
Por conjunturas da vida, cá estou eu, novamente envolvida com cuidados de uma idosa. E isso envolve uma série de questões que me fazem refletir e ver a vida com lentes multifocais. Somos resultado de escolhas e conjunturas a que nos submetemos ou que tivemos que seguir. Talvez porque não tivemos coragem de mudar a rota. Vivemos a consequência daquilo que ousamos ou enfrentamos. Quem optou por seguir se mandando, trilhando sua trilha sola, reforçando o quanto suas convicções são certas, colhe aquilo que plantou. Ou não. Tudo depende do entorno e do que pode contar na família ou na rede de apoio de amigos. Como dizia uma sábia amiga: caixão não tem perna. Ninguém é uma ilha. Precisamos uns dos outros.
Cada sociedade trata dos seus idosos conforme a sua cultura e o afeto que consegue manifestar. Em muitos casos, como é difícil comunicar os sentimentos. Tenho frequentado muitas salas de espera de clínicas e hospitais. E tem me chamado a atenção a relação dos idosos e seus acompanhantes. Esses dias, em uma emergência, cheguei a me comover com o carinho que um filho estava tratando a mãe. Ela estava em uma cadeira de rodas e o cara, mais para senhor do que para jovem, segurava as mãos dela, fazia brincadeiras, sorria e ela retribuía com um sorriso. Uma cena rara de se ver.
Fui “rapa do tacho”, como dizem no interior; tive pais mais velhos que meus amigos. Quando nasci, minha mãe tinha perto de 40 e meu pai, 50 anos. Isso quer dizer que acompanhei muitas vezes os dois em consultas, internações e outros procedimentos. A Laide, minha segunda mãe, também fiz o que pude com relação a cuidados médicos. Posso dizer que sou o que muitas crianças nascidas de pais que tiveram filhos na maturidade serão. E cada vez é mais comum ver homens, principalmente, tendo rebentos acima dos 50 e até 60. Como tudo na vida, há vários lados nesse contexto. Tenho dúvidas de como esses futuros adultos irão dar conta das demandas dos mais experientes, ainda mais com esse sistema em que não se trabalha para viver, se vive para trabalhar. Ou, então, se respira para ficar viajando por meio de telas, tipo o que já foi cantado: “as pessoas na sala de jantar, ocupadas em nascer e morrer”, na consagrada música Panis et Circense, do Caetano e do Gil, gravada em 1968 pelos Mutantes.
Geralmente, quanto menos dinheiro se tem, mais a família convive entre diferentes gerações. São faces da desigualdade. No Brasil, geralmente os mais pobres, a família precisa dar conta do zero aos mais de 100. Ou não consegue, o que resulta em tanta gente abandonada por aí. Na Escandinávia, a relação com os idosos é bem diferente. Eles vão para asilos com necessidades específicas, conforme a condição física e mental de cada um. Minhas amigas que frequentemente viajam pela Europa comentam o quanto há gente acima dos 80 viajando sozinha, de muletas ou mesmo cadeirante.
Por essas e por outras, vale contar a linda história de uma amiga querida que conseguiu promover uma revolução na vida da mãe dela, com mais de 80 anos. Sua mãe teve muitos filhos, cresceu na roça, trabalhou duro cuidando da casa, não teve oportunidade de estudar, muito menos de apreciar artes e fazer manualidades ao longo da vida. Até que, por incentivo de uma filha atenta, que saiu cedo de casa para estudar e trabalhar, conseguiu se alfabetizar aos 83 anos.
Essa é a história de Tetê Brandolim, que foi resgatando seu lado artista depois que aprendeu a ler e escrever. Tetê viveu no interior do Paraná e de São Paulo. Por último, estava morando em Ribeirão Preto, vindo a falecer em 7 de maio deste ano.
Tetê montava grandes quadros, nos quais aplicava flores recortadas de tecido de chita. Ela também pintava. Esse tecido foi uma ferramenta que ajudou a mudar sua vida depois que a alfabetizadora se valeu do tecido florido, conforme o método de Paulo Freire, para fazer com que ela conseguisse unir as letras, formar palavras. O sucesso foi tão grande que ela se tornou uma artista que participou de cerca de 30 exposições, entre individuais e coletivas, e recebeu distinção de instituições consagradas, inclusive no Brasil e exterior.
A filha, Maria Zulmira, conta que, desde sempre, o sonho dela era ler e escrever. Era uma angústia ver o quanto ela sofria por não poder entender o que estava escrito. “Fiz televisão para que ela pudesse me ver”, revelou Zuzu, que trabalhou muitos anos em emissoras de televisão. Inclusive, na TV Cultura de SP, foi uma das criadoras do programa Repórter Eco. Ela também tentou ensiná-la, mas não tinha jeito de dar certo.
A trajetória de Tetê inspirou muita gente. Rendeu dissertação de mestrado, tema para trabalhos em escolas, cunhou o termo Chitaterapia, pois a utilização da arte para a educação foi uma experiência reveladora. E isso só foi viabilizado porque uma filha enxergou a mãe, muito além da correria do dia a dia, morando em distintas cidades. E também porque a própria Tetê se permitiu, aceitou a proposta de se superar.
Therezinha Brandolim de Souza mostrou que não há idade para florescer. Produziu mais de mil obras em cerca de 10 anos de produção. Em 2019, a trajetória dela foi descrita e retratada pela filha Maria Zulmira e pela amiga Cristiana Camargo. A obra foi viabilizada por uma campanha de financiamento coletivo (saiba mais aqui).
Um dos desafios dessa nossa modernidade líquida é justamente porque estamos vivendo muitas transições tudo-ao-mesmo-tempo-agora. E a lida com gente mais experiente, analógica, que sequer usa celular, precisa ser encarada em todas as salas: as das casas, de hospitais, de rodoviárias, de aeroportos, de escolas… Não esqueça que o destino, se não apagarmos antes, é que todos envelheçamos. Só que a qualidade de vida de quem é cuidado e de quem consegue cuidar vai depender de uma série de questões, especialmente as relações com quem nos cerca. E você já pensou em como será sua velhice?
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