
Neste texto, denomino relações relatoriais uma modalidade contemporânea de relação com a experiência, na qual o vivido passa a ser organizado segundo a lógica do relato, do desempenho e da mensuração. Trata-se de uma ampliação das relações fundamentadas em uma perspectiva de ter, tal como discutida por Erich Fromm, em que a experiência cotidiana tende a ser apropriada como algo que se possui. Nas relações relatoriais, contudo, não basta ter: é necessário demonstrar que se teve, narrar que se viveu e converter a experiência em evidência de desempenho.
Essa modalidade de relação parece estar profundamente articulada às formas contemporâneas de sociabilidade estruturadas pela lógica mercantil e pelo princípio de desempenho (conceito marcuseano). A experiência deixa de constituir apenas algo vivido para tornar-se também algo que precisa ser apresentado, descrito, contabilizado e validado. Cada acontecimento tende, assim, a adquirir a forma de um pequeno relatório: o que foi feito, onde se esteve, quanto se consumiu, quais lugares foram visitados, quais experiências foram acumuladas e, sobretudo, qual valor pode ser atribuído àquilo que foi vivido.
É nesse sentido que uma ida a um show, uma viagem, uma compra, uma refeição ou mesmo um encontro com outras pessoas podem ser narrados em uma linguagem próxima àquela utilizada para descrever produtividade e desempenho. O sujeito não apenas relata que viveu determinada experiência; ele parece precisar prestar contas de sua experiência. A vida cotidiana passa, então, a assumir a estrutura de um currículo permanente, no qual acontecimentos são convertidos em registros de atividade.
A questão central não está no ato de narrar uma experiência em si. Narrar, recordar e compartilhar fazem parte da própria constituição da experiência humana. O problema emerge quando a narrativa passa a substituir a experiência ou quando o valor do vivido parece depender de sua possibilidade de ser transformado em relato. Nesse caso, a experiência deixa de ser interrogada por aquilo que produziu no sujeito e passa a ser avaliada pelo que pode ser mostrado sobre o sujeito.
É possível aproximar esse fenômeno da distinção estabelecida por Fromm entre os modos de existência do ter e do ser. No modo do ter, a experiência tende a ser apropriada como um objeto: “eu fiz”, “eu fui”, “eu conheci”, “eu comprei”. O conteúdo da experiência é apresentado como uma aquisição, totalmente impregnado por uma lógica mercantil. O que importa é aquilo que foi incorporado ao inventário pessoal. Nas relações relatoriais, essa lógica parece adquirir uma nova dimensão: aquilo que se tem precisa também ser relatado. É como também se o sujeito só existisse ou lograsse usufruir de algo se o diz, se o relata.
Nesse sentido, o relato funciona como uma espécie de mecanismo de conversão da experiência em capital simbólico. A experiência adquire valor na medida em que pode ser comunicada, reconhecida e convertida em uma determinada imagem de si. O sujeito não apenas acumula experiências; acumula experiências narráveis. O sujeito é um produtor de discursos, mas aqui ele busca as suas experiências a partir de uma perspectiva de conversão delas em relatos que agreguem a ele valor – claro, esse valor dependerá do olhar do outro e não apenas de sua experiência. Nesse tipo de relação, a própria experiência com o vivido é um elemento secundário; o que importa é a experiência vista e valorizada pelos outros.
Essa dinâmica produz uma transformação significativa na relação do indivíduo consigo mesmo. O vivido pode deixar de ser elaborado a partir de sua dimensão afetiva, histórica e subjetiva para ser organizado segundo uma lógica exterior de apresentação. Em vez de perguntar “o que essa experiência fez comigo?”, pergunta-se “o que essa experiência diz sobre mim?”. A primeira pergunta remete à elaboração e à interioridade; a segunda, à apresentação e à performance.
Há, portanto, uma espécie de deslocamento da experiência para o relatório da experiência. O sujeito pode falar extensamente sobre aquilo que fez sem necessariamente estabelecer um diálogo com o significado daquele acontecimento em sua própria história. Pode descrever uma viagem sem interrogar o que nela foi transformado; narrar um encontro sem entrar em contato com os afetos mobilizados; apresentar uma conquista sem perguntar por que precisava conquistá-la. A experiência é registrada, mas não necessariamente elaborada.
As relações relatoriais seriam, assim, relações nas quais a vida cotidiana passa a ser vivida sob a expectativa de uma prestação permanente de contas. O sujeito torna-se, simultaneamente, vivente e relator de si mesmo. Cada experiência potencialmente se converte em um item de inventário, cada acontecimento em evidência de desempenho e cada vivência em material para a construção pública de uma determinada imagem.
A consequência mais profunda dessa lógica talvez esteja justamente na dificuldade de permanecer diante de uma experiência sem imediatamente convertê-la em narrativa, avaliação ou demonstração. A experiência exige tempo, silêncio, elaboração e, muitas vezes, uma dimensão de indeterminação que não pode ser imediatamente traduzida em resultados. Quando tudo precisa ser relatado, corre-se o risco de que aquilo que não pode ser mensurado ou exibido seja progressivamente desvalorizado.
As relações relatoriais representam, nesse sentido, não apenas uma transformação na maneira de comunicar o que se vive, mas uma transformação na própria forma de viver. A questão já não é somente ter ou ser, mas também ter algo para relatar sobre si. O sujeito contemporâneo pode passar a experimentar a própria vida como se estivesse permanentemente diante de uma banca avaliadora, produzindo relatórios de sua existência.
A vida torna-se, então, uma espécie de relatório de desempenho existencial.
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Ralf Diego Silva de Souza é psicólogo, psicoterapeuta e docente no ensino superior. Participou do Programa de Mestrado em Saúde Coletiva da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e possui especialização em Psicologia Hospitalar. Sua produção intelectual e interesses de pesquisa concentram-se no campo da Psicanálise, com ênfase nas contribuições de Melanie Klein e Wilfred Bion, do Marxismo, da Teoria Crítica e da tradição da Escola de Frankfurt.