
Certa vez, um jornalista foi entrevistar o escritor argentino Jorge Luis Borges (1899-1986) e pediu para que ele falasse de sua vida. “Como assim, reagiu Borges, eu não sei nada sobre a minha vida! Não sei sequer a data de minha morte!”.
É realmente muito estranho lembrar-se do passado e não se lembrar do futuro, com o argumento de que um já “aconteceu” (não é mais) e o outro “não aconteceu” (não é ainda). Até outro dia, meus amigos marxistas se lembravam perfeitamente de como seria o futuro (da humanidade): sem classes sociais, sem estado, sem exploração! Fico ainda mais chateado por não saber qual foi a “causa” de minha vida que, por estar situada no passado, eu deveria me lembrar! Aliás, todo mundo pergunta, quando do falecimento de alguém, qual foi a CAUSA MORTIS, mas ninguém se pergunta qual foi a sua CAUSA VITAE, aquela que provocou tudo o que veio depois!
O grupo de saúde privada PREVENT SENIOR, o sistema de saúde que mais se aproximou das práticas médicas nazistas, aqui no Brasil (com a diferença de que, com a “Alta Celestial” que eles homologavam, os pacientes não saíam pela chaminé!), costumava falsificar atestados de óbito, mudando a CAUSA MORTIS. Dizer “do que” eu morri — e até falsificar um atestado — é fácil: eu quero é que me digam “do que” eu nasci, minha CAUSA VITAE. Que eu morra e vá habitar o desconhecido, eu até aceito; que eu “venha de lugar algum e volte para lugar algum” (H. Arendt, eu até admito. Mas habitar um mundo que jamais compreenderei, que não verei transformado segundo minhas rasas e ingênuas ilusões, e cujo “absurdo” se produz e se reproduz todos os dias, é inaceitável!
Por outro lado, que me peçam um CURRICULUM VITAE, todo mundo na academia acha normal, mas ninguém nunca me pediu um CURRICULUM MORTIS, a história de meus fracassos, que são tão abundantes quanto os meus “sucessos”. Nem CURRICULUM MORTIS nem CAUSA VITAE! Como Borges, não sei nada de minha vida…
Gostaria que uma PREVENT JUNIOR falsificasse minha CAUSA VITAE e registrasse ali que eu vim ao mundo para ser feliz, para me encontrar, para amar e ser amado, para aprender e ensinar… E que eu acreditasse, desde o início, na falsa declaração de vida que ela me daria. E que não houvesse nenhuma CPI que pudesse indiciar por “crime de responsabilidade” aqueles que me trouxeram ao mundo sem me consultar!
Borges ignorava a própria vida, não sabia a data de sua morte. Refugiou-se na Literatura, que é a melhor forma de que dispomos para inventar uma vida que, mesmo sem ter “causa”, valha a pena ser vivida. Nem que seja no interior do “absurdo”.