
Que há gente tentando ser escritor imitando o estilo de quem já ocupa um lugar na literatura ou mesmo plagiando eu já sabia! O que eu só soube há pouco tempo foi que há quem esteja literalmente escrevendo e postando em plataformas de vendas com nossos nomes. E quando digo nossos é porque um livro, ou melhor, uma tentativa de livro de péssima qualidade está disponível, por R$ 9,90, em uma das de maior alcance de comercialização como tendo sido escrito por mim.
Para Todas as Helenas é o seu preguiçoso e sem originalidade título. Um livro sendo vendido em formato digital em uma conta de pessoa física, sem ISBN, ficha catalográfica, editora etc. Ou seja, um livro em que não podemos checar a origem, feito sabe-se lá por quem e com que fim. Eu não pretendia falar sobre isso. Mas aí, hoje de manhã, o escritor Luiz Ruffato, autor mundialmente consagrado, me manda uma mensagem com um “olha que doido” e a imagem de capa de um livro atribuído a ele. O Instituto é também o preguiçoso e sem-originalidade título de sua não obra publicada por um não escritor que quer se passar por ele.
E o que a gente faz com isso? Por ora, nada. Como disse o Ruffato, confiamos na inteligência de quem nos lê. Temos, e digo com muito orgulho, leitores inteligentes, cultos e perspicazes. Engana-se quem pensa que pode passá-los para trás. Engana-se, de modo geral, quem pensa que pode passar para trás a todo mundo, ainda mais o tempo todo. No ano passado, quando refilmaram a novela Vale Tudo, que vi durante os meus onze dias de COVID, reprisaram a fala da personagem considerada mais ética. “Você pode enganar todo mundo, mas não pode enganar todo mundo o tempo todo”, ela disse.
Dizem que a versão original dessa frase é do Abraham Lincoln, um dos mais populares presidentes dos Estados Unidos da América por ter assinado a emenda constitucional que aboliu a escravidão no país. A palavra “dizem”, como percebemos, refere-se a um sujeito indeterminado, alguém que não pode ser responsabilizado, processado, penalizado. E Abraham Lincoln não é, de fato, o seu criador. O autor é o teólogo francês Jacques Abbadie, e ele a escreveu em seu livro o Tratado da Verdade da Religião Cristã publicado em 1684.
Penso, cá com meu teclado, neste ano de 2026, o que Abbadie não diria da falta de ética com que seu pensamento e escrita foram tratados nos últimos séculos pelos que insistem em romper a linha invisível, mas sólida, da autoria que perpassa a cultura e o próprio tempo. Chamaria a essas pessoas de quê? De farsantes?
Eu, de vez em quando, sou foco de alguns. Gente que não entendo, mas dentro de uma incompreensão que não me faz mal no sentido de que me poupa de absorver seus rancores, invejas e até sofrimentos. Imagino ser dolorido ter de se passar por outra pessoa para se ter algum tipo de retorno. O que não me sensibiliza é a falta de empenho desses na construção de seu próprio prestígio e confiabilidade. Se eu existo, se não sou anônima e posso assinar meus livros, é porque leio, estudo, penso, escrevo e reescrevo quantas vezes forem necessárias. Trabalho.
Ser um sujeito indeterminado pode, para alguns, parecer uma vantagem. Penso que está muito mais para uma humilhação e para um crime previsto no Código Penal. No setor literário, como em todos os ligados à criatividade humana, não há manobras e anonimato que se sustentem para sempre e tampouco instrumentos que impeçam os leitores de detectarem o que é vivo e artístico do que é roubo ou mera simulação.