
1 – As grandes descobertas artísticas são antes descobertas espirituais que estéticas.
2 – Tantas obras que me salvaram quando eu ainda não tinha estrutura (se é que a tenho aqui nesta manhã serrana) para a aterradora experiência de estarmos.
3 – Ia definir melhor, mas é isto, estarmos. Por pouco tempo, ainda que na infância nos pareça muito, logo vendidos a crenças caducas, a certezas emboloradas, a toda uma série de compromissos autojustificados: se os alcanço, é prova de que estão certos.
4 – E então Coltrane aos meus dezessete, em uma gravação horrenda, em um desses cds populares, havia muitas coleções dessas no Brasil. Mas por pior que fosse o som do registro, ali estava sua versão para My favorite things: oriental, mântrica, capaz de tocar certas cordas em mim que eu sequer sabia possuir.
5- Esta forma de descoberta. O que talvez para outros seja a manifestação sensível da fé.
6 – Não sei quantas vezes ouvi três discos que comprei no ano seguinte, de uma loja de internet (isso foi antes das páginas web), em ambiente DOS, que falsificava os preços para que encaixassem dentro da cota do governo à época. Creio ser sob o glorioso FHC.
7- O cd de estúdio do My favorite things, Giant steps e A love supreme.
8 – Também tive na literatura as minhas revelações espirituais. Mas a música, das artes, é a que vai mais longe em sua relação mística com o corpo, precisa menos da razão para mediá-la, opera em um nível divino.
9 – A poeta Nobel Gabriela Mistral, nos seus dez mandamentos poéticos, diz não haver arte ateia. Mesmo sem um criador, criamos à sua semelhança.
10 – Mais de trinta anos depois, sei dos fones cravados nos ouvidos, ao longo das tardes do fim do século passado, a cama estreita de solteiro no quarto que dividia com o Lucas, e esses três discos no carrossel do sistema de som, uma geringonça que a cada troca de cd se engasgava com sua própria mecânica. Até que, cedo ou tarde, tocava Naima.
11 – Mais tarde compreendi alguma coisa da composição e dos improvisos de Coltrane. Foi uma aventura cerebral, com seus difíceis luxos e uns prêmios soberanos.
12 – Mas de volta aos dezessete, como naquela canção, considero uma palavra que pudesse dizer o que não se expressa das coisas do espírito.
13 – E receio escrevê-la.
14 – O que me parece um receio tolo aos cinquenta. Penso, ao fim, como Camões, que quem tiver o entendimento de ter vivido uma experiência assim a entenderá.
15 – Escreve!
16 – Salvação.