
“For patients, a vice-versa: a doctor our own age dying is a breach of promise, a piece of bad manners.”
(Para os pacientes, o inverso: a morte de um médico da nossa idade é uma quebra de promessa, um ato de descortesia)
W. H. Auden, The Art of Healing
Há um escândalo quando aquele que deveria nos curar adoece. É uma quebra na ordem natural das coisas, um paradoxo que a mente custa a processar. Quando o Dr. David Protetch morreu, em 1969, o poeta W. H. Auden não experimentou apenas o luto comum pela perda de um amigo de três décadas; ele sentiu o que chamou de um escândalo, “uma violação de um belo pacto”. Para Auden, a morte de seu médico foi a queda de um xamã que, subitamente, se viu vulnerável ao mesmo feitiço da mortalidade.
Essa reação, eternizada no poema The Art of Healing, abre uma janela para a forma como Auden enxergava a medicina. Filho de um médico de saúde pública, o poeta cresceu respirando diagnósticos, mas sua visão da profissão passava longe do cientificismo cego. Para ele, a medicina era uma das formas mais elevadas de humanismo — uma arte que exigia tanto rigor técnico quanto sensibilidade poética.
No olhar de Auden, o consultório é um confessionário laico. O paciente chega despido de máscaras sociais, carregando a crueza de seus sintomas. No entanto, o que transformava o Dr. Protetch em uma figura extraordinária era a capacidade de enxergar através do jargão clínico. Auden escreve com gratidão que seu médico amava seus pacientes, “não como casos ou espécimes, mas como pessoas únicas”. Aqui reside a essência de sua crítica: o bom médico resiste à tentação de reduzir o ser humano a um prontuário, a um conjunto de engrenagens biológicas a serem lubrificadas.
Essa recusa em coisificar o paciente era, na verdade, uma herança familiar. Auden evocava a voz do próprio pai para lembrar que curar “não é uma ciência, mas uma arte intuitiva de cortejar a Natureza”. A escolha do verbo “cortejar” (to woo) é cirúrgica. Ao contrário da ciência que tenta subjugar a vida pela força, a verdadeira medicina exige a postura de um cortesão. O médico deve ser paciente e humilde, pois sabe que a Natureza é uma soberana caprichosa, cujo veredicto final será sempre o mesmo: a rendição humana à mortalidade.
Assim, o médico de Auden não é um deus onipotente, mas um diplomata sagaz. Ele não elimina a morte — ninguém o faz —, mas negocia com ela. Cada cura, cada ano extra de vida, é um indulto (reprieve), um adiamento conquistado à base de respeito, técnica e afeto.
Quando o Dr. Protetch morre, o choque de Auden nasce da percepção de que esse negociador perdeu a sua imunidade. O pacto que os pacientes mantêm com seus curadores baseia-se na ilusão de que o mestre da arte está protegido do mal que combate. Ao ver o amigo partir, Auden aceita que aqueles que curam também são de carne.
A medicina, na visão que o poeta nos deixa, é a ciência dos limites humanos praticada com o máximo de dignidade. O poeta e o médico operam em territórios vizinhos: ambos passam a vida tentando dar ordem ao caos, traduzindo em palavras — sejam receitas ou versos — as dores que, de outro modo, seriam insuportáveis.
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