
Falar sobre autoestima, beleza e empoderamento feminino vai muito além da estética. É sobre identidade, pertencimento e, principalmente, coragem. Coragem de se olhar no espelho e se reconhecer, mesmo depois de tantos anos ouvindo que você precisava se encaixar em um padrão que nunca foi seu.
Durante muito tempo, o cabelo com curvatura foi visto como algo a ser “domado”, escondido ou modificado. Crescemos acreditando que o belo era o cabelo liso, alinhado, algo que não chamasse a atenção. E, sem perceber, muitas mulheres foram se desconectando da sua própria essência, silenciando sua identidade para caber em espaços que nunca foram feitos para elas.
Esse cenário, porém, começou a mudar. E não por acaso. O movimento de valorização dos cachos e crespos foi e continua sendo impulsionado por artistas, intelectuais, empreendedoras e influenciadoras negras que decidiram ocupar seus espaços com verdade. Mulheres que, com acesso à informação, ao ensino superior e também com sua ascensão econômica, passaram a questionar padrões impostos e a construir novas narrativas sobre beleza e pertencimento.
Hoje, assumir os cachos é um ato de resistência, mas também de libertação. É uma escolha diária de se aceitar, de se amar e ocupar espaços com autenticidade. Não é só sobre cabelo, é sobre história, raízes e reconexão.
Como profissional da área da beleza, acompanho diariamente mulheres em processos profundos de transformação. E eles não começam na cadeira do salão, mas no momento em que cada uma decide se permitir. Permitir-se tentar, olhar-se com mais carinho, reconstruir-se. Cada cacho resgatado carrega uma história de superação, mas também de renascimento.
Sobre ser cabeleireira, um estudo da L’Oréal, chamado “Na Raiz do PRO”, mostrou que 86% das pessoas que atuam nesta área consideram que a profissão aumentou seu padrão de vida. Os resultados mostram também que 87% querem seguir na área, pelo prazer no ofício e pela percepção de estabilidade financeira. Outro resultado mostra que as mulheres negras respondem por 51% das profissionais, e que 63% fazem cursos de atualização para oferecer o melhor para as clientes.
E é importante reconhecer: o mercado da beleza acompanha esses movimentos. Ele cresce, se adapta e se reinventa constantemente, mesmo em cenários de crise. Isso acontece porque a beleza está diretamente ligada à autoestima, que não é luxo, é necessidade. Por isso, quando mulheres se reconhecem, o mercado também se transforma para atendê-las com mais respeito, diversidade e representatividade.
A beleza real não está em seguir padrões. Está em reconhecer o que já é seu. Está na textura do seu cabelo, na sua essência, na sua trajetória. Quando uma mulher entende isso, ela não só transforma sua aparência, ela transforma sua postura, sua fala e a forma como se posiciona no mundo.
Empoderamento feminino também é isso: dar voz à própria identidade. É parar de pedir permissão para existir. É usar sua coroa, seja ela de cachos, crespos ou ondas, com orgulho, dignidade e força.
E, quando uma mulher se reconhece, ela inspira outras. Cria caminhos, fortalece histórias e constrói um movimento que vai muito além da estética: é coletivo, potente e transformador.
Que possamos seguir fortalecendo umas às outras, resgatando nossa autoestima e entendendo que a nossa beleza nunca precisou ser moldada, apenas reconhecida.
Eu sou a Jéssica Souza, mais conhecida como Jessy Rainha dos Cachos. Empreendedora e especialista em cabelos com curvatura, fundadora do Jessy Studio Beauty. Atuo transformando vidas por meio da autoestima e capacitando mulheres por meio da beleza. Oriunda do Bairro Restinga, em Porto Alegre, acredito no poder do conhecimento e do empreendedorismo feminino como ferramentas de transformação social. @jessyrainhadoscachos (Foto: Brenda Rodrigues)
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