
Você folheia o jornal (coisa mais antiga, não?), acessa o portal de notícias, assiste ao telejornal, liga o rádio (do carro… porque, além de mim, que tenho um Sony 12 faixas comprado em 1992 e levado para Luanda, onde trabalhei para o governo angolano; acho que pouca gente tem rádio em casa) e esses “personagens”, protagonistas da nossa vida diária, estão lá: as instituições, a desconfiança e o marketing.
Pesquisas recentes mostram que a desconfiança contamina de forma assustadora as instituições que mais precisam do oposto dela, a confiança. Olha os números: 86% dos brasileiros desconfiam do Congresso Nacional, dito Casa do Povo.
Quer dizer, o pessoal não confia na própria casa… Mas tem mais: 52% dos pesquisados não confiam nos partidos políticos, de onde saem as mulheres e homens que vão cuidar da Casa do Povo.
E, mais ainda, 49% dos brasileiros desconfiam do Supremo Tribunal Federal, cuja missão principal é cuidar das regras de funcionamento dos partidos e do Congresso Nacional. Pesquisa Atlas/Estadão, publicada no fim da semana passada, mostra que tem ministro do STF — Dias Toffoli — sofrendo desconfiança de 81% dos brasileiros.
O menos afetado pelo descrédito – o terrivelmente evangélico e bolsonarista André Mendonça – tem avaliação positiva de não mais que 43% dos pesquisados. Para 36% das brasileiras e brasileiros, Mendonça está devendo melhores atuações…
Aí, eu fico aqui imaginando como seria uma conversa entre as instituições, a desconfiança e o marketing. Os integrantes dessa mesa redonda seriam um partido político, que representaria, também, o Congresso Nacional, o STF, o marketing político, a desconfiança. Sem ser notado – como quase sempre acontece nas conversas entre autoridades, para alegria da desconfiança –, um cidadão acompanharia o papo.
O partido, quase suspirando: — Está difícil… É paulada de tudo quanto é lado. Se a gente faz alguma coisa, é suspeito. Se não faz nada, é porque tem culpa de alguma coisa… e a desconfiança só cresce!
O STF, ajeitando a toga: — Imaginem a minha situação! Às vezes, eu tenho a sensação de que vão sugerir a minha prisão e a soltura daqueles que condenei… Querem que minha função seja limitadora até de atividades profissionais dos meus parentes…
A desconfiança, com ar meio maternal (mas no fundo se sentindo vitoriosa): — Eu não devia dizer isso, mas vocês facilitam, né? Uns ficam mais tempo fechados naquelas cúpulas do Congresso, longe das pessoas — aliás, só se aproximam quando vão chegando as eleições —, sendo transparentes quando lhes convém… Outros se mostram atuando pelas lentes e microfones da TV Justiça. Aos olhos e ouvidos do povão, falam uma língua que pouca gente entende. Inteiros mesmo, com a transparência que o povão exige, só aparecem quando expostos à luz da lanterna da imprensa, que, às vezes, na pressa da comunicação em tempo real, publica denúncias meio mal apuradas, mas protegidas pelo um tanto desgastado sigilo da fonte. Isso vai abrindo espaço cada vez maior para mim…
O partido tenta uma reação, o STF balança a cabeça em sinal de concordância: — Nós temos regras, processos decisórios. Não dá para simplificar, abrir tudo!
A Desconfiança, quase cochichando, mas cheia de razão: — Nem pra esconder tudo…
O Marketing (com aquele jeitão de estrategista pragmático que uns críticos impacientes dizem ser temperado com pitadas de cinismo): — Ok, vamos organizar isso. O problema de vocês não é só reputação. E conexão. E esse defeito não se corrige com nota oficial, em linguagem dúbia…
O STF e o Partido, quase em coro: — Ah! Você está propondo a maquiagem da realidade?
O Marketing: — Se fosse simples assim, a desconfiança não tinha crescido tanto… O buraco é mais embaixo e bem maior. É a tal capacidade de narrativa. É aí que vocês perdem.
A Desconfiança, aproveitando a oportunidade, como sempre: — E é aí que entro, pelas portas e janelas escancaradas e sem controle das redes sociais.
O Marketing: — Exato. Hoje, quem conta a história não são vocês. Vocês esquecem que a tecnologia transforma todo portador de um celular, todo dono de um tablet, de um PC, de um notebook em um veículo de comunicação a espalhar todo tipo de informação, falsidades, manipulações, análises mal-intencionadas…
O STF
Mas nós comunicamos! Publicamos relatórios, decisões, dados, nossos votos são transmitidos ao vivo…
O Marketing: — E é aí que erram. Mais que divulgar notas, discursos, números, é preciso se conectar, construir entendimento.
A Desconfiança (provocando): — E enquanto vocês publicam relatórios, discursos de defesa, respostas mal ajambradas a quaisquer denúncias, venham de onde vierem, eu me alimento de tudo isso e, em 30 segundos, vou onde vocês nunca chegam: na cabeça do povo.
O STF e o Partido, de novo quase a uma só voz: — Então não temos saída?
O Marketing: — saída tem. Contra a desconfiança, usem coerência. Façam o que dizem. Ajam antes de precisar reagir. Quem só aparece para responder, se explicar, mesmo que fale bonito, alimenta a …
A Desconfiança, cheia de si: – Alimenta a mim, obrigada…
Nesse momento, o Cidadão se apresenta. Precisa falar bem alto, quase gritar, para ser notado:
— Olha aqui, pessoal! Vocês estão sempre muito ocupados com os próprios problemas e nunca percebem que eu estou sempre acompanhando as conversas de vocês. Me acompanha, sempre, a esperança de ouvir vocês falarem dos meus problemas — a escola das crianças, a falta de segurança, o ônibus atrasado e cheio, o posto de saúde sem médico — mas, no fim, quem buzina no meu ouvido é a desconfiança…
E segue o Cidadão: — Agora mesmo, ela, a desconfiança, está aqui cochichando: você viu? O Estadão conta que o advogado Kevin Nunes Marques, filho do ministro Nunes Marques do STF, tem mais de 500 clientes, já resolveu mais de mil processos e a empresa que paga a ele recebeu R$ 18 milhões do Banco Master e do grupo JBS. Kevin tem 25 anos de idade e um de profissão. Quanta competência, não?
O STF, o Partido, o Marketing e a Desconfiança, meio a contragosto, continuam ouvindo o cidadão:
Agora mesmo, a desconfiança deve estar esperando ansiosa essa delação premiada do ex-banqueiro vigarista Daniel Vorcaro. Teremos aprofundamento das denúncias já publicadas? Contratos com parentes de ministros garantiram benefícios ilícitos ao contratante? Audiências com autoridades renderam benesses ao delator? Vamos conhecer os nomes dos beneficiários do monte de dinheiro que passou pelas mãos do Vorcaro e da sua Turma (o pessoal contratado para ameaçar até fisicamente eventuais adversários). O negócio com o BRB vai ser esclarecido? Tudo isso é vitamina para a desconfiança… Vamos lá para 2019, quando tudo começou? As caronas do deputado Nikolas, as doações para campanhas dele, do guru dele, preso na Papudinha, e de outros correligionários da direita vão entrar na roda??
Eu, cidadão, aqui no meu canto, torço para que essa delação não seja uma estratégia vampetiana: o Vorcaro finge que delata e quem ouve finge que acredita.
E aqui, eu, autor dessas mal digitadas, volto. Não temos outra saída. Ou a delação é pra valer, ou a desconfiança vira certeza da falência das instituições. Aí, sai de baixo. Porque o que vai balançar, em outubro, é o edifício da democracia.
Ah! Você viu em quem a população mais confia, segundo as últimas pesquisas: Polícia Federal (56%), Polícia Civil (55%), Polícia Militar (55%) e Igreja Católica (49%).
Sinais de que tem muita gente cometendo crime e que, em último caso, devemos nos queixar pro bispo?
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