
Durante a infância, ouvi recorrentemente comandos sobre como deveria ser um homem. Eu era apenas um menino, mas precisava me comportar e agir como um “macho de verdade”: falar grosso, controlar o choro e os gestos, não cruzar as pernas, não sorrir muito, vigiar as mãos. Existir exigia esforço, disciplina e enorme energia psíquica, já que eu não compreendia o motivo das constantes correções. No fundo, o que me ensinavam era a não ser natural, a não ser espontâneo. Desde cedo aprendi a “engolir o choro” ao me ver amedrontado frente a um mundo terrivelmente ameaçador.
Gostava de brincar com minha irmã, mas, com o tempo, disseram-me que aquilo não era “coisa de menino”. Era preciso jogar futebol. Contudo, nunca me identifiquei com o esporte, talvez por considerá-lo excessivamente violento. Mais tarde, percebi que o problema não era exatamente a disputa em campo, mas o ambiente permeado por expressões agressivas e jargões grosseiros, repetidos sem qualquer reflexão crítica. Ganhar o jogo ia além do prazer da competição: representava uma demarcação de poder e a consolidação de determinada masculinidade. Gritos, ofensas, brincadeiras humilhantes, empurrões e demonstrações de força física tornavam-se mecanismos de validação do masculino. O feminino era constantemente utilizado de maneira pejorativa. O perdedor era chamado de “mulherzinha”, reforçando a ideia de que perder equivaleria à fraqueza, à ausência de coragem e virilidade. Aquilo me parecia tóxico demais e, definitivamente, não me interessava.
Conviver com a maioria dos garotos também me parecia entediante. Não havia espaço para literatura, poesia, música ou reflexões filosóficas e existenciais. Tampouco existiam questionamentos sobre as regulações sociais que os mantinham aprisionados em determinados papéis de gênero. Não havia lugar para delicadeza, leveza, cortesia ou sensibilidade. Sobretudo, não havia autorização para a dúvida. O objetivo era tornar-se “machão” e aceitar as implicações simbólicas desse lugar socialmente construído.
“Veadinho”, “baitola”, “frutinha”, “afeminado”, “frango” e “menininha” eram expressões populares – amplamente reforçadas pela mídia – utilizadas para classificar comportamentos considerados desviantes da heteronormatividade. Não, eu não era macho! E tampouco queria ser. Para mim, bastava ser homem, condição que não me impedia de estabelecer relações mais respeitosas e igualitárias com as mulheres. Ser homem, inclusive, não se resume à biologia ou à orientação sexual. Enquanto sujeitos, somos muito mais do que um órgão genital.
Evidentemente, na época eu ainda não possuía tamanho esclarecimento teórico. Entretanto, percebo hoje que ali germinava uma inquietação que encontraria terreno fértil nos estudos acadêmicos. Foi na ciência que, desde a adolescência, encontrei argumentos e possibilidades de resposta para perguntas que sequer me eram autorizadas formular. Eu possuía dúvidas que os garotos mais velhos não conseguiam responder. Não necessariamente porque não quisessem, mas porque também não haviam sido estimulados a ampliar repertórios críticos. Na ausência de argumentação, a violência convertia-se em seus instrumentos de ação. Vencia-se pelo grito, pela ameaça e pelas diversas formas de punição e exclusão. Somavam-se a isso a chacota, a exposição vexatória e as humilhações públicas – práticas naturalizadas em uma cultura que, há séculos, produz agressores e vítimas.
Logicamente, eu não fui o único garoto banido dos chamados “clubes do bolinha”. Repetidamente, fui reprovado nos rituais de passagem definidos por uma lógica heteronormativa e heterossexualizante. Como eu, muitos outros meninos foram lançados à condição de desviantes, fracos, incapazes e, consequentemente, transformados em alvos fáceis da violência. Éramos aquilo que jamais se deveria desejar ser. Sobre nós recaía a marca do fracasso, reforçada pelos olhares críticos carregados de condenação, decepção ou, em alguns casos, pena. Foi assim, ainda em um período sem internet e redes sociais, que cresci sob os impactos de uma normativa social violenta e repressora, hoje facilmente reconhecida em fenômenos contemporâneos associados à chamada “machosfera”.
A expressão, oriunda do inglês manosphere, constitui um neologismo formado pela junção de man (homem) e sphere (esfera, campo ou ambiente). O termo designa um conjunto heterogêneo de comunidades digitais, fóruns, influenciadores e grupos organizados em torno de discursos sobre masculinidade, sexualidade, relações afetivas, antifeminismo e ressentimentos de gênero. Em geral, tais espaços reproduzem concepções de masculinidade hegemônica e reforçam críticas aos avanços feministas e às pautas de diversidade sexual e de gênero. Embora se apresentem como ambientes de defesa dos homens, frequentemente revelam fragilidades identitárias e reações conservadoras frente às transformações sociais atuais.
Diante desse cenário, torna-se fundamental discutir as masculinidades contemporâneas não apenas a partir de experiências pessoais, mas também dos fundamentos epistemológicos e das contribuições de importantes estudiosos da temática. Em primeiro lugar, é necessário compreender que as masculinidades não constituem essências biológicas fixas, mas construções históricas, culturais e relacionais atravessadas por relações de poder, classe, raça, sexualidade e geração. Tal perspectiva permite [re]pensar a crise das masculinidades tradicionais, os impactos do patriarcado na subjetividade masculina, a violência de gênero, a saúde dos homens e os novos modelos identitários emergentes.
Essas discussões ganharam maior relevância nas últimas décadas em razão das profundas transformações sociais, culturais e políticas relacionadas às relações de gênero. A expansão dos movimentos feministas, LGBTQIA+, antirracistas e das críticas às estruturas patriarcais provocou questionamentos acerca dos modelos tradicionais de masculinidade historicamente legitimados nas sociedades ocidentais. Por muito tempo, o masculino foi tratado como categoria universal e neutra, enquanto os estudos de gênero concentravam-se predominantemente nas experiências femininas. Entretanto, passou-se a compreender que os homens também são produzidos histórico e culturalmente, sendo atravessados por normas sociais que regulam comportamentos, afetividades, sexualidades e formas de exercício do poder.
Os estudos contemporâneos sobre masculinidades partem justamente da crítica ao determinismo biológico, segundo o qual existiria uma masculinidade natural, universal e imutável. Nesse sentido, destaca-se a contribuição da socióloga australiana Raewyn Connell (1995), para quem as masculinidades constituem configurações de práticas sociais organizadas em relações hierárquicas de poder. A autora formula o conceito de “masculinidade hegemônica”, compreendida como o modelo cultural dominante de masculinidade em determinada sociedade. Tal padrão encontra-se frequentemente associado à heterossexualidade, à virilidade, à força, à racionalidade, à autoridade e ao controle emocional. Embora não represente todos os homens, funciona como referência normativa que legitima relações de dominação sobre mulheres e sobre masculinidades consideradas subordinadas.
Connell e Messerschmidt (2013) também identificam diferentes formas de masculinidade, como a hegemônica, a subordinada, a cúmplice e a marginalizada, demonstrando que existem múltiplas masculinidades organizadas em relações de poder e desigualdade. Em perspectiva semelhante, Pierre Bourdieu (2002), na obra A dominação masculina, demonstra como a dominação masculina opera de maneira simbólica, naturalizando desigualdades entre homens e mulheres. Desde a infância, os sujeitos internalizam disposições sociais que orientam comportamentos considerados adequados ao masculino e ao feminino. Assim, a masculinidade tradicional é construída em oposição ao feminino. Sensibilidade, fragilidade e cuidado tendem a ser desvalorizados entre homens, enquanto agressividade, competição e autoridade são incentivadas.
Essa lógica produz impactos não apenas sobre as mulheres, mas também sobre os próprios homens, constantemente pressionados a demonstrar força, sucesso, autonomia e controle emocional, reprimindo vulnerabilidades e afetos. Nesse ponto, Michel Foucault (1988) contribui significativamente ao demonstrar como os corpos masculinos são disciplinados por instituições como família, escola, religião, exército e mercado de trabalho. Para o autor, o poder não atua somente pela repressão, mas também pela produção de subjetividades e normas sociais.
Diversos autores apontam que os modelos tradicionais de masculinidade atravessam um processo de crise nas sociedades contemporâneas. Michael Kimmel (2012), por exemplo, ressalta que muitos homens experimentam sentimento de insegurança diante das mudanças sociais que questionam privilégios masculinos historicamente naturalizados. Para o autor, a masculinidade funciona frequentemente como uma “prova constante”, exigindo demonstrações contínuas de virilidade e poder. Essa crise não representa necessariamente o fim do patriarcado, mas, claro, evidencia tensões decorrentes da perda relativa de centralidade dos modelos masculinos tradicionais.
E é nesse contexto que emergem fenômenos contraditórios. De um lado, o fortalecimento de movimentos pró-igualdade de gênero, ampliação de masculinidades plurais e aumento dos debates sobre saúde mental masculina; do outro, crescimento de discursos misóginos e ultraconservadores e a radicalização de grupos masculinistas. Judith Butler (2003), ao questionar a ideia de identidades fixas e naturais, contribui para ampliar essa discussão. Para a autora, o gênero é performativo, isto é, produzido e reproduzido por meio de práticas sociais reiteradas. Assim, a masculinidade não seria uma essência interna, mas um conjunto de performances socialmente reguladas. Os homens aprendem continuamente a “atuar” masculinidades conforme expectativas culturais específicas. É nesse aspecto que as teorias queer ampliaram significativamente os estudos sobre masculinidades ao romperem com visões binárias e heteronormativas. Tal perspectiva permite compreender não apenas a multiplicidade das identidades masculinas, mas também a fluidez de gênero, as experiências dissidentes e os mecanismos sociais de normatização.
Outro aspecto fundamental relaciona-se aos marcadores sociais de raça, classe e sexualidade. A experiência de ser homem varia profundamente conforme território, raça, classe social e orientação sexual. Homens negros, pobres, periféricos ou LGBTQIA+, por exemplo, frequentemente ocupam posições marginalizadas em relação ao modelo hegemônico branco, heterossexual e economicamente privilegiado. Nesse sentido, bell hooks (2018) ressalta que o patriarcado também produz sofrimento masculino, sobretudo ao associar masculinidade à violência, silenciamento emocional e dominação.
Tanto que, no campo da saúde, diversos estudos demonstram que os padrões tradicionais de masculinidade impactam negativamente a saúde física e mental dos homens. A valorização da invulnerabilidade masculina contribui para a resistência à procura por cuidados médicos, negligência com a saúde preventiva, abuso de álcool e outras drogas, violência interpessoal, adoecimento psíquico e elevadas taxas de suicídio. Como argumenta Sócrates Nolasco (1993), a masculinidade tradicional frequentemente aprisiona os homens em padrões rígidos de comportamento emocional, dificultando a elaboração do sofrimento psíquico.
Por fim, torna-se evidente que as transformações sociais contemporâneas vêm produzindo tensões, crises e reconfigurações das identidades masculinas. Nesse contexto, ampliar debates críticos sobre masculinidades, violência, saúde mental, afetividade e igualdade de gênero constitui tarefa fundamental. Compreender masculinidades contemporâneas não significa apenas estudar os homens, mas analisar as dinâmicas sociais que sustentam desigualdades e produzem subjetividades em diferentes contextos históricos.
E isso é necessário à maior harmonia em país que registra uma média de quatro feminicídios por dia. É urgente para uma nação em que os Cazarrés fragilizados e terraplanistas estimulam desenfreadas subidas às montanhas, onde, distantes dos olhos comuns, parece mais se experimentar desejos homoeróticos recalcados.
Referências
Pierre Bourdieu. A dominação masculina. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2002.
Judith Butler. Problemas de gênero: feminismo e subversão da identidade. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2003.
Raewyn Connell. Masculinities. Berkeley: University of California Press, 1995.
Raewyn Connell; James Messerschmidt. Masculinidade hegemônica: repensando o conceito. Revista Estudos Feministas, Florianópolis, v. 21, n. 1, p. 241-282, 2013.
Michel Foucault. História da sexualidade I: a vontade de saber. Rio de Janeiro: Graal, 1988.
Michael Kimmel. Manhood in America: a cultural history. New York: Oxford University Press, 2012.
Sócrates Nolasco. O mito da masculinidade. Rio de Janeiro: Rocco, 1993.
Epitacio Nunes de Souza Neto é psicólogo, psicoterapeuta e professor universitário. Possui doutorado em Psicologia Cognitiva pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e Doutorado em Psicologia pela Universidad del Salvador (USAL) de Buenos Aires, Argentina. Possui também mestrado em Psicologia pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE).
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