
Venho travando, há um par de anos, uma batalha com a Apple. De um lado está ela, com todo o seu poder silenciosamente tecnológico. Do outro eu, com meu exército barulhento de um homem só.
Não, não é briga de cachorro grande. É de cachorro grande com filhote indefeso, uma verdadeira covardia do capitalismo selvagem. Na selva, pior do que a selva.
A Apple insiste em que eu troque o meu velho celular. Insiste não, impõe. Para isso, propõe, com persistência, novos modelos no mercado e atualizações infinitas no velho. E vai tornando cada vez mais caduca a memória do meu aparelho.
Meu? A impressão ou mesmo a certeza é o que o aparelho é dela.
Eu resisto, comprando alguma nuvem e, sobretudo, desapegando de fotos de pôr do sol, vídeos de família e outros que tais. Que a lembrança fique no interior da pessoa.
A luta é diária e, pouco a pouco, vou aprendendo a conviver com um celular cada vez mais sem traços e desmemoriado.
Não posso não lutar, abrir mão, reconhecer derrota. A estratégia do agressor foi perfeita. Aos poucos, fez do aparelho meu banco, meu escritório, minha agência de viagens, minha ponte com o mundo.
Sem escrúpulos nem palavras, a Apple segue fazendo a mim e ao celular cada vez mais inoperantes para a vida.
Mas ainda operamos e, sem nos descartarmos, sobrevivemos a duras penas, em uma vida sem retenção.
Sem pena de nós, a Apple aguarda com otimismo a morte do celular e a pane na minha conta bancária.
Todos conhecem o final dessa história, crônica de uma morte anunciada, título de um escritor que fez uma obra imortal, sem nunca recorrer ao celular.
Em uma velha máquina de escrever, sem ser interrompido por plins ou memes, Gabriel García Márquez construiu belas metáforas.
Guardadas as nossas enormes diferenças, espero que, com a minha resistência, mesmo vã, eu possa estar construindo uma metáfora também.