
Quando eu era criança, não me lembro de ouvir alguém dizer que estava entediado. Não porque a vida fosse mais divertida. Talvez porque o tédio simplesmente fizesse parte dela. Hoje vivemos cercados de telas e aparelhos para nos entreter: celular, tablet, notebook, fones de ouvido, relógios com playlist e, paradoxalmente, parece que nunca foi tão fácil ficar entediado.
Meus pais moravam numa fazenda no interior de Tupanciretã/RS. Para chegar lá, enfrentávamos uma estrada de chão dentro de uma Rural Willys. Pelo “Passo da Laje”, o caminho mais curto, uma hora e meia. Pelo caminho da “volta”, mais de duas horas, era o mais apropriado para dias de chuva. Depois de decidir o caminho, a única missão era chegar. Todo o resto era tempo.
Na verdade, a duração da viagem dependia de três milagres: a patrola ter passado no último mês, não ter chovido e a Rural não quebrar no caminho. No verão havia outro problema. Se abríssemos os vidros, entrava poeira, principalmente quando passava por outro carro, o que não era comum, mas acontecia. Se fechássemos, a Rural virava uma sauna sobre rodas. Na época nem se sabia que existia ar-condicionado para carros.
Eu tinha direito garantido à janela do banco traseiro, não por mérito, mas pela convicção de todos: “ele vai enjoar”. Traduzindo para o popular: “vai vomitar”. E vomitava mesmo, religiosamente, a cada viagem. Na época, eu achava que a janela era apenas o melhor lugar para pegar um ventinho e tentar evitar o vômito.
Para que nossos filhos possam entender, a camionete Rural Willys era uma “off-road” sem nenhum conforto, e a nossa nem rádio tinha. O que fazer durante a viagem? Se eu tentasse ler um gibi, acelerava o inevitável. O único aplicativo disponível era olhar pela janela. E ela nunca repetia o mesmo filme: detalhes das cercas, bois no campo, nuvens em formato de bichos. Predominava o silêncio. De vez em quando, alguém dizia alguma coisa, e os demais respondiam apenas: “é” ou “aham”.
Passei boa parte da minha infância olhando quilômetros de estrada de chão. Talvez tenha sido ali que aprendi uma habilidade hoje em extinção: passar horas pensando não sei no quê. Anos depois chegou a minha vez de ser pai e ter um carro, mas este já tinha rádio, CD e ar-condicionado. Aquilo já nos parecia uma incrível evolução tecnológica.
Nesta época, criança não viajava mais no colo, tinha a sua cadeirinha, com cinto de segurança, amarrada no banco traseiro. Colocávamos a cadeirinha bem no centro para que ele pudesse ver a estrada e tivesse “uma janela para o mundo”. Numa viagem longa, ele falou: “Estou enjoado”. Na mesma hora meu passado voltou inteiro. Encostei o carro, convencido de que a cena se repetiria. Ele desceu, brincou, correu, deu risadas e nenhum sinal de vômito. Compreendi o que ele estava querendo dizer com o “enjoado”. Na verdade, ele não estava com náuseas, estava entediado.
Em outra viagem, meu filho pediu para fazer cocô. Parei assim que deu e não saiu nada. Continuamos a viagem e começou a chover, e ele pediu para fazer xixi. Respondi para ele segurar até o próximo posto. Ele pensou um pouco e corrigiu a estratégia: “então quero fazer cocô”. Naquele momento descobri que as suas necessidades fisiológicas também eram o jeito dele dizer que estava entediado e que queria descer do carro.
A nossa relação com o tempo mudou muito nos últimos cinquenta anos. Recentemente, um aluno reclamou que o vídeo de oito minutos que eu havia recomendado era “muito longo”. Confesso que fiquei tentado a colocá-lo durante duas horas no banco traseiro da Rural Willys da minha infância. Sem internet, sem Spotify, sem TikTok. E, principalmente, sem nenhum botão para acelerar a vida.
E você? Sente tédio quando o Wi-Fi cai por um minuto? Consegue esperar numa fila ou numa sala de espera sem pegar o celular? Quando sobra um tempo vazio, você preenche… ou permite que ele aconteça? Me conta.
Quanto a mim, sobrevivi à poeira, ao calor, às estradas de chão e aos inevitáveis vômitos da Rural Willys. Hoje vejo gente incapaz de permanecer oito minutos diante de um vídeo sem procurar outra distração. Minha geração não era mais inteligente, apenas foi obrigada a desenvolver uma habilidade que estamos perdendo: conviver com os próprios pensamentos. Descobri, muitos anos depois, que o verdadeiro luxo daquelas viagens não era chegar à fazenda. Era a janela. Ela não mostrava apenas a estrada. Enquanto eu olhava para fora, ela me ensinava a olhar para dentro. As telas de hoje também são janelas. A diferença é que, do outro lado, quase sempre existe alguém disputando cada segundo da nossa atenção. A janela da Rural fazia apenas uma pergunta: “No que você está pensando?”. As telas fazem outra: “No que posso fazer você clicar agora?”. Entre uma pergunta e outra, talvez esteja a diferença entre imaginar e apenas consumir distrações.