
São muitas as emoções que podemos ter com a leitura de um livro. Algumas tocam diretamente na nossa essência ao misturar alegrias, medos, dúvidas, certezas e a discriminação que enfrentamos. Os sentimentos brotam de muitas situações e lugares. Lugares de onde viemos e onde vivemos. Situações em que somos jogados por conta do preconceito que nos ronda pela nossa deficiência – “Aqui não é o teu lugar porque tu não correspondes ao padrão!” – Que padrão é esse? É a pergunta que fica no ar. O padrão reconhecido pela sociedade normalizada que cultua a perfeição. Perfeição que não existe porque, queiramos ou não, somos imperfeitos, não acabados, o que nos dá a maravilhosa possibilidade de intervir na nossa formação e aprender nessa caminhada, às vezes tão íngreme.
Assim me encontrei na escrita de Cíntia Moscovich por vários motivos. Um deles é o bullying, “palavra que identifica humilhação. E que mete medo em quem humilha”. E assim é! Gordo, o menino era chamado de “rolha de poço” e de “baleia assassina”. “Como era ruim chamarem a gente de gordo. De baleia assassina e de rolha de poço”, desabafa Natan, o menino. E outros comentários soam nas conversas: “A Valentina não é gordinha. Ela é balofa”.
Ao andar pelas ruas de Porto Alegre, já fui chamada de “mulher de bolso” e “pintora de rodapé”, além de ouvir muitos outros comentários indigestos e absurdos como “cuidado para não pisar em cima” e risos debochados, que ofendem, constrangem e podem embaralhar a nossa autoestima. Mas aí surge uma amiga, um amigo, “aquela pessoa que acompanha a gente até no silêncio”, essencial nessa rotina tumultuada.
Inquieto, Natan se pergunta: “Um filho único gordo pode ser uma dádiva de Deus?” Para a mãe, uma mulher envolvida com a luta pela preservação do meio ambiente, a resposta é SIM! Bióloga e professora, Joana, a mãe, é considerada uma ecochata por conta da sua militância em defesa da natureza – “Quem derruba uma árvore mata uma vida”. Essa mãe também faz uma exigência em relação às louças e aos vidros quebrados, que me envolveu ainda mais com o livro da Cíntia. Antes de ir para o lixo, o que está quebrado deve ser muito bem embalado e identificado, uma maneira de proteger os catadores e quem mexe nas lixeiras das ruas. É o que costumo fazer sempre que vou descartar cacos de vidro. Enrolo bem com papel e jornais, prendo tudo com fita adesiva e escrevo: Cuidado! Aqui tem cacos de vidro.
“Uma cidade tem que se sustentar sem acabar com a natureza”.
Esta afirmação, que também é do livro, está em sintonia com o que vivemos hoje. O meio ambiente grita. Já deu todos os sinais possíveis. E os sinais que estão chegando não são nada amenos, porque muitos lugares do nosso Estado estão destruídos. Famílias inteiras perderam tudo por conta das chuvas intensas que caem sem piedade.
Portanto, estamos diante de uma publicação necessária em todos os sentidos, das diferenças que nos constituem como seres humanos e que precisam ser incluídas e respeitadas nos espaços em que vivemos, que necessitam de preservação. Cuidados fundamentais para que a vida possa fluir tranquila em meio ao verde que faz a natureza respirar, alivia a nossa caminhada e ilumina o nosso olhar.
Recomendo a leitura (Escrita Fina Edições, 2026).