
Em 1884, vive-se um clima de tensão entre Igreja e Estado na Itália. Durante seu processo de unificação, após a captura de Roma pelas tropas do Reino da Itália, o Papa Pio IX se fez prisioneiro do Vaticano, desencadeando uma grande crise entre o Estado e a Igreja. Nesse contexto, o sacerdote Giovanni Bosco circulava entre o Papa e os políticos liberais, sentindo o peso da polarização. De um lado, um Estado anticlerical e burocrático que impunha demandas legais e pedagógicas para as escolas católicas; do outro, uma Igreja sobrevivendo aos novos tempos.
Em 1841, o jovem sacerdote edifica o Oratório Salesiano, uma casa de educação e evangelização caracterizada pela alegria esfuziante, movimento constante, confiança absoluta nos superiores e uma presença ativa dos educadores no meio dos jovens. Pratica-se uma educação ancorada na razão, na religião e na amorosidade, com o propósito de educar evangelizando. Aqui está o eixo fundamental de um grupo de homens que se consagra a seguir Deus, trabalhando na educação das juventudes, preferencialmente as empobrecidas. Trata-se da Sociedade de São Francisco de Sales. Esta cresce vertiginosamente, tornando-se uma congregação religiosa de direito pontifício.
Com o Estado cada vez mais burocratizado, o Oratório Salesiano é induzido a se tornar mais “escola formal” e menos “casa educativa”. Os salesianos passaram a ter muitas funções administrativas (audiências, contabilidade, gestão de contratos), provocando o afastamento das relações de convivência e alegria. Começam a agir como gestores de escola e não como pais e amigos no recreio. Em 1884, então com 69 anos, quase cego e fisicamente exausto, Dom Bosco escreve uma missiva de Roma para seus irmãos, sabendo que sua morte não tardaria (ocorrida em 1888). A “Carta de Roma” de 1884 não é apenas um texto espiritual; ela é uma resposta urgente aos impactos que as transformações políticas e sociais da época estavam causando dentro do Oratório. É um grito amoroso para que seus filhos não percam a essência da proximidade em nome da gestão institucional, preservando a belezura e a amorosidade.
A Carta de Roma é uma convocação veemente do sacerdote, receando a institucionalização do afeto. Ele se dá conta de que a política e a burocracia estavam roubando a alma do oratório. Dom Bosco teme que o Sistema Preventivo se torne apenas um conjunto de regras frias após a sua morte. Sua missiva é de inquestionável atualidade num contexto de banalização da vida e vulgarização dos afetos. Seu apelo de manter vivo o amor no coração ecoa hoje e convoca permanentemente seus filhos. Vivemos um momento delicado no qual a luta pela sustentabilidade e as demandas legais podem, como ontem, desviar o curso daquilo que é central ao carisma congregacional. Pois então, está aí uma missiva que, no dia 10 deste maio em curso, completou 142 anos e permanece viva como seu escriba.
O cenário educacional de sua época é profundamente fértil, dividido entre o rigor científico de Herbart (1835) e o naturalismo lúdico de Froebel (1843). Dom Bosco compartilha com Pestalozzi (1801) a convicção de que o afeto é o motor do aprendizado, elevando essa ideia ao conceito de amorevolezza, que significa o amor tornado ação. Por isso, defende que não basta amar o jovem; é preciso que ele se sinta amado. Seu pensamento e seu trabalho educativo representam um contraponto às pedagogias que focam os castigos como estratégias educacionais. Parece influenciado por Ferrante Aporti (1847) ao focar na prevenção e na dignidade do aluno, transformando o ambiente educativo em uma “casa” que acolhe, superando a visão meramente instrucional para formar, de maneira integral, “bons cristãos e honestos cidadãos”.
Mas São João Bosco não é propriamente um pedagogista. Recua da tarefa de ter que escrever um método prescritivo para sua congregação, um manual para ser observado por seus salesianos. Longe disso, propõe presença, diálogo e uma celebração bela e alegre da religião como experiências fundamentais que ganham sua consistência no amor educativo. Está convencido de que a educação eficaz não se baseia apenas no cumprimento de normas, mas na pedagogia da presença e no afeto demonstrado, ou seja, o amor carece de uma linguagem concreta.
Sua carta não é um receituário para toda e qualquer situação. É, antes, um testamento espiritual. Com ela, intenta admoestar seus confrades a que mantenham fidelidade ao carisma fundador. Receia que o cansaço e a desconfiança conduzam ao isolamento, à proliferação de fofocas e à determinação de regras como estratégia educativa. Com isso, adverte para o risco de que os educadores se tornem “inspetores” ou “professores de cátedra” em vez de pais e irmãos, perdendo a “alma do recreio”. Recorda que a falta de familiaridade gera medo, o que fecha os corações e torna a disciplina um peso externo, não uma adesão interna.
A correspondência é um recado claro e direto do Santo: “não basta que os superiores amem os jovens (o que Dom Bosco reconhece que fazem com sacrifício); é necessário que os jovens saibam e sintam que são amados”. Assim, a essência da crise educativa descrita por ele na “Carta de Roma” reside na falha da comunicação do afeto, um diagnóstico que ressoa profundamente nas obras de Bell Hooks e Martha Nussbaum. Sabe, o sacerdote, o quanto o ativismo, o envolvimento em necessárias atividades cotidianas — porém, não mais importantes — podem afetar a missão de educar as juventudes mais pobres com amor e carinho.
O tema é contemporaneamente muito importante. Enquanto Dom Bosco insiste que o jovem não apenas seja amado, mas saiba que é amado, Hooks (1994) traduz essa necessidade para os tempos atuais. Ele reflete sobre o amor em ação, defendendo que a pedagogia engajada requer uma visibilidade emocional que rompa as barreiras da desconfiança. Essa conexão afetiva não é um mero acessório pedagógico, mas, como propõe Nussbaum (2013), a base das emoções políticas necessárias para a cidadania. Ao transformar o pátio em um espaço de familiaridade e compaixão, o educador deixa de ser uma autoridade burocrática para se tornar o facilitador de uma ‘corrente elétrica’ de confiança. Assim, o sistema preventivo salesiano encontra na justiça social de Hooks e na ética de Nussbaum uma validação moderna: educar é, primordialmente, um ato de coragem que humaniza tanto quem ensina quanto quem aprende por meio da presença radical e do cuidado. Educação e amor traduzidos na ética do cuidado.
O imperativo de Dom Bosco de que não basta amar, pois o afeto deve estar traduzido em narrativas objetivas e decodificadas, alinha uma fundamentação científica na psicogenética de Henri Wallon (1942). Demonstra como a afetividade é um portal de entrada para o desenvolvimento cognitivo: sem o amparo emocional, o pensamento não se organiza. Esse acolhimento, contudo, não se encerra no carinho. Ele se expande na pedagogia da amorosidade de Paulo Freire (1996), em que o afeto é o que viabiliza o diálogo horizontal e a superação de um jeito produtivista de educar. Isso permite que o educando se torne sujeito de sua própria história no pátio da vida. Para que esse encontro aconteça, a figura do educador deve ser, como propõe Philippe Meirieu (1995), um acompanhante que cria espaços de segurança e hospitalidade. Deve ser um mestre que, ao renunciar ao autoritarismo para viver a familiaridade, garante ao jovem o direito de crescer sem ser abandonado à própria sorte. Numa palavra, um assistente que antecipa situações-limite e desagradáveis. Assim, a educação se consolida como uma obra de presença, em que a ciência do desenvolvimento e a ética da liberdade se fundem no compromisso de formar o humano integral.
Finalmente, o santo dos jovens clama aos seus filhos pelo retorno dos dias prósperos do Oratório: “Os dias do afeto e da confiança cristã entre jovens e superiores; os dias do espírito de condescendência e tolerância por amor de Jesus Cristo, de uns para com os outros; os dias dos corações abertos com toda simplicidade e candura; os dias da caridade e da verdadeira alegria para todos”. Trata-se de um último e insistente apelo que replica uma exortação profunda e central na tradição cristã: “Acima de tudo, revesti-vos da caridade, que é o vínculo da perfeição” (Cl 3,14) e “Conserve-se entre vós a caridade fraterna” (Hb 13,1). Dessa forma, nós, a grande Família Salesiana, que seguimos Jesus à maneira de Dom Bosco, testemunhamos o quão maravilhosa é a fraternidade e o amor incondicional aos jovens, especialmente aos mais pobres.
Junot Cornélio Matos, cearense de Juazeiro do Norte, é casado, pai de duas filhas e avô da pequena Ara e dos miúdos Cícero e Zui. Tem Licenciatura em Filosofia pela Universidade Católica de Pernambuco (1985), Mestrado em Filosofia pela UFPE (1994) e doutorado em Educação pela Universidade Estadual de Campinas – UNICAMP (1999). É professor do Departamento de Filosofia da UFPE.
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