
Ao revisitar uma experiência coletiva iniciada há 30 anos, percebi que sua contribuição mais importante não está apenas nos resultados alcançados. Está, sobretudo, nas aprendizagens provocadas pela convivência entre pessoas diferentes. Minha formação acadêmica vem da área tecnológica; minha formação familiar, das artes e das relações humanas. Por opção, tornei-me professora. Também por opção, tornei-me brasileira: nasci na Itália, mas escolhi este país como lugar de pertencimento e participação. Talvez por isso eu tenha aprendido a olhar para os espaços coletivos não somente pelo que realizam, mas pelo que transformam nas pessoas que deles participam.
Essa experiência ocorreu no Conselho Municipal de Ciência e Tecnologia de Porto Alegre, o COMCET. Ali convivi, desde 1995 até hoje, com representantes de universidades, empresas, poder público e organizações da sociedade civil. O Conselho é o pano de fundo desta reflexão; o que desejo compartilhar é o aprendizado produzido por essa convivência. Cada participante chegava com uma história, um conhecimento, uma responsabilidade institucional e uma maneira própria de compreender a cidade. As diferenças apareciam nas linguagens, nas prioridades e nos ritmos. Alguns queriam respostas imediatas; outros precisavam de tempo para estudar. Alguns partiam do conhecimento técnico; outros, da experiência cotidiana. Estávamos diante da mesma realidade, mas não a enxergávamos do mesmo lugar.
Compreendi, então, que reunir pessoas diferentes não produz automaticamente uma construção coletiva. Estar na mesma sala, integrar um grupo ou ocupar um lugar de representação ainda não é participar de fato. A participação real começa quando cada pessoa encontra condições para apresentar sua percepção e, ao mesmo tempo, dispõe-se a deixar que a percepção do outro questione, amplie ou até modifique a sua. Isso exige reconhecer que nenhum de nós possui sozinho todo o conhecimento necessário. O saber científico não substitui a experiência vivida; a experiência cotidiana não elimina a importância do conhecimento técnico. Quando admitimos que nosso saber é valioso, mas incompleto, a diferença deixa de ser uma ameaça e passa a ser uma possibilidade de aprendizagem.
Essa passagem depende da disponibilidade para o diálogo. E estar disponível não significa apenas aceitar que o outro fale. Significa escutar para compreender de onde vem determinada posição, que experiência a sustenta e qual necessidade procura expressar. Significa também apresentar nossas convicções sem transformá-las em verdades incontestáveis. Muitas divergências surgem porque observamos o mesmo problema de lugares distintos. O diálogo não apaga essas diferenças, nem deveria fazê-lo. Ele permite discordar sem desqualificar, rever posições sem considerar isso uma derrota e incorporar a contribuição do outro sem perder a própria identidade. É assim que começam a aparecer os pontos de contato capazes de sustentar uma decisão comum.
Aprendi também que a construção coletiva não acontece sem confiança. Ela se forma aos poucos, quando compromissos são cumpridos, informações são compartilhadas e as contribuições são reconhecidas. Exige paciência para traduzir linguagens, disposição para rever caminhos e maturidade para colocar o propósito comum acima da necessidade de prevalecer. Participar, nesse sentido, não é defender permanentemente o próprio ponto de vista, mas assumir responsabilidade pelo processo e por seus resultados. É perguntar não apenas o que desejo ou o que minha instituição espera, mas o que podemos construir juntos e quem será beneficiado. Essa mudança de pergunta altera a qualidade das relações e das decisões.
Nada disso acontece rapidamente. Aprender a conviver com diferenças, criar confiança e transformar diálogo em ação exige tempo, persistência e resiliência. Ao olhar para essa caminhada, vejo que as mudanças mais profundas não ocorreram quando todos passaram a pensar da mesma forma, mas quando aprenderam a trabalhar juntos sem esconder suas diferenças. Essa é a aprendizagem que desejo compartilhar: a construção coletiva não nasce da concordância permanente. Nasce da escuta, da participação responsável e do reconhecimento de que o outro enxerga aspectos que talvez eu não consiga ver. Quando levamos nossas diferenças à mesa com abertura e respeito, aquilo que poderia nos separar transforma-se em conhecimento compartilhado e capacidade de realização.
Rita Maria Silvia Carnevale é mestre em Administração de Empresas, com formações múltiplas em Educação e Tecnologia. Voltada para a difusão de ciência e tecnologias e comprometida com a apropriação de tecnologias sociais voltadas para a evolução de pessoas e ambientes. Pesquisadora e consultora, integrante do COMCET, voluntária junto ao Projeto Pescar e POA Inquieta.