
Tenho pensado muito na palavra resiliência. Talvez porque, depois da enchente de maio de 2024, aqui no RS, essa palavra tenha passado a circular por todos os lugares. Comunidades resilientes. Povos resilientes. Cidades resilientes. Mas duas perguntas não me largam: resilientes a quê? E, principalmente, até quando?
Nas últimas semanas, fui convidada para duas conversas importantes sobre os desastres climáticos que continuam desenhando o nosso tempo. Em uma delas, na Conferência Ethos, em São Paulo, falávamos sobre governança, direitos e comunidades. Na outra, a Semana de Ação Climática, em Porto Alegre, o tema era participação, resiliência territorial e desigualdade. Saí das duas com a sensação de que estamos tentando responder a uma pergunta maior do que as mesas propuseram. O que acontece quando aquilo que chamamos de futuro climático já começou?
No Rio Grande do Sul, aprendemos da maneira mais brutal que um desastre não começa quando a água sobe. A água encontra cidades já desiguais, bairros sem infraestrutura, populações que vivem onde foi possível viver, famílias sem reservas para recomeçar e comunidades que já conviviam com a precariedade muito antes de a emergência ganhar nome.
Quando se fala novamente em eventos climáticos extremos, não consigo pensar apenas no clima. Penso no território, em quem mora e onde mora. Penso em quem decide onde será construído um dique, uma estrada, um abrigo e o faz arbitrariamente, sem dialogar com as pessoas que serão/foram afetadas por essas decisões. Penso em quem recebe a informação primeiro, em quem não consegue receber um alerta e naqueles que só descobrem o perigo quando ele já entrou pela porta de casa.
Chego à conclusão de que o desastre é percebido de forma muito diferente em uma sociedade profundamente desigual.
A chuva é natural, mas as consequências que ela causou, a forma desigual de seus efeitos, não.
Quando falamos em governança estatal, às vezes parece algo distante, dentro de gabinetes, com planos e organogramas, e, de certa forma, é. Mas não se resume a isso. Governança, para gerir cidades, significa decidir quem participa do debate antes da emergência; quem conhece o território; quem é escutado. É ter a capacidade de escutar a voz do conhecimento de quem está na ponta e quer dizer: “aqui a água chega primeiro” e, assim, poder discriminar: onde mora uma pessoa idosa; onde têm crianças e mulheres em área vulnerável; onde está o terreiro ou uma comunidade tradicional, quilombola e indígena. É preciso compreender onde existe uma memória que não cabe num mapa de risco, mas precisa ser vista pelas autoridades. Portanto, é preciso criarmos protocolos que assistam a esses públicos prioritariamente.
Talvez uma das coisas que ainda não foi levada a sério e que venho ressaltando nestas oportunidades seja que as comunidades não são apenas destinatárias das políticas para desastres. Elas produzem conhecimento sobre os desastres. Sabem por onde a água corre, sabem quem desaparece primeiro das estatísticas, sabem onde estão as pessoas que não conseguem sair sozinhas, sabem quais vínculos sustentam a vida quando a estrutura formal desaparece. Guardam saberes ancestrais que podem, de forma barata e sustentável, dirimir os efeitos que a expropriação natural causou.
No entanto, raramente se valoriza esse conhecimento, ou ele é requisitado tarde demais. Chamamos essa ajuda quando precisamos de voluntários, de cozinhas comunitárias, de abrigos, de redes de solidariedade. Depois, quando a água baixa, volta-se a imaginar que o Estado pode planejar tudo sozinho. Mas não pode. Não deve!
Depois de falar sobre resiliência territorial e discutir governança, direitos e comunidades, fiquei pensando que precisamos abandonar uma imagem confortável de resiliência.
Não quero comunidades negras, periféricas, indígenas, quilombolas e tradicionais sendo celebradas eternamente pela sua capacidade de sobreviver. Quero que possam viver sem precisar provar, a cada nova catástrofe, que são capazes de sobreviver a ela.
Não desejo que as mulheres negras sejam eternamente vistas como guerreiras, capazes de superar tudo, porque, na realidade, nenhuma comunidade deveria precisar ser extraordinariamente resiliente para ter direito ao ordinário: casa, água, comida, proteção, memória, território e futuro.
Acredito que possivelmente seja essa a pergunta que o próximo evento climático nos obriga a fazer, antes que seja tarde demais: vamos, novamente, admirar a capacidade das pessoas de resistir ou, finalmente, construir um estado e um país em que elas não precisem resistir sozinhas?
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Nina Fola, mãe de Aretha e Malyck, é multiartista, socióloga, atuante nos coletivos @afroentes, @coletivoatinuke e @odaba.br. Aborda a questão de raça e gênero em todos os seus trabalhos acadêmicos, artísticos e profissionais. Gestora do @cavalodeideias, uma consultoria em diversidade e inclusão onde faz palestras e formações. (@ninafola)