
“Ao dizer ‘só para estudantes universitárias/os’, a funcionária da biblioteca estava me informando que o meu corpo não foi lido como um corpo acadêmico.”
Grada Kilomba
Tenho uma dica cultural que, provavelmente, não poderei seguir, mas penso que é mister compartilhar com quem pode. Desde o último dia 22 até 25 de outubro, no Sesc Pompeia, em São Paulo, é possível visitar alguns trabalhos da artista multidisciplinar, psicóloga e escritora afroportuguesa Grada Kilomba.
De Inhotim para São Paulo, a obra O Barco, de 2021, vai estar acompanhada de outros dois trabalhos mais recentes da artista: Ópera to a black Venus e Compressed time, ambas de 2024. Em continuidade dialógica com o barco, a Ópera inquieta com a pergunta: “O que nos diria amanhã o fundo do mar se fosse esvaziado hoje?” Pergunta que lembra que, mais do que tesouros, o fundo do mar guarda as marcas das guerras e da diáspora africana forçadas pelo colonialismo.
Kilomba trabalha trauma, memória, gênero e pós-colonialismo de uma maneira muito peculiar. A autora é amplamente conhecida no Brasil pelo seu incontornável livro Memórias da Plantação: episódios de racismo cotidiano (Cobogó, 2019). Um livro que é frontal no enfrentamento de questões que o racismo à brasileira – ainda muito embebido no mito da democracia racial – adora contornar, como políticas de cabelo, políticas sexuais e de pele. Nessa obra, a autora é magistral ao demonstrar como “o racismo funciona através do discurso. O racismo não é biológico, mas discursivo (p. 130).”
Quando se apresenta como multiartista, entendo que Grada Kilomba procura chamar a atenção para o vivo de uma obra que está em permanente continuidade com o seu corpo negro. Um corpo que carrega em si um movimento cultural e uma interlocução rebelde e profunda com a linguagem que, infelizmente, ainda é colonial. Gosto da ideia de que Kilomba trabalha tempo, mar e movimento como guardiões de uma memória, no fundo, sempre denunciada pela língua.
Gosto também da ideia de alguém que se propõe a ser multi e que coloca o corpo em um mundo tão hiperespecializado, no qual boa parte não arrisca quase nada sem antes falar com uma IA. Nada contra os usos sadios da IA, mas não creio que ela nos ajude a destituir a linguagem colonial. Como disse a poeta Audre Lorde, em 1979, as ferramentas do senhor nunca derrubarão a casa grande. Fica a dica.
Todos os textos de Priscilla Machado de Souza estão AQUI.
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