
Quando ouvi pela primeira vez a expressão “farmar aura”, pensei que lá vinha mais um coach querendo ensinar a alinhar chakras com régua, aromaterapia de ozônio em orifícios especiais ou meditar com a vibração energética de bolinhas de gude.
Nada me preparou para o que vinha, e era muito pior do que eu poderia imaginar.
Cheguei a pensar que talvez fosse uma nova profissão do agro, dedução de farm = fazenda, logo, formar = fazendar, plantar, produzir algo de útil, físico ou não.
Mas espera, que continua piorando.
Os agros cibernéticos não pegam na enxada, eles farmam aura. Carpir um lote, então, nem colocando no Google eles pegam a referência.
E o que antes era um conflito ou diferença de gerações, virou um abismo que nem um portal interdimensional conecta.
Não acho uma geração melhor ou pior que a outra, mas me incomodou descobrir que a nova tendência da geração Z e Alfa, de farmar aura, significa “acumular estilo, moral, presença ou vibe positiva… No contexto social, significa agir de forma descolada, autêntica, para ganhar pontos de admiração, enquanto situações vergonhosas resultam em perda de aura*.
Não entendi muito o porquê do meu incômodo. Se por não entender mais a linguagem sem restrições ou se pelo significado mesmo.
A língua é viva e dinâmica, faz parte. Gírias, neologismos, linguagem técnica que se torna coloquial, tranquilo, vamos aprendendo.
Acho que olhar pra essa aura sendo cultivada com tanto agrotóxico social é que me incomoda. Uma plantação que já vem carregada de toxicidade pela raiz.
E tenho esse ranço de coisas que viralizam, de trend, de ser fruto de tiktoker. E ele aumenta muito quando uma expressão aparentemente inocente vem carregada de pressão social, comportamentos forçados, julgamentos, bullying e validação online.
Não é justo acrescentar essa camada de ansiedade pra quem está crescendo duas vezes, no mundo real e no virtual. Não basta ser, tem que parecer ser, ganhar pontos e viver numa realidade Black Mirror de somatória de pontos e auras farmadas.
Nota:
*’Farmar aura’: o que significa, como é usada e qual a origem da gíria: confere no G1
Todos os textos de Anna Tscherdantzew estão AQUI.

