
Os ciclos sempre terminam, novos começos surgem, mas nos entristecemos com os finais, mesmo que sejam portas abertas para mudanças nem sempre ruins.
Eu corro desde os 15 anos e, aos 30, comecei a correr com cachorros.
O primeiro foi um dálmata que passou pelas mãos de um adestrador para poder me acompanhar.
Os cachorros são ótimas companhias em atividades físicas; eles passam a encarar o exercício como um trabalho e, afinal, como a maioria é desempregado, a ocupação gera muito prazer.
O meu dálmata chamado Lucky começou a correr aos oito meses pelas ruas de Florianópolis, quando eu morava lá.
Quando nos mudamos de Florianópolis para Porto Alegre, em um prédio na Carlos Gomes, começamos a correr pelas ruas do bairro Petrópolis.
Nosso percurso era ir até a Praça Encol ou até o Shopping Iguatemi, completar algumas voltas na praça ou no shopping e voltar para casa.
O Lucky sempre ia solto, sem guia, e se mantinha ao meu lado como um bom soldado.
Então nos mudamos para a zona sul de Porto Alegre e começamos a correr na beira de Ipanema.
Muitas vezes corríamos pelo meu bairro, Jardim Isabel.
Quando ele completou 12 anos, um dia, subindo até o Morro do Osso, olhei para trás e não o vi.
Fiz todo o percurso de volta e encontrei-o sentado em frente ao nosso portão. Ele escolheu o dia exato de sua aposentadoria e não corri com ele nem mais um dia sequer.
Ele morreu aos 13 anos.
Depois dele, tentei com vários cães da nossa matilha, mas nenhum se sentiu disposto a me acompanhar.
Até que resgatei um filhote do mato que circundava a AABB.
Ele começou a crescer e ficar com um porte grande e atlético, ideal para aguentar um ritmo de corrida.
Aos oito meses, eu o introduzi no esporte e, desde o primeiro dia, ele parecia já ter sido treinado.
Hoje estamos os dois com uma idade avançada, ele com 10 e eu com 59, porém os 10 anos dele representam mais idade do que os meus 59.
A partir dos sete anos, o cão é considerado idoso e, a partir dos 10, é considerado ancião.
Até então, ele sempre ditava o ritmo da corrida, indo na frente, escolhendo os lados, abrindo o caminho.
No início, corríamos no sol do meio-dia e gostávamos muito do calor.
Com o passar do tempo, eu comecei a render menos em dias quentes e ele procurava se abrigar na minha sombra.
Parei de levá-lo e fazia um percurso em praças arborizadas e sozinha.
Comecei a notar que, mesmo em dias nublados e chuvosos, ele se mantinha atrás do meu corpo e não mais ditando o ritmo da corrida, apenas me acompanhando.
Sempre vamos caminhando até uma sinaleira na esquina da minha rua com a Avenida Coronel Marcos.
Mesmo com as temperaturas baixas, enquanto aguardávamos o sinal abrir para nós, ele me puxava para voltar; eu não cedia e corríamos normalmente.
Um sinal.
Essa semana, no final de uma corrida, parei para fotografar os urubus na beira da praia.
Um amigo, que corre na beira também, me viu parada e veio conversar.
Uma conversa que o meu coração esperava, mas não estava preparado para ouvir.
“Tu sabe que eu te acompanho há muitos anos e, nos últimos dias, percebi que o Yoda está mostrando sinais de que quer parar”.
Gelei.
Eu já sentia, mas ouvir com todas as palavras me deixou sem chão.
Um final para nossa parceria, nossa troca de energia, nosso momento de sorver a vida juntos, trabalhando os músculos, a mente, o coração.
Não foi ele que decidiu parar de vez, mas decidi não levá-lo mais, pois o amor não existe sem respeito.
Um novo ciclo, mudanças, hora de sentarmos na grama, caminharmos na areia da praia, passearmos pelas ruas sem pressa e trocarmos de outra forma o que temos entre nós.
E todos os finais, sejam eles de um trabalho, um casamento, um namoro, uma amizade, o encerramento de uma empresa, uma etapa, doem.
Mesmo quando novos ciclos, novas escolhas e novas mudanças não prometem somente um final, mas um começo.
Mônica Becker Dahlem é publicitária, jornalista, escritora. Barbara, Frida, Caderno Literário Ajuris, Casos de Sucesso SEBRAE.
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