
Eu conheço alguns homens que possuem uma raiva tatuada nas membranas dos órgãos vitais.
É muito mais difícil apagar marcas gravadas por dentro, que se instalam perenes como ferro quente no couro do gado.
Marcas daqueles que não sentiram leite suficiente nas mamas de suas mamães.
Ou aqueles que sugavam tetas de mulheres tão bondosas quanto furiosas, que cobravam o alimento e o aconchego com moedas de devoção, cuidados, vitimismo e amparos exagerados.
Ou simplesmente lhes foi negado o afeto básico, profundo, visceral, na forma de contato com pele e alimento.
Então, a raiva fica projetada, pois mamãe não está mais aqui, mas ELA está.
Mamãe negou? Soco NELA.
Mamãe enfrentou? Faca.
Limitou? Tiro.
Vive bem sem precisar mais alimentar? Nojo DELA.
Mamãe está velha, com os seios que foram comida agora caídos e inúteis.
Desprezo por ELA.
Para Freud, a libido (energia dos impulsos de vida) está na base de todos os vínculos humanos.
Todo vínculo tem uma base de desejo, prazer e investimento psíquico.
Investimento que, a meu ver, não trazendo retorno emocional (doentio ou não), serve de gatilho para o ódio do objeto “culpado” pela frustração do que foi desejado.
Porém, vejo um número bastante grande de mulheres que odeiam outras mulheres.
Minha mãe é uma.
No trabalho disputam cargos, fofocam, puxam o tapete e, às vezes, utilizam a energia sexual como forma de escalar posições.
São competitivas com outras mulheres e sedutoras com os homens.
No dia a dia, criticam as outras em vários aspectos de suas vidas.
Julgam aparências, posicionamento, comportamento e capacidade.
“Só podia ser mulher!” – eu ouvia toda hora, enquanto criança e adolescente, quando acompanhava minha mãe no trânsito de Porto Alegre.
Ela odiava a mãe e idolatrava o pai.
Detestava a irmã e competia com as filhas, inclusive disputava o seu homem como se ele não fosse nosso pai.
Mulheres do mundo todo detonam outras pelo simples motivo de viver e envelhecer.
É só prestar atenção nos comentários em perfis de famosas para ver que a competição de maldade é acirrada com os homens.
Claro, eu sou totalmente a favor de punir a misoginia, ela não é apenas detestável, é violenta e perigosa, pois, em uma sociedade patriarcal, o homem pode sentir, transar, fazer, ousar, viver e matar mais.
“Misoginia internalizada é quando uma mulher absorve ideias negativas sobre mulheres — que vêm da cultura, educação, mídia, etc. — e passa a reproduzir essas crenças, às vezes até contra si mesma ou contra outras mulheres.
Isso acontece porque vivemos em sociedades que historicamente valorizam mais o masculino. Com o tempo, essas ideias podem ser “internalizadas”.
Nem sempre o inimigo é ELE.
Generalizar nunca é bom.
Mônica Becker Dahlem é publicitária, jornalista, escritora. Barbara, Frida, Caderno Literário Ajuris, Casos de Sucesso SEBRAE.
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