelamente a essa ofensiva externa, presenciamos o deslumbre alienado de setores torcedores, com um destaque particularmente lamentável em parcelas da nossa própria língua-mãe e em setores elitizados da sociedade brasileira, majoritariamente simpáticos ao trumpismo, que se fartaram de apostas esportivas (as chamadas bets) e de todas as mazelas trazidas pelo capitalismo financeirizado e especulativo.
Essa estrutura de dominação não se limita ao Velho Mundo ou aos grandes centros de poder; ela busca subjugar explicitamente a América Latina como se o continente fosse um mero quintal de seus interesses, sob a égide de uma recauchutada e agressiva Doutrina Monroe, a qual podemos chamar, sem exageros, de “Doutrina Donre”. É a tentativa de impor um controle absoluto sobre os recursos, os governos e as mentes do Sul Global.
Em contrapartida às análises puramente tecnocráticas ou dogmáticas, emergem reflexões profundamente humanas e passionais, capazes de desarmar certas discussões dicotômicas que muitas vezes paralisam o campo progressista. Como bem pontuou um amigo ao ridicularizar o debate sobre torcer ou não para determinadas seleções com base em critérios geopolíticos abstratos: “Essa discussão sobre pra quem torcer na final por conta do apoio ou não, maior ou menor, à causa palestina é mais uma bizarrice esquerdista. Minha escolha pela Espanha está ligada a uma causa genuinamente humana: a inveja! Inveja dos nossos vizinhos do sul terem construído uma seleção que não se rende nunca, inveja de um cara que tem 39 anos e coloca a bola onde quer, de uma torcida que não para de cantar o jogo todo e assim por diante. Não quero que eles sejam tetracampeões mundiais e bicampeões diretos. Não quero cruzar com a turba de argentinos que tomaram Copacabana de assalto com uma cara de superioridade. Por isso, quero que vença não a melhor seleção, mas sim a única seleção que restou no caminho deles. “Vamos, Espanha!” (Anônimo)
Essa manifestação ilustra com perfeição como o futebol sobrevive nas entranhas do povo, não como um tratado de relações internacionais, mas como um espaço de rivalidades cotidianas, afetos, frustrações e, acima de tudo, da mais pura paixão humana desprovida de salvacionismos morais.
Os trinta e nove dias do torneio não foram marcados apenas pelo suor depositado nos gramados, mas também por absurdos institucionais escancarados que definem o zeitgeist autoritário da nossa época. O ápice dessa degradação normativa e cultural ocorreu quando figuras do alto escalão do poder político, personificadas na atitude inédita de Donald Trump, se envolveram diretamente em questões esportivas a ponto de tentar anular um cartão vermelho durante a competição. Trata-se de um ato de interferência política, midiática e autoritária jamais visto na história do esporte moderno, superando em descaramento até mesmo as intervenções de ditaduras clássicas do século passado.
Esse episódio serve como metáfora perfeita para a sanha de controle total sobre todas as esferas da vida social, onde as regras universais e os pactos civilizatórios deixam de valer no exato momento em que colidem com a conveniência do poder imperial.
Enquanto a grande mídia corporativa mantinha os holofotes estritamente voltados para o espetáculo coreografado dentro das quatro linhas, a nossa população permaneceu perigosamente cega a óticas cruciais que operavam nos bastidores, a financeirização predatória e o endividamento familiar fomentados pela indústria das bets, que corroem silenciosamente o orçamento das classes trabalhadoras; a instrumentalização cínica do entretenimento global de massas para desviar o foco das crises estruturais do capitalismo contemporâneo e a naturalização de discursos de ódio e de posturas neocoloniais que tratam os povos do Sul Global como subalternos descartáveis.
Apesar do cenário sombrio de distopia corporativa e militarismo, há esperança. A história nos ensina que a opressão gera, inevitavelmente, o seu próprio contraponto. Quanto mais o novo eixo do mal global ataca a humanidade, as diferenças culturais e os direitos fundamentais dos povos, mais a oposição a essa barbárie cresce e se capilariza.
Nunca antes os povos estiveram tão diante da urgência de se unirem contra esse mal comum. O sistema tentará de tudo, recorrerá a golpes, lawfare, doutrinas de segurança nacional e controle midiático, para se manter no poder tanto em seu solo doméstico quanto em escala planetária, buscando submeter a América Latina a uma nova coleira geopolítica. O grito abafado nas ruas, nos locais de trabalho, nas universidades e nas arquibancadas (o persistente e universal “not a king”) nos recorda que o futuro não está escrito. Ele continua sendo forjado, dia após dia, por aqueles que ousam resistir e desafiar os donos do mundo.
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Danilo Tenório Quintino é mestrando em Direitos Humanos pela Universidade Federal de Pernambuco - UFPE (2025). Pós-graduado em Ciências Políticas, Estácio (2025). Possui graduação em História e bacharelado em Ciências Militares pela Academia Militar das Agulhas Negras (2020). Atualmente é oficial de carreira do Exército Brasileiro. Membro associado da Rede Brasileira de Educação em Direitos Humanos (ReBEDH- PE).