
“O que está lhe faltando, sua ingrata?”
Falo alto, terminando de regar minha planta, que deve ter, mais ou menos, a idade da minha casa.
Dou água, adubo, borrifo as folhas verdes feito o orvalho que lhe falta.
E ela ali, ainda viva, mas sem graça, procurando, com as pernas feitas de caule, se espichar e sorver da claridade mais resistência para não sucumbir à morte.
Algumas aranhas começaram a tecer suas teias entre os vãos de cada galho, e isso me soa como aviso: “ela está indo, a nossa vez não tarda”.
Sou feroz na defesa dos meus amores e de toda forma de vida e de justiça para o respiro e a felicidade de respiros e felicidades distintas da minha.
Sentei no chão, apoiando as costas nas vidraças, a planta à frente, e fui “ouvir” em vez de impor os preconceitos arraigados que falam mais sobre mim do que sobre aqueles que julgo.
“Aquele se expõe demais ou me ressinto da liberdade que ele tem?”
“Batom vermelho naquela idade é ridículo ou ridícula é minha falta de coragem de pintar a boca, as unhas, as bochechas de vermelho vivo?”
“Onde erramos?” Quando nossos filhos têm escolhas diferentes das nossas?
“Uma família de médicos e ela foi ser cozinheira, que tristeza.”
“Criei tão bem o meu garoto para acabar gostando de garotos; ele não está bem, não sabe o que quer.”
“Filho meu faz faculdade no exterior, é bem-sucedido, tem emprego fixo, cônjuges, carro próprio, rebentinhos para pilotar motocas elétricas, casa na praia.”
Ótimo se era isso que ele sonhava.
Se ele estiver meio apagado, vivendo com meio sorriso no rosto e nenhum nos olhos, mesmo com você dando saltitos de alegria pelo trabalho bem feito, é hora de sentar no chão com as costas nas vidraças e “ouvir”.
Estou vendo ingratidão em um ser vivo que está se esforçando para fazer o que pode com o que ofereço, ou tenho exigido que as coisas funcionem de acordo com as minhas vontades e gerem os resultados esperados por mim mesma?
Sentimos ingratidão pelas atitudes que julgamos serem corretas e nos frustramos com o resultado não esperado.
A frustração não nasce apenas do que deu errado, mas da distância entre aquilo que esperávamos e aquilo que aconteceu.
Ela cria uma expectativa proporcional ao esforço. “Se eu fizer tudo certo, vai dar certo.” Quando não acontece, parece quase uma injustiça.
Não perdemos apenas o resultado; sentimos que perdemos tempo, energia, esperança e, às vezes, uma parte de nós mesmos.
É especialmente difícil aceitar que podemos fazer tudo o que está ao nosso alcance e ainda assim não controlar o desfecho.
“Onde eu errei?” “O que faltou?” Às vezes procuramos uma falha pessoal para explicar algo que, na verdade, envolvia circunstâncias que não dependiam de nós.
“Eu fiz a minha parte, então mereço que dê certo.” Só que a vida não funciona necessariamente por essa lógica de merecimento.
A nossa parte é NOSSA e pode não ser suficiente para o outro.
Peguei minha plantinha idosa e fraca, levei para o pátio e desfiz em pedaços o vaso.
Vi um torrão de terra abraçado por “veias” verdes que se projetavam com sede, com força e ânsia, tentando ultrapassar os limites do plástico.
Não era ingratidão, tampouco despeito aos meus cuidados.
Era apenas fome de liberdade e espaço.
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Mônica Becker Dahlem é publicitária, jornalista, escritora. Barbara, Frida, Caderno Literário Ajuris, Casos de Sucesso SEBRAE.