
Primeiro, vou falar sobre a minha questão pessoal. Sou apaixonado pela Argentina porque tive uma temporada muito feliz morando em Buenos Aires, onde era correspondente da Folha de S. Paulo. Lá eu me encontrei em diversos aspectos. Senti acolhimento, afinidade e até identidade com o lugar onde vivia. Meu amigão Ariel Palacios falava sobre a obsessão que eu tinha em fazer daquele período algo imersivo. Eu morava em Palermo e dali caminhava pro centro de um lado, Belgrano do outro e, subindo a Araoz (a minha rua, na esquina com a Santa Fe) ou a paralela Scalabrini Ortiz, ia ao Once e à Villa Crespo, onde se respira judaísmo. Sempre ouvindo a Mitre no radinho de pilhas, porque nada do que acontecia podia escapar ao correspondente, um permanente plantonista. Num domingo ensolarado, comprava minha empanada favorita, de queijo e cebola, ia pro apê e, sozinho, me sentia no Bom Fim. Durante a semana, ia pro Jardín Botánico bem cedinho da manhã ler os cinco jornais que assinava. O Jardín Botánico, no coração de Palermo, ficava a duas quadras de casa. Aliás, Buenos Aires é como em Nova York. O cara diz um palavrão em iídiche e todos entendem. Todos sabem que tuches é bunda e o shmok fica do lado oposto da anatomia quando o gênero é masculino.
Aí você dirá que foi lá que houve dois atentados terroristas antissemitas, em 1992 (Embaixada de Israel) e 1994 (AMIA). Ok. Mas me parece óbvio que ocorreu justamente lá, entre outros motivos circunstanciais, porque Buenos Aires é uma cidade muito judaica. Como fui morar lá logo depois, ainda peguei rescaldos do estupor. Ouvi pessoas pasmas se perguntando: “Como foi possível ocorrer algo assim?” Assim como, também, na ditadura. Os jovens judeus torturados, mortos e desaparecidos recebiam tratamento especial dispensado pelos algozes, requintes de crueldade abomináveis relacionados à identidade étnica dos torturados.
Mas, enfim.
Foi uma virada pessoal e profissional. Semanas depois de retornar a Porto Alegre, talvez como prêmio à minha dedicação naqueles sete meses entre 1997 e 1998, a Folha me enviou para a França, onde cobri a Copa do Mundo. Lá em Paris, descobri o motivo de colegas que iriam ser correspondentes me telefonarem pra conversar sobre essa nobre atividade do jornalismo. “Nós recomendamos que falem contigo”, me confidenciaram, numa conversa descontraída, o saudoso e genial Carlos Heitor Cony e o também saudoso e fantástico repórter João Batista Natali. E lá estava também a minha maior referência profissional, o Clóvis Rossi, que me confirmou isso e que, enfim, é outro saudoso. Foi graças ao querido Clóvis que vivi todas essas experiências: fui correspondente e logo cobri uma Copa do Mundo muito especial, por ser vanguardista na sua inédita e ainda incipiente transmissão online.
Detalhe importante nessa cobertura: levei um único livro pra ler nos 40 dias de França, entre Paris, Nantes e Marselha. E o livro, ora, era a bíblia do gauchismo, a obra fundadora da argentinidade: o maravilhoso Martín Fierro, em seus dois tomos (ida e volta). Eu ia dormir no hotel e lá estava aquele poemão recheado de extrema sabedoria. Acho que isso diz muito de uma pessoa que não quer se desgarrar do país que a acolheu. Portanto, sou há quase 30 anos um apaixonado pela Argentina e seu jeito de ser.
Pronto, essa é a questão pessoal (e profissional), poderosa.
Mas vou reproduzir aqui o que respondi a um querido amigo que comentou que quem realmente gosta de futebol está torcendo pela França, em razão do lindo futebol apresentado pela vistosa seleção do Mbappé. A ele, somaram-se opiniões depreciativas a respeito da “elite” argentina e seu “racismo”. Mas antes disso, devo também dizer que o muito suposto favorecimento da arbitragem à Argentina na Copa, pra mim, é um enorme exagero. Rigorosamente todos os lances reclamados são duvidosos. Nenhum é daqueles cujo erro chega a virar chacota de tão óbvio. O mais alardeado foi um lance lá no primeiro jogo em que o Messi nitidamente perdeu o tempo da bola e atingiu o adversário. Se fosse agressão, seria a primeira desse ser pacífico que é o Messi. E não foi! Escândalo seria se o expulsassem. Logo ele! Acho que o que há, na verdade, é um desejo de vê-lo fora dos jogos mal-disfarçado por quem não gosta da Argentina.
Ponderei assim ao meu amigo:
“Eu não ia dizer isso nem elaborei muito a respeito, porque torcer é algo muito natural e intuitivo, cada qual tem suas vivências e amores. Não é ‘hoje vou torcer por este ou aquele’ a partir de critérios racionais. É algo que se sente ou não. Mas sinto algo parecido ao que o meu amigo fala sobre a França, só que em relação à Scaloneta depois daquela virada impressionante sobre o Egito. Aquilo é futebol de muita qualidade com alma. Mas, já que falo na Argentina, quero relativizar alguns conceitos sobre a sua ‘elite racista’. Sim, é uma elite racista, mas não acho pior que a nossa. O Brasil teve a escravização mais longeva do mundo. Na Argentina, a escravidão foi proibida em 1853 (a Constituição toda remendada, mas ainda a atual). E tem um detalhe: em 1813, entre a Revolução de Maio (1810) e a independência de 1816 (exatamente 210 anos em 9/7), houve uma espécie de primeira constituição do então vice-reinado (que na prática estava separado da Espanha sob a alegação esperta de que ela era ocupada pelo Napoleão, mas na verdade era o começo da independência), em 1813, que previa a proibição da escravização. Por que isso não foi em frente? Por diplomacia. O nosso império pediu que isso não ocorresse porque os escravizados africanos iriam correndo pra lá, fugindo. Ou seja, a Argentina não aboliu a escravatura antes por causa do Brasil. Há uns 30 anos, li um livro que me marcou: ‘O Povo Brasileiro’, do maravilhoso Darcy Ribeiro. Ali eu entendi a essência da brasilidade, supostamente plural e inclusiva. Será? Hoje, vivo uma decepção em relação a isso. Quando um intelectual como o Jesse Souza fala aqueles absurdos sobre ‘sionistas’, eu penso: que país é este? Nem vou falar no cara que eu adorava por ter escrito uma obra maravilhosa sobre racismo estrutural e foi denunciado por assediar mulheres (o Sílvio Almeida). Bah! É muita contradição, de ambos. Portanto, não quero abrir um debate. Só quero racionalizar e ponderar, porque a Argentina foi um país onde morei e fui muito feliz, tanto no sentido pessoal quanto no profissional (trabalhava como um cão). Sobretudo fui muito bem acolhido. Mas não é pra abrir um debate (sei q torcedores argentinos fazem coisas horríveis, são uns barrabravas muito agressivos e acho q falta uma cultura antirracista até porque são poucos os negros por lá), é só pra refletirmos se o nosso país é tão melhor.
Não escrevi isso pra convencer ninguém de nada, mas pra trazer alguns dados que acho importantes. O time pro qual torci até sair fora? O Brasil, óbvio. É o meu país. Mas ando muito desencantado. Penso na decepção que os meus avós sentiriam ao entrar numa sala de aula da universidade pública brasileira com seu ódio aos judeus completamente normalizado. (…) Ah, e tem os próceres San Martín e Belgrano, dois caras absurdamente lúcidos, humanistas e verdadeiramente revolucionários. No Brasil, temos o Dom Pedro 1, que proclamou a independência se cagando em cima de um burrico. E depois se criaram muitos imaginários.”
…
Nem falei sobre a paixão dos argentinos, o pertencimento contagiante, o senso de nação. Quando algo ocorre com um “pibe” ou uma “nena”, o país inteiro se envolve no assunto. Quando a seleção joga, é um acontecimento que une o país. O assunto, além disso, é tratado com trilha sonora, seja rock ou cumbia. É realmente cativante.
…
Enfim, acho que as pessoas opinam sem se informar, algo corrente neste mundo emburrecido e embrutecido pelas redes sociais e pela polarização com seus cancelamentos irrefletidos. Dedico esse texto a tantos artista que amo, da cumbia da Gilda ao punk do Attaque 77, passando pelo folclore do Roque Narvaja pelo tango do Gardel e por tanta gente também do cinema (Numa lista sem fim / Limito-me ao Burman e o Darin), pelo Sandro, pelo Palito Ortega, pelo Lito, pelo Tanguito, por Los Gatos a navegar, pelo Manal, pelo Atahualpa, pelo Piazzolla, pelo Berni para ilustrar. E isso que não falei em Cerati, Lerner, Baglietto, Mercedes, Fito, Charly, Nito, Lebón, Spinetta, Calamaro, Lali, Fabiana, Indio e os Redondos, Vicentico, Mateo (Conociendo Rusia), Ciro (Piojos), La Mona, Airbag, Babasónicos, Bersuit Vergarabat, La Renga, Rata Blanca, Ratones, Vírus. De alguns devo ter me esquecido, aquilo é uma cultura linda e infinita. Mas deixei o León Gieco pra finalizar de propósito, com o seu grande clássico “Solo le pido a Dios”. Peço que um Lionel (Scaloni) tire o melhor do outro Lionel (Messi) e do Dibu ao Toro, ambos Martínez, San Martín no plural.
(a propósito do Lionel Scaloni, o piloto da Scaloneta, que baita cara legal! Gentil, simples e excelente treinador. Aparentemente, ótima pessoa. Dias atrás, um repórter argentino de 91 anos, que cobre Copas desde 1958, perguntou-lhe o time que iria a campo. O Scaloni não gosta de antecipar a escalação. Mas respondeu e disse: “Só falei porque era o senhor”. Respeita a imprensa, é delicado com as pessoas, leal a colegas e comandados. Vale a nossa torcida!)
Peço licença aos amadíssimos John, Paul, George e Ringo, que tanto venero, mas acho que entendem: dá-lhe, Albiceleste! Because the sky is blue.
PS: eu já tinha terminado meu texto quando a Espanha despachou a favorita França. Então vale este pé de coluna: caso os britânicos ganhem nas semifinais, ainda mais diante de alguns sentimentos antijudaicos (“antissionistas”) que percebo impregnar a Espanha tanto em declarações oficiais do governo e do seu jovem craque como em séries que abandonei e manifestações da classe artística (tipo Javier Bardem no Oscar), é para eles que torcerei na final. All we need is love.