
1 – Assistindo a uma montagem cinematográfica de Macbeth, creio ser a mais recente, com Denzel Washington no papel principal, sofro um processo não de imersão, mas de afastamento no momento decisivo do drama. Diante da notícia da morte de Lady Macbeth, o rei usurpador avança e vê o corpo da mulher caído ao chão, ao fim de uma escadaria que os separa.
2 – Entre tantas ações possíveis, correr em sua direção, chamar o SAMU da época, chorar ou se resignar ao silêncio, ele dispara um dos mais famosos e curtos solilóquios shakespearianos, este que celebra o sem-sentido da vida e termina com a ideia de que nossos feitos são contados por um tolo cheio de som e fúria. Uma fala não para dentro do círculo da história, mas para fora dele, como costuma ocorrer mediante o uso deste clássico recurso.
3 – Meu estranhamento, suponho, nasceu ao perceber pela primeira vez que não era uma fala para a plateia, como sempre havia considerado, e sequer para si mesmo, um modo de revelar os processos mentais e sentimentais da personagem, suas cavilações.
4 – Era outra coisa.
5 – Esta suspensão do desenrolar natural dos eventos também está nas óperas, nos musicais, ainda que transfigurada por hiperações, como cantar ou dançar.
6 – As tramas se desdobram ativamente, mas quando é preciso pensar, contemplar, refletir ou revelar o que só um momento interno pode conceber, há essas rupturas do tecido das ações verossímeis. Em La Traviata, morrendo de tuberculose, Violetta é capaz de cantar a pleno peito enquanto agoniza.
7 – Penso que com uma simples asma já é difícil arranhar até uma bossa nova.
8 – Forçando um pouco o argumento, é possível cantar Edelweiss, em A noviça rebelde, enquanto os nazistas esperam, raivosos, o fim do número.
9 – De danças, pensemos em Footloose. Mudar o conservadorismo de uma cidade com um par de belos passos.
10 – Sigo com o problema das ações coerentes, ativas e reativas. Porque uma ação exige outra ação como resposta. Ou melhor. Dentro de um mesmo campo de ações (o sonho do épico), a inação é percebida como uma ausência provisória de ação, uma circunstância possível desde que circunscrita ao mesmo espaço temporal das demais ocorrências do mundo fictício.
11 – O que finalmente compreendo é que esses rasgos são uma crise temporal, um deslocamento temporal, um lugar da consciência em que futuro, passado e presente se encontram de maneira agônica.
12 – É das narrativas ser climáticas, mas não agônicas.
13 – As narrativas dependem de um desdobramento linear, de uma subordinação às causas e aos efeitos, de uma submissão ao tempo. Por isso, nos solilóquios há sempre um inevitável e demasiado congelar das personagens, inclusive daquela cujos pensamentos e fantasias são revelados. Logo voltaremos ao tema da dança e do canto.
14 – Só há um gênero literário que toma a estase como principal ferramenta compositiva. E não é o drama, nem o épico.
15 – Falei em hiperações para o canto e para a dança. Hiperações porque potencializam nossa voz e nossos movimentos, retirando-os do prosaísmo dos gestos convencionais dentro do tempo (e de certa concepção de realismo).
16 – A lírica é a hiperação da linguagem. Memória do futuro, aqui e a agora do passado, todos os sentidos conjurados, múltiplos raciocínios que colapsam enquanto avançam. Aquilo que dentro do tempo não se dá nunca simultaneamente com o vivido, como vemos se erguer nos solilóquios.
17 – É só por meio de um desvio lírico que se pode rasgar a coerência ativa e reativa das ações. Somente por meio de uma hiperação.
18 – Quanto mais eu pensava nisso, mais perdia o desfecho do filme, mas, ao mesmo tempo, mais habitava este lugar fora do tempo que o pensamento, as emoções e as imaginações nos proporcionam. Eu vivia meu próprio solilóquio. Não para uma plateia, não para mim que então não o compreendia, mas para recompô-lo fora do tempo e depois inseri-lo na cadeia de discurso desta crônica.
19 – A personagem em seu solilóquio, seu bailado ou cantoria exige um instante de eternidade impossível dentro do indiferente fluir dos eventos.
20 – Somente dentro da microeternidade do lirismo é que se unem memória e desejo, sensações e sentimentos, ideias, o desconhecido, para além do tempo, momento que depois um autor haverá de enxertar na trama, pagando muitas vezes o preço de um momento ridículo, pelo que gera de rasgo e logo remendo visível nas narrativas, maculando a perfeição que com tanto esmero quis urdir, mas da qual, como de uma teia que apenas se parece com o mundo, não pode escapar.
21 – Este será o paradoxo de todas as narrativas que não quiserem sucumbir à sua própria prisão. Como também podemos entender que é apenas nos instantes de lirismo que percebemos a vida maior do que a vida, que respiramos um ar rarefeito e fugaz, mas limpo da fumaça das tiranias do tempo, outro nome da morte.
21 – Não sei quanto tempo levei para me dar conta de que meus olhos acompanhavam — sem mim — o subir dos créditos.