
Castigado pela petulância de desafiar os deuses, o sagaz Sísifo vê-se enredado numa atividade repetitiva, enfadonha e aparentemente inacabável. Camus observa que “Sísifo, proletário dos deuses, impotente e revoltado, conhece toda a extensão de sua miserável condição: pensa nela durante a descida. A clarividência que deveria ser o seu tormento consumiu, ao mesmo tempo, sua vitória. Não há destino que não possa ser superado com o desprezo” (1942). O argelino coloca, a partir dessa leitura, uma hipótese provocadora: e se, mesmo diante do absurdo, Sísifo pudesse ser feliz? Reverter o absurdo do trabalho como castigo em sua própria dinâmica, vencendo atividade recorrente e entediante de modo a abraçar seu absurdo, abdicando de consolo ou recompensa.
Dostoievski crava, em sua obra “Recordações da Casa dos Mortos”, que “se alguém quisesse esmagar e destruir um homem por completo… tudo o que teria de fazer seria obrigá-lo a realizar um trabalho que fosse completa e totalmente desprovido de utilidade e significado. (1862)”, tornando improvável a felicidade preconizada. A frase expressa que o trabalho pode se constituir numa tortura psicológica tão intensa que, por promover o desperdício de seu empenho, destrua a dignidade do ser humano. Essa concepção não está isolada: ela ecoa uma tradição ainda mais antiga, na qual o trabalho aparece como punição. E o castigo de Adão? “No suor do teu rosto, comerás o teu pão, até que te tornes à terra” (Gn 3,19). O trabalho árduo resulta explicitamente como consequência da transgressão. De modo semelhante, na mitologia grega, Prometeu é condenado a um suplício eterno por ter concedido aos homens o fogo dos deuses. Em ambos os casos, a atividade ou o esforço humano está associado à culpa, à falta e ao castigo.
Seja como absurdo a ser enfrentado (Camus), seja como sofrimento destrutivo (Dostoiévski), seja ainda como punição divina (tradição bíblica e mítica), o trabalho aparece frequentemente vinculado à dor. Não creio, porém, que o trabalho seja o destino do homem, tampouco seu castigo metafísico, o preço da ousadia, do ímpeto da busca revoltosa. Também não o tomo como dádiva generosa de deuses e deusas do além. Essas interpretações, embora poderosas, tendem a naturalizar o trabalho como algo dado, imutável. O que me parece mais plausível é compreendê-lo como uma dimensão histórica da existência humana, atravessada por disputas de poder, formas de exploração e possibilidades de criação. Ora, se o trabalho não é uma condenação metafísica, mas uma construção histórica, então suas formas concretas precisam ser interrogadas.
Estou ciente de que, quando paramos o país para comemorar o Dia do Trabalho — uma data que já é celebrada em 157 países e é o único feriado não religioso no mundo. É bem possível que estejamos reconhecendo o valor dos homens e mulheres que, cotidianamente, vendem sua força de trabalho na construção de um país gigantesco e de uma vida melhor. Quiçá este seja o significado, pois são pessoas que empenham considerável parte da vida em busca de dias melhores. Ironicamente, é a tal lenda urbana que reza que o trabalho enobrece o homem. No entanto, essa celebração convive com uma contradição fundamental: ao mesmo tempo em que exaltamos o trabalho, naturalizamos condições que o tornam exaustivo, precarizado e, por vezes, desprovido de sentido.
A questão é que parece que colocamos tudo na obrigatoriedade de assentar-se em um sentido: precisamos de um sentido para viver, devemos construir um sentido para o trabalho. Tudo poderia ser bem mais simples se aceitássemos apenas existir, sem a neurose de termos que oferecer respostas a nós mesmos e aos outros sobre tudo que somos e fazemos. No entanto, em vez disso, passamos a produzir simulacros — não meras falsificações da realidade, mas construções que substituem a própria experiência vivida, organizando modos de parecer e de existir que se afastam da singularidade do que somos. Determinamos festas e celebrações que se ressentem da ausência dos conteúdos específicos de nossa existencialidade.
Que vamos dizer do Dia do Trabalho e do Trabalhador num mundo travado em guerras, no qual um louco brada a todo o tempo sentenças aterrorizadoras contra tudo e contra todos? Podemos refletir que o cidadão sequer tem o direito de manifestar seu desejo por mais tempo com a família, mais lazer, mais sossego no dia a dia, pois logo é chamado de vagabundo e preguiçoso. Eis a polêmica da escala 6X1! O ditado reza que o trabalho é árduo, mas seus frutos são doces e aprazíveis. Quais frutos? Aprazíveis para quem? Fico a cogitar o trabalhador como ator social, sujeito de sua vida, autor de suas escolhas.
É inegável que o trabalho é uma dimensão importante que integra a multidimensionalidade do animal que se faz humano. De verdade, ele não é somente homo faber. É, igualmente, ludens, sapiens, corpus, anima. E, embora seja tudo isso em sua especificidade, nada disso ele é isoladamente. O trabalho pode ser considerado uma componente importante na construção da identidade e na realização – mas o que, afinal, vem a ser essa tal realização? Não raramente, ela aparece como promessa de plenitude associada ao êxito, ao reconhecimento social ou à produtividade. Entretanto, essa noção pode operar como um dispositivo de captura, ao induzir o sujeito a identificar seu valor com sua capacidade de produzir e se adaptar às exigências do sistema, inserido no ciclo inexorável da produção e do consumo. Por isso, aquilo que se apresenta como realização pode ocultar formas sutis de alienação, nas quais o indivíduo se percebe realizado justamente quando está mais profundamente integrado a dinâmicas que o esvaziam.
Em tal horizonte, a atividade laboral é ambivalente, pois, ao mesmo tempo em que oferece sentido à existência, pode se tornar uma rotina alienante que suprime a liberdade humana, uma dualidade observada ao longo da história em diversos contextos culturais. Com tais proposições, não é intenção negar que o trabalho, como atividade humana profunda, possa espelhar nossos desejos mais íntimos e nossas mais elevadas aspirações. Vejam o que Marx (2000) escreveu: “o trabalho é antes de tudo um processo entre o homem e a natureza, no qual este, por sua atividade, realiza, regula e controla suas trocas com a natureza. Ele põe em movimento as forças naturais que pertencem à sua natureza corporal, braços e pernas, cabeças e mãos, para se apropriar dos substanciais naturais sob uma forma utilizável para sua própria vida. Agindo assim, por seus movimentos sobre a natureza exterior e transformando-a, o homem transforma ao mesmo tempo a sua natureza”. Assim, o filósofo propõe um ponto de inflexão decisivo, ao deslocar o problema do plano moral ou metafísico para o plano material e histórico. Para ele, o trabalho é um processo entre o homem e a natureza, no qual o ser humano transforma o mundo e a si mesmo, é um processo de relacionamento com a natureza. Ao mesmo tempo, reprodução de laços sociais que produziam objetos, relações e ideias específicas da sociedade. Contudo, nas condições do capitalismo, esse processo é profundamente alterado, pois o trabalhador se vê separado dos produtos de sua própria atividade. O que poderia ser expressão de criação torna-se experiência de alienação.
A história recente do Brasil mostra que conquistas sociais convivem com retrocessos persistentes. O desafio não é apenas defender direitos formais, mas resistir à normalização de modos de trabalho que dissolvem garantias, individualizam riscos e transferem ao funcionário todo o peso da sobrevivência. A Reforma Trabalhista, a precarização e o avanço da chamada “uberização” indicam que o problema do trabalho hoje não é sua ausência de sentido em abstrato, mas as condições concretas que esvaziam seu potencial de realização e ampliam sua dimensão de exploração. Infortunadamente, estamos acumulando perdas e retrocessos. Só para exemplificar, podemos citar: a Reforma Trabalhista de 2017; a crise de 2015-2016 com o registro de alta taxa de desemprego e aumento da informalidade, com substituição de empregos formais por ocupações precárias ou de menor remuneração; a Reforma da Previdência (2019) e o advento do trabalho por aplicativos, a chamada uberização.
Toda celebração do trabalho precisa ser acompanhada da memória das perdas, das lutas e das novas formas de exploração que se insinuam silenciosamente. Não há muito o que comemorar e não há por que celebrar sem chamar à consciência fatos que podem passar sorrateiramente. É preciso atentar que, se almejamos um povo satisfeito, é preciso pensá-lo em sua totalidade: trabalho, descanso, tempo livre, cultura, afeto, dignidade e liberdade. Só então a hipótese de um Sísifo feliz deixará de ser mero paradoxo literário para se tornar horizonte ético e político — não pela negação do absurdo, mas pela transformação das condições concretas da existência.
Junot Cornélio Matos, cearense de Juazeiro do Norte, é casado, pai de duas filhas e avô da pequena Ara e dos miúdos Cícero e Zui. Tem Licenciatura em Filosofia pela Universidade Católica de Pernambuco (1985), Mestrado em Filosofia pela UFPE (1994) e doutorado em Educação pela Universidade Estadual de Campinas – UNICAMP (1999). É professor do Departamento de Filosofia da UFPE.
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