
Nasci em uma família de professores. Desde cedo aprendi que a educação era o maior patrimônio que os pais poderiam deixar aos filhos.
Por isso, estudei em uma escola que valorizava a liberdade de pensamento e a sustentabilidade. Embora minha família não fosse rica, aquele ambiente me aproximou de colegas para quem era natural passar as férias na Disney ou viajar para a Europa no final do ano.
Lembro das conversas que escutava nas casas dos amigos. Falavam de cidades limpas, seguras e organizadas. Contavam sobre metrôs eficientes, monumentos históricos, vida cultural intensa e ruas onde tudo parecia funcionar melhor do que no Brasil.
Talvez tenha sido essa curiosidade que me levou a morar fora do país.
Eu queria entender como eles conseguiam aquela façanha.
E é verdade que muito do que ouvi existe mesmo. Viajei por diversos lugares e encontrei cidades bonitas, transporte público eficiente, segurança, qualidade urbana e um patrimônio cultural impressionante.
Mas viver dentro dessas sociedades me permitiu enxergar algo que o turista normalmente não vê.
Existe uma engrenagem silenciosa sustentando essa aparente normalidade.
Quando pensamos em países desenvolvidos, costumamos olhar para os resultados: ruas agradáveis, bons serviços públicos, mobilidade eficiente, espaços urbanos bem cuidados. Mas raramente observamos a estrutura social que torna tudo isso possível.
Em boa parte da Europa Ocidental, a classe média representa aproximadamente metade da população. Nos países nórdicos, como Dinamarca e Países Baixos, essa proporção pode chegar perto de 70% ou 80%, dependendo dos critérios utilizados. Mais importante do que os números exatos é o que eles revelam: uma sociedade onde a maior parte das pessoas vive em condições relativamente semelhantes.
Ali, mesmo quem possui renda mais baixa costuma contar com sistemas de proteção social robustos, acesso à educação, saúde, transporte e segurança econômica muito superiores aos observados em grande parte do mundo.
Talvez seja por isso que exista uma tranquilidade difícil de explicar.
Não se trata apenas de organização urbana. Há uma sensação de confiança coletiva. A impressão é de que a sociedade funciona para a maioria das pessoas, e não apenas para uma parcela privilegiada.
No Brasil, a situação é bastante diferente.
Nossa desigualdade não aparece apenas nos indicadores econômicos. Ela se materializa no território.
Segundo diversos estudos sobre distribuição de renda, o 1% mais rico da população brasileira concentra uma parcela da riqueza nacional muito superior à observada na maior parte dos países desenvolvidos. Enquanto isso, os países nórdicos figuram entre as sociedades menos desiguais do planeta.
Pode parecer uma discussão distante, mas ela está presente no cotidiano das cidades.
Em muitos bairros europeus é comum encontrar professores, enfermeiros, arquitetos, comerciantes, técnicos e pequenos empresários vivendo relativamente próximos uns dos outros e compartilhando os mesmos espaços públicos.
Já nas cidades brasileiras, a distância econômica frequentemente se transforma em distância física.
A cidade passa a refletir a desigualdade da sociedade.
Bairros populares, de classe média e de alta renda tendem a ocupar territórios distintos, acessar serviços diferentes e experimentar realidades urbanas que pouco dialogam entre si.
Talvez por isso uma das maiores riquezas que vivi durante os mais de dez anos em que morei na Espanha tenha sido justamente a convivência.
No prédio onde alugávamos apartamento, moravam pessoas de trajetórias muito diferentes. Havia Dolores, uma vizinha querida que trabalhou a vida inteira no setor de limpeza de grandes empresas. Havia um bombeiro, um casal de médicos e nós, estudantes estrangeiros.
Guardo excelentes lembranças de todos eles.
A beleza daquela convivência estava justamente na diversidade das experiências. As conversas surgiam da curiosidade mútua. Cada pessoa enxergava o mundo a partir de uma história diferente.
E isso nos enriquecia. Esta experiência ampliou muito minha forma de compreender o mundo.
Quando penso nisso, sinto que perdemos algo importante.
O preço da desigualdade não é apenas econômico. É também humano.
Perdemos oportunidades de convivência, de aprendizado e de construção de empatia. Perdemos encontros que ajudam a compreender realidades diferentes das nossas. Perdemos a chance de enxergar o outro para além dos estereótipos.
Talvez por isso eu me incomode quando os Estados Unidos são apresentados como modelo de desenvolvimento para o Brasil.
Há muitas qualidades na experiência americana, mas existe uma diferença importante. Enquanto boa parte das cidades europeias tende a produzir maior mistura social, as grandes metrópoles norte-americanas costumam apresentar níveis significativamente mais elevados de segregação residencial por renda.
E essa escolha produz consequências visíveis na habitação, na mobilidade urbana, na qualidade dos espaços públicos e no acesso às oportunidades.
Sou apaixonada pelo povo brasileiro.
Poucos povos demonstram tanta capacidade de adaptação, criatividade e resistência diante das dificuldades.
Talvez seja justamente por isso que me entristeça ver tanto potencial desperdiçado.
Somos uma sociedade extraordinária convivendo com níveis de desigualdade que limitam oportunidades e restringem talentos.
Mas sou professora.
E talvez o que me mantém otimista seja acreditar que a mudança começa justamente quando compreendemos melhor os problemas que enfrentamos.
Há muito conhecimento sendo produzido sobre o Brasil. Há pesquisas, debates, experiências e propostas. Aos poucos, tudo isso vai influenciando a forma como enxergamos nossa realidade.
Tenho pressa de ver algumas mudanças acontecerem.
Mas também aprendi que as transformações mais duradouras raramente acontecem da noite para o dia.
Como a educação, elas costumam ser lentas.
E talvez seja exatamente por isso que, quando chegam, permanecem.
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